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Com o Brasil de porre, tenho medo é da ressaca

por Mauricio Moraes publicado 10/03/2016 09h15
Mais difícil que sair da crise econômica será emergir da atual realidade politica
Gustavo Lima / Câmara dos Deputados
Plenário da Câmara

Em 8 de dezembro, deputados celebram eleição de comissão do impeachment que, dias depois, foi derrubada pelo STF: a crise é enorme

Sabe aquela história de que o gigante acordou em 2013? Parece que o Brasil de fato se levantou. Só que tomou um porre e anda batendo a cabeça. A atual crise na qual nos enfiamos é muito mais profunda do que a recessão alardeada no noticiário econômico. E o pior ainda está por vir.

Desde que teve início, a Operação Lava Jato tem ocupado diariamente as manchetes da imprensa e estremecido a República. De forma inédita, um banqueiro, um senador líder do governo, um megaempresário e outros figurões foram presos.

O juiz Sérgio Moro nunca escondeu a grande inspiração para a Lava Jato – a operação Mãos Limpas, que no início dos anos 1990 arrasou a elite política da Itália.

Os grandes partidos do país, como os Socialistas, a Democracia Socialista, o Partido Liberal e a Democracia Cristã desapareceram após a operação que botou na cadeia grandes lideranças políticas italianas, sob aplausos da opinião pública e da imprensa. Qualquer relação com o PT no Brasil de 2016 não é mera coincidência.

A operação Mãos Limpas tinha lá seu objetivo altruísta, mas a história mostrou que o efeito colateral foi desastroso. A desintegração da classe política italiana abriu espaço para os salvadores da pátria. Aí se explica a ascensão de Silvio Berlusconi, a construção de seu monopólio midiático e todo o bunga bunga que veio junto.

Quanto à roubalheira, um dado ilustra bem como andam as coisas na Itália duas décadas depois da Mãos Limpas. No último Índice de Percepção da Corrupção, da ONG Transparência Internacional, a Itália ocupa o 61º, longe de seus vizinhos europeus e mais perto do Brasil, o 76º.

O argumento aqui não é que a Lava Jato não deve investigar e tudo fique impune. Mas é preciso lembrar que ninguém está acima da lei. Nem o ex-presidente Lula, nem a presidenta Dilma Rousseff, e tampouco os procuradores da Lava Jato e o juiz Sérgio Moro.

Na sexta-feira 4, a condução coercitiva claramente arbitrária do ex-presidente Lula mostrou que a Lava Jato pode estar tomando um rumo perigoso. E quem falou isso é o insuspeito ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello.

"O que nós poderemos ter amanhã ou depois, quanto a este ou aquele acusado? Conduzir alguém debaixo de vara sem que este alguém antes tenha se recusado a, espontaneamente, como cidadão, como homem médio, a comparecer perante a autoridade judicial?".

A sanha justiceira da Lava Jato, alimentada pelo circo midiático da grande imprensa e do ódio das redes sociais, é um dos sinais mais aparentes do Brasil de porre, que também se manifesta em delírios conspiratórios de alguns representantes da esquerda. O resultado é uma miopia generalizada.

Some-se a isso a hipocrisia da oposição de direita – Aécