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Corrida ao centro na política gaúcha

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 07/05/2010 17h38, última modificação 07/09/2010 17h40
Embaralha a disputa pelo governo do Rio Grande do Sul. Ninguém sabe para onde vai o PP

Embaralha a disputa pelo governo do Rio Grande do Sul. Ninguém sabe para onde vai o PP

A disputa eleitoral no Rio Grande do Sul entrou novamente num momento confuso. Quando tudo parecia se estruturar em torno a quatro candidaturas definidas politicamente, de novo o jogo ficou embolado no meio do campo.

Até semana passada, era praticamente certo que o eleitor gaúcho teria pelo menos quatro possibilidades de escolha. Apareciam como consolidadas uma alternativa de direita (a atual governadora, Yeda Crusius, PSDB, apoiada pelo PP), uma de centro ou centro direita (o prefeito de Porto Alegre, José Fogaça, PMDB, secundado pelo PDT), uma de centro esquerda – ou de esquerda (o ministro Tarso Genro, PT, possivelmente apoiado pelo PCdoB, PSB e outros); uma de ultra esquerda (Pedro Ruas, PSOL). Outros atores, como Beto Albuquerque (PSB) e Luis Augusto Lara (PTB) apenas faziam barulho em busca de uma maior valorização. Neste quadro, o embate principal provavelmente ocorreria entre Tarso Genro e José Fogaça. Mas a hipótese de Yeda vir a crescer no processo não estava descartada, principalmente no caso de conseguir o apoio do PP e de ancorar sua reeleição na campanha presidencial de José Serra.

Névoa no pampa - Neste momento, tudo isso parece ficção. A candidatura de Yeda não é mais certa. O isolamento de Tarso pode vir a ser superado. E até a união de contrários, PMDB e PP, arquirrivais na política gaúcha, principalmente nos municípios do interior, pode vir a acontecer.

Hoje, a política gaúcha está enevoada. O desmonte do cenário veio por baixo e por cima. Por baixo, porque o PPS, aliado de Yeda de primeira hora, assim como os candidatos a deputado do PSDB, não aceitam de modo algum a coligação na chapa proporcional com o PP. Os progressistas têm grandes puxadores de voto e uma coligação proporcional lhes daria vantagem, tornando quase impossível a eleição de deputados tucanos ou pepessistas.

Com isso, o PP voltou ao mercado das negociações e ameaça aderir a Fogaça. O grande lance do PP nesta eleição, depois da sustentação da governadora tucana, é a candidatura ao Senado. A jornalista Ana Amélia Lemos, do grupo RBS, lançou-se na disputa pelo partido e está em campanha aberta nas últimas semanas. Contando com a força das bases do interior, o PP agora também apresenta um nome viável para a chapa majoritária, seja esta qual for. Com o passe valorizado no mercado, o PP gaúcho sonha em compor a chapa de José Serra, colocando um quadro nacional como vice do tucano.

Se o cenário é de tormentas no terreno da governadora Yeda Crusius, as nuvens não são menos carregadas sobre José Fogaça. A intenção inicial do prefeito de Porto Alegre de só ser candidato por uma ampla aliança não se configurou. Até agora, de significativo, só o PDT perfilou-se ao lado dele. PTB e PSB já tiveram inúmeras chances de aderir ao peemedebista e não o fizeram.

A novidade agora é o PP, que ameaça compor com Fogaça. Esta é uma hipótese pouco provável, mas o certo é que Fogaça, que pretendia mostrar amplitude diante de um Tarso isolado, parece estar com dificuldade neste terreno. Nem Fogaça ampliou muito, nem Tarso está irremediavelmente isolado.

Ainda por baixo, os sonhos de Beto Albuquerque de ser candidato da renovação se revelaram só sonhos, principalmente depois que Ciro Gomes foi retirado da disputa nacional. Restou ao PSB gaúcho aderir a uma ou outra alternativa, provavelmente Tarso.

