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Companheiros coronéis

por Leandro Fortes — publicado 09/06/2010 15h02, última modificação 06/09/2010 15h04
No Norte e Nordeste, o PT se enlaça cada vez mais a velhas oligarquias da política brasileira

No Norte e Nordeste, o PT se enlaça cada vez mais a velhas oligarquias da política brasileira

Pragmatismo, nesta altura dos acontecimentos, é uma palavra pouco precisa para explicar o enlace do PT com velhas oligarquias do Norte e Nordeste. Capitulação talvez seja um termo mais apropriado. Exagero? Mire o que se passa no Maranhão, estado dominado pelo clã Sarney, cujo patriarca é um apoiador de primeira hora do presidente Lula. Se até 12 de junho, data da convenção nacional do PMDB, o PT local não tiver anunciado apoio incondicional à atual governadora Roseana Sarney, o diretório nacional do partido fará uma “dramática” intervenção, nas palavras de um dirigente de grande prestígio. O recado é claro: o importante é garantir palanques sólidos a Dilma Rousseff.

A decisão de intervir no PT maranhense foi tomada em conjunto entre o Palácio do Planalto e o presidente do partido, José Eduardo Dutra, e está baseada em uma resolução do Congresso Nacional que acatou a pré-candidatura à Presidência da ex-ministra da Casa Civil. No encontro, os delegados conferiram à direção nacional o poder da última palavra nas alianças regionais. Como no Pará, onde a governadora Ana Júlia Carepa enfrenta artilharia pesada do grupo do deputado federal Jader Barbalho, o Maranhão é a situação mais espinhosa do acordo entre os partidos.

Em 26 de março, durante a convenção estadual da sigla, a turma liderada pelo deputado federal Domingos Dutra, a Ação Camponesa Operária (AÇO), historicamente minoritária no PT, conseguiu vencer o grupo comandado pelo ex-deputado federal Washington Luís, da corrente Construindo um Novo Brasil (CNB). Por 87 votos a 85, o diretório estadual decidiu apoiar a candidatura ao governo do deputado Flávio Dino (PCdoB), contra Roseana Sarney.

O resultado foi homologado pelo secretário de organização do PT, Paulo Frateschi, levado a São Luís como fiscal e emissário do governo e do diretório nacional. Frateschi elogiou a condução da votação e, na mesma hora, descartou a possibilidade de intervenção nacional. Não era bem assim. Ao menos três reuniões seguidas foram solicitadas por integrantes da corrente CNB para discutir a anulação da convenção. O principal argumento era a suposta desorganização e o excesso de gente no evento – cerca de 500 participantes, dos quais 174 eram delegados escolhidos democraticamente em outro encontro do partido, em novembro de 2009. Também tentaram convencer, sem sucesso, o PCdoB a retirar a candidatura de Dino. O último movimento foi o de anunciar, sem jamais trazer a público, um abaixo-assinado com 98 assinaturas de delegados favoráveis à aliança com o PMDB.

Alheio à decisão formal do PT maranhense em favor da candidatura de Dino, o ex-deputado Washington Luís organizou uma reunião festiva com Roseana Sarney, em 16 de maio, em um hotel de São Luís. Lá, com a presença de petistas ligados ao CNB e correligionários da família Sarney, presenteou a governadora com uma camiseta do PT e anunciou que o “manifesto” será enviado à executiva nacional do partido com o intuito de encerrar o assunto no Maranhão.

O deputado Dutra reclamou e surgiram boatos de benesses a quem assinou o manifesto. A direção nacional do PT, em consequência, decidiu investigar a denúncia de que a adesão à campanha de Roseana Sarney tenha saído por 20 mil reais para cada delegado que mudou de lado. “É bem possível que isso tenha acontecido mesmo, pois esse é o estilo de Sarney”, acusa o deputado. “Assim como a chantagem e o uso da Justiça contra os adversários.”

Petistas contrários à aliança com o PMDB fizeram uma cerimônia simbólica de lavagem da estrela do PT por causa da camiseta oferecida a Roseana. Por ser de um modelo pequeno, a camiseta nem chegou a ser vestida pela candidata. Ainda assim, foram usados sabão em pó e creolina para, segundo Dutra, tirar a “catinga” (fedor) do símbolo petista.

Ponta de lança do PT sarneyzista no Maranhão, o ex-deputado Washington Luís é o dono do misterioso abaixo-assinado com 98 nomes de delegados favoráveis a Roseana Sarney.
Caso seja verdadeiro, o documento é também o registro de conversão de 13 delegados que antes apoiavam a candidatura de Flávio Dino e, de uma hora para outra, passaram para o lado da peeme-debista. Por telefone, o ex-parlamentar disse manter o documento em sigilo porque se trata de levantamento feito para informar apenas o diretório nacional. “Tem coisa que não há interesse em divulgar.”

Os argumentos de Washington Luís escondem uma propensão adesista cuja origem não está somente na submissão ao projeto nacional do PT, mas também a interesses pessoais. O deputado passou 20 anos no PCdoB, entre 1967 e 1987, quando, então, ingressou no PT. Por duas vezes, tentou ser deputado federal, em 2002 e 2006. Eleito suplente nos dois pleitos, conseguiu assumir os mandatos, por períodos variáveis, graças aos acordos de parte do PT maranhense ligado a ele com o clã Sarney.

Nas eleições de 2002, com a vitória de José Reinaldo Tavares (PMDB), então aliado de Sarney, um acordo entre o governo federal e o clã dos Sarney fez criar a Secretaria Extraordinária de Medicina Preventiva do Maranhão, para a qual foi designado como titular o deputado Remi Trinta (PL) – parlamentar mais tarde denunciado pelo Ministério Público Federal por fraudes no Sistema Único de Saúde (SUS). Washington Luís entrou no lugar de Trinta, mas por pouco tempo. Em 2004, Tavares brigou com os Sarney e a secretaria extraordinária foi extinta. Assim, Trinta voltou para Brasília e Washington Luís, para São Luís.

Em 2009, depois da cassação do governador Jackson Lago, Washington Luís arranjou um jeito de voltar à Câmara Federal, desta feita no lugar do deputado Walmir Maranhão. Eleito pelo PSB, Maranhão mudou de partido (foi para o PP) e de lado. Após a migração de partido, virou secretário estadual de Ciência e Tecnologia. Washington, então, retornou a Brasília, onde ficou até o fim de março deste ano, quando Maranhão reassumiu o mandato. Nas próximas eleições, o líder do petismo pró-Sarney no Maranhão tentará, outra vez, ser deputado federal.

No Pará, o PT vive uma novela semelhante. Embora em escala menor, a situação tem idêntico potencial explosivo. A reedição da aliança com o PMDB é considerada fundamental para reeleger a governadora Ana Júlia Carepa. Sem falar na necessidade de manter um palanque único para Dilma Rousseff no maior colégio eleitoral da Região Norte.

A dificuldade está em controlar as divergências entre a governadora e Barbalho, poderoso cacique do PMDB local e nacional. Carepa tem desagradado Barbalho ao restringir o loteamento de cargos no governo para o PMDB. O deputado devolve com uma série de denúncias contra o governo nos meios de comunicação que controla. O clima azeda a cada dia, mas Lula ainda aposta na capacidade de Michel Temer, pré-indicado como vice na chapa de Dilma Rousseff, de enquadrar os diretórios peemedebistas renitentes. Até agora, Temer não mostrou essa força e aumentam os casos de rebelião nos estados. O caso mais recente é o do Rio Grande do Sul, onde o PMDB local reluta em aderir à aliança com o PT.

Em Sergipe, o governador petista Marcelo Déda fez um movimento exitoso do ponto de vista eleitoral. Manteve como aliado o principal oligarca do estado, o deputado federal Albano Franco, do PSDB. Conhecido pela inconstância partidária, Franco governou o estado por três vezes e, desde os tempos da ditadura, mudou de legenda quantas vezes foi necessário para apoiar quem estivesse no poder federal. Única exceção foi quando da chegada de Déda ao poder estadual, em 2003. Franco permaneceu no PSDB, mas aproximou-se politicamente de Déda, a ponto de ter se juntado formalmente a ele e ao PT para compor a aliança que elegeu, em 2008, o atual prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira, do PCdoB.

“Minha relação com o Albano é civilizada”, afirma Déda, para quem Franco não tem o “perfil clássico do oligarca perseguidor e repressor”. Segundo o governador, essa boa relação será mantida mesmo com a impossibilidade de uma aliança com os tucanos em 2010, quando se candidatará à reeleição.

Em Sergipe, é o PSDB nacional que pressiona a base local a não aderir ao PT, mas à candidatura do ex-governador João Alves, do DEM. “Por aqui, essa relação do PSDB com o DEM depende mais da lei da gravidade do que de alguma formulação política”, ironiza Déda.

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