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Crônica

CPI, com i de Ícaro

por Edgard Catoira — publicado 08/05/2012 12h21, última modificação 08/05/2012 12h21
É preciso acompanhar até onde irão deputados e senadores da 'CPMI do Cachoeira' e o quanto estarão imunes a interferências superiores
icaro

Cartaz do filme "I de Ícaro"

A instalação de uma comissão parlamentar de inquérito para investigar relações promíscuas de autoridades brasileiras com bandidos empresários e empresários bandidos soa como uma vitória, e é. Mas a opinião pública deve ficar atenta ao trabalho do Congresso. E os miasmas que começam a exalar de Brasília justificam os temores de que desse lodaçal só vai sair... lodo, com pouquíssimas esperanças de que se apure a fundo tudo o que deve ser apurado.

Uma CPI chapa branca, conduzida por interesses político/corporativos, seria o que de pior poderia acontecer. A investigação não pode servir de instrumento de administração da crise, para que se escolham os anéis – ou “agnelos” – que eventualmente serão entregues para poupar dedos mais preciosos. Se é para "blindar" esse ou aquele amigo do rei/rainha, apanhado com seus cupinchas chafurdando no dinheiro público em alegres vilegiaturas em Paris ou Mônaco, melhor não fazer o Congresso passar por (mais uma) vergonha.

A propósito do assunto, lembro-me do extraordinário filme de Henri Verneuil, I de Ícaro, da década de 1970. A história é inspirada no assassinato do presidente John Kennedy e no trabalho da Comissão Warren que investigou o crime. No filme, o país, o presidente assassinado e a comissão têm nomes diferentes, mas é tudo muito semelhante. A comissão conclui que o assassinato foi obra isolada de um louco, mas um procurador, interpretado por Yves Montand, não se conforma com o resultado e inicia uma nova investigação para alcançar a verdade.

Outro aspecto muito interessante do enredo do filme é a apresentação de uma experiência do psicólogo Stanley Milgram que, nos anos 60, procurava entender até que ponto pessoas de bem, em razão de ordens superiores recebidas, eram capazes de infligir punições a pessoas inocentes, com as quais não mantinham qualquer relação – tal como ocorreu, por exemplo, durante o extermínio de judeus na Alemanha nazista.

O grau de submissão à autoridade determinava a escolha dos agentes que deveriam participar das diferentes fases da "Solução Final”. Os mais obedientes e submissos às ordens, fossem elas quais fossem, acionavam as válvulas das câmaras de gás.

Portanto, de volta ao mundo atual, é preciso acompanhar com muita atenção até onde irão deputados e senadores da “CPMI do Cachoeira” e o quanto estarão imunes a interferências superiores.

Concluirão que tudo não terá passado da ação isolada do inqualificável Demóstenes?

Ou que se trata de uma conspiração maior, de pessoas frias e calculistas que formaram uma verdadeira parceria público-privada para assaltar cofres públicos?

Os integrantes da CPMI estarão, de fato, comprometidos em localizar todos os envolvidos ou farão uma seleção conveniente de culpados, a fim de poupar os aliados mais próximos do poder? Portanto, fiquem de olho nos próximos movimentos dessa gente.

O mito de Ícaro, que sintetiza a trama do filme de Henri Verneuil, provoca uma sensação de grande frustração. Quando o filho de Dédalo alça voo com as asas de cera, aproxima-se muito do sol e cai. Para a jornada da nossa CPMI, esperemos um final melhor. O sol representa a verdade. Que nossos investigadores parlamentares não se deixem cair nem sejam derrubados  antes de alcançá-la.

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