Este, aliás, teve sinais positivos do PC do B que deveria se aliar ao petista esta semana, mas recuou para tentar atrair junto consigo o PSB de Beto Albuquerque. Se conseguirem demover o socialistas e trazê-los para a chapa de Tarso, os comunistas com certeza sairão ganhando muito. Podem até vir a ter apoio do PT porto-alegrense para sua estrela Manuela como candidata a prefeita de Porto Alegre em 2012.

Manuela, na última eleição em Porto Alegre, tinha tudo para eleger-se prefeita. Errou ao adotar um marketing com um viés anti-petista, quando o eleitor de Porto Alegre quer alguém que dialogue com ele (e não com o PT – ou contra o PT), mas teve boa votação e ficou como uma boa promessa. Mais cedo ou mais tarde, Manuela será prefeita da capital dos gaúchos, e isso pode acontecer em 2012.

Tensões nacionais - Por cima, a tensão no momento corre por conta das campanhas presidenciais. Dilma havia feito uma ofensiva no estado. Esta semana foi a vez de Serra. O governador paulista veio ao Rio Grande do Sul principalmente para assediar o PMDB. Obedecendo a uma lógica de interiorização, Serra foi a Santa Maria para ser recebido pelo prefeito Cesar Schirmer, apoiador declarado de sua candidatura, e ciceroneado pelo deputado Osmar Terra (PMDB), ex-secretário da Saúde de Yeda Crusius.

Serra, em seu roteiro, esforçou-se por aproximar-se do PMDB, por adular o PP, distanciar-se de sua governadora e atacar jornalistas. Sua investida no PMDB encontrou limites. E a adulação ao PP soou falsa. Serra mostrou que quer o PP nacionalmente, mas lavou as mãos no terreno regional. Junto ao PMDB, uma reunião com a bancada estadual do partido teve a presença de apenas dois deputados. Para tentar atrair as forças de centro da política gaúcha, Serra adotou um discurso doce frente a Lula. Na prática, nem atendeu suas bases tucanas ou antipetistas, nem atraiu José Fogaça e os lulistas.

O prefeito José Fogaça, encontrou-se com o tucano, mas jura que foi por acaso. Em que pese uma posição até agora neutra na disputa nacional (o PMDB gaúcho mantém a defesa retórica da candidatura própria), Fogaça escolheu o deputado Pompeu de Matos (PDT), apoiador declarado de Dilma, para vice e o deputado Mendes Ribeiro Filho (PMDB), também apoiador da ministra, para coordenador de sua campanha.

O doce Serra - Em sua passagem pelo Rio Grande, Serra pela primeira vez deixou claro que a direita gaúcha não terá nele um baluarte. Isso altera de modo significativo o cenário estadual. A direita gaúcha parece estar se dando conta hoje do drama que viveu a esquerda nos pampas quando Lula lançou a Carta aos Brasileiros.

Aliás, Dilma, em seu ensaio de campanha no Rio Grande do Sul não fez muito diferente. Cumpriu o roteiro do seu partido e prestou um tributo à militância do PT, mas não deixou de afagar José Fogaça nem de dizer que deseja o seu apoio e não fará nenhuma “maldade” contra sua candidatura.

A presença das campanhas nacionais no Rio Grande do Sul, convergindo desesperadamente ao centro do espectro político e ao senso comum do eleitor (Dilma defendeu o emprego, Serra contra-atacou com a segurança), impõe aos gaúchos uma reflexão: afinal, por que ser de direita, de centro-direita, de centro-esquerda ou esquerda num mundo onde só existe o extremo centro na política?

Neste quadro, não deixam de ter razão os eleitores que acabam optando pelo PSOL. O esquerdismo, assim como o neoliberalismo gaúcho, não muda nem mesmo diante de um tsunami.

Ou melhor, não mudava, porque nem mesmo a ultraesquerda parece estar conseguindo escapar do rolo compressor. Esta semana, o partido solar gaúcho estreou uma campanha na TV focada na ética. O PSOL, de olho no militante de classe média que construiu o PT no estado, agora posa de defensor radical da ética. Para quem defendia o verdadeiro socialismo, reduzir-se à defesa da ética na política é um sinal dos tempos...