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Mino Carta

Conversas do passado

por Mino Carta publicado 08/12/2011 18h27, última modificação 06/06/2015 18h20
Em tom polar, insólito, digo a Robert Civita: “Contarei até três, como advertia minha mãe, e se você não estiver dentro do elevador, irei quebrar-lhe os dentes”
Olivetti

Mino Carta conta como foi sua saída da Editora Abril durante a ditadura militar. Foto: we-make-money-not-art/Flickr

Tão Gomes Pinto escreveu um belo texto que me diz respeito, generoso como sempre. Refere-se a um episódio que de fato nos envolveu a ambos e conta uma conversa desenrolada entre os mármores do palácio da Justiça em Brasília quando de uma visita de Roberto Civita, conhecido na Editora Abril como Arci, e Armando Falcão, especialistas em injustiças.

Tão, um dos melhores companheiros de profissão e na vida, relata a versão deste encontro dada por Arci, não sei em qual sede. Registro, de todo modo, a confissão: Falcão pedia a minha cabeça e a Abril se apressou a atendê-lo. Em troca de um empréstimo de 50 milhões de dólares pela Caixa Federal e o fim da censura.

Aos navegantes forneço os termos e as circunstâncias do relato que Arci fez a mim da conversa com Falcão. Reproduzo passagem do livro que acabo de escrever, intitulado O Brasil.

De novo olhos de ovo frito me encaram dentro na moldura de um rosto gordo outrora devastado pela varíola e hoje por uma tempestade de cravos. Acabo de dizer ao Falcão que pedi esta audiência para entender como se deu seu recente encontro com Robert Civita.

Melífluo, Falcão recita: “Você está muito tenso, tem trabalhado demais, chegou a hora de descansar, que tal uma temporada na minha fazenda de Quixeramobim?”

A gema se faz mais vermelha. Atalho: “Obrigado, mas o que busco agora é outra coisa”.

“Tá vendo, ansiedade pura, imagina o que seria balançar na rede de Quixeramobim, esticada entre as árvores frondosas, cada paineira gigante, uma beleza, e água de coco, ar bom...”

“Quem sabe em outra ocasião, agora eu gostaria de saber como foi o tal encontro.”

“Já que você insiste... Corriqueiro, mais um dos que tenho tido com Victor e Robert Civita, com Edgard Faria e com o Pompeu de Souza. Todos repetem há mais de dois anos que a Veja fica aí latindo contra a gente por sua causa, que você é o único responsável pela linha editorial tão agressiva em relação ao governo. Então, o que você queria que eu fizesse? Disse: se vocês estão com a gente e o homem não, tirem o homem de lá.”

“Quem pode, pode”, digo eu, e saio de passo leve. Também no palácio do Ministério da Justiça o mármore foi esbanjado. Mussolini preferia o travertino, poroso e sem o brilho da pedra de Carrara. Caminho refletido pelas paredes que me acompanham, pegam-me a meditar sobre as razões de Vici e Arci, preferiram o passa-moleque velhaco à honrosa solução que eu propusera duas vezes durante o ano anterior. Por quê? Imagino o rompante de Robert, figuro o momento em que diz ao pai “deixa comigo”. Vinha ele ao trote na direção do ministro para revelar o tino e a energia do castelão estadista. A antecipar os dias do seu reinado, até para mostrar-se mais decisivo do que o fundador.

Rumino as situações vividas nos últimos vinte dias, desde minha ciclônica saída da sala do chairman. A primeira decisão do estadista foi proibir minha entrada no Edifício Abril e cancelar meu nome do expediente, mas a redação borbulhava em agitação. Dorrit Harazim, boa jornalista de vocação diplomática, arguta na mente e pacata no trato, empenhou-se em uma espécie de mediação. Tive razões para supor que havia em Veja quem desejasse meu retorno e a consideração me deu prazer, embora para mim a saída fosse irremediável.

“Olha aqui – diz Dorrit no telefone –, convenci o velho a promover um encontro contigo, ele quer ser representado pelo filho, topa?”

Ah, o estadista... Topo, amanhã às sete da noite, na minha casa. Arci é pontual. Digo: “Propus duas vezes uma saída tranquila, por que escolher a traumática?”

Agora senta-se à minha frente, expressão pretensamente altiva, está claro que prefigurou o diálogo com todas as falas de um lado e do outro. Ocorre, esclarece, ter surgido de improviso a oportunidade de nos livrarmos da censura. Interrompo: “E de receber o empréstimo”. Ele concorda, barítono de pausas americanas entremeadas a grunhidos, o que levava o Faoro a definir gago todo cidadão de Tio Sam.

“E como apareceu esta oportunidade de ouro?” Simples: Falcão a desenhou com mão de fada. “Tão somente ao tilintar de trinta moedas, perdão, de cinquenta milhões de dólares?” Não, claro que não, os dólares são apenas a consequência.

“Como se desenrolou a conversa com o Falcão?”

“Sim, a conversa... Muito boa, cordial. Ele observou que você anda muito nervoso, inquieto, sobretudo pessimista.”

“E você disse o quê?”

“Não pude deixar de concordar, o Falcão constatou o fato.”

“Bom saber. E depois?”

“Depois, foi muito claro: o Mino ganhou espaço demais e a esta altura o que convém à Abril é colocar alguém de total confiança no lugar dele, Pompeu de Souza, por exemplo...”

Em tom polar, insólito, digo sem descruzar as pernas: “Contarei até três, como advertia minha mãe, e se você não estiver dentro do elevador, irei quebrar-lhe os dentes”.

Alvo fácil, dentes descomunais sempre à mostra. Faço a minha contagem com as pausas de Cabo Kennedy mas sem regressão, um... dois... Nem chego ao três e o senhorzinho já se enfurnou no elevador.

 

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