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Política

Os rumos da oposição

Convenção tucana: unidade no discurso, divisão na ação

por Matheus Pichonelli publicado 29/05/2011 15h52, última modificação 29/05/2011 16h11
Rebelião de vereadores, briga por postos-chave e esforço para tirar (ou manter) ostracismo de Serra ficam de fora da fala oficial no evento que reconduziu Sérgio Guerra à presidência

Não foi exatamente a oxigenação defendida por setores do PSDB após a terceira derrota consecutiva do partido em uma eleição presidencial.

Na convenção que selou a manutenção do ex-senador e agora deputado Sérgio Guerra (PSDB-PE) na presidência da legenda, e do agora ex-senador Tasso Jereissati (CE) no comando do Instituto Teotônio Vilela (ITV), no sábado 28, a única novidade nos campos tucanos foi a criação de um conselho político feito na medida para abrigar o ex-prefeito, ex-governador e ex-presidenciável José Serra.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o senador mineiro Aécio Neves, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o governador de Goiás, Marcone Perilo, também vão integrar o grupo, que terá poder de deliberação na executiva nacional tucana. Serra, que pretendia presidir o ITV, vai presidir o conselho.

No evento, realizado em Brasília, chamou atenção a tentativa dos tucanos de demonstrar unidade após as cotoveladas trocadas, em público e nos bastidores, em torno da sucessão da legenda. As feridas ficaram abertas após as eleições, quando o grupo ligado a José Serra se movimentou para ejetar da presidência da legenda o atual mandatário, Sérgio Guerra. Pouco depois, o berço tucano se viu em chamas ao ver o grupo ligado a Geraldo Alckmin assumir os principais postos dos diretórios paulista e paulistano da legenda. Como rebelião, nada menos do que seis vereadores, aliados ao prefeito Gilberto Kassab (PSD) e a José Serra, deixaram o partido, insatisfeitos com o que chamaram de perda de espaço para o grupo alckmista.

A criação de um conselho encabeçado por Serra, a um ano das eleições municipais que podem levá-lo de volta à prefeitura, minimiza de alguma forma o ostracismo do ex-governador dentro do partido. Desde a derrota na corrida presidencial, Serra só havia conseguido destaque em palanques virtuais: no Twitter, no seu site de variedades recém-lançado, e em discussões pontuais no Congresso em torno da reforma política.

Numa primeira tentativa de demonstrar unidade, Serra chegou junto de Aécio, Fernando Henrique Cardoso e Sérgio Guerra à convenção. Todos estavam de braços dados quando entraram no auditório principal. Aécio, nome favorito no partido para disputar a Presidência da República, em 2014, ficou o tempo todo ao lado de Serra, outro nome cotado para o posto. O ex-governador recebeu afagos do colega mineiro, que citou a “estatura moral” do colega paulista. Aécio disse também que o PSDB era um “partido sem dono”.

Em seu discurso, Sérgio Guerra também tentou despistar os rumores de divisão na legenda: “O PSDB nunca esteve dividido. Essa afirmação é uma fraude”, disse.

O esforço de demonstrar unidade foi tanto que assim resumiu o cientista político Celso Roma, especialista em partidos políticos, logo após observar o resultado da convenção: “É um leninismo às avessas: unidade no discurso e divisão na ação. No PT acontece o oposto: divergência de opinião e unidade de ação”, disse Roma à CartaCapital.

Entre os convidados da convenção estava o presidente do Democratas, José Agripino Maia, que seguiu o figurino e também fez um discurso em favor da união e da aliança entre os dois partidos.

Roberto Jefferson, delator do mensalão e presidente do PTB, também marcou presença na festa tucana, e não  perdeu chance de comentar a atual turbulência no Planalto, em meio ao suspeito enriquecimento do homem-forte do governo, Antonio Palocci. “O Palocci já deveria ter aberto ao procurador os contratantes do serviço. Ele não tem que temer, se não deve”, disse Jefferson, para quem o momento inspira “apreensão”, mas deixou claro que uma CPI, hoje, apenas criaria turbulência no governo de Dilma Rousseff.

Já Aécio Neves, que até então vinha poupando o chefe da Casa Civil, cobrou, ainda que timidamente, explicações do ministro ao lembrar que os tucanos já deram sua assinatura para a abertura de uma CPI. “O Brasil clama ainda por explicações em relação ao aumento do patrimônio do ministro, e o PSDB tem utilizado todas as instâncias possíveis para que isso ocorra”, disse.

Serra, por sua vez, deixou o assunto de lado em sua fala. Como tem feito em seu site, preferiu gastar o tempo do discurso dizendo que a presidenta eleita governa cada vez menos e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva governa cada vez mais. No calor da hora, esqueceu até mesmo de devolver o afago do senador mineiro - afinal, o principal responsável por deixá-lo de fora da presidência do instituto de estudos tucano e garantir que o posto ficasse com Tasso Jereissati.

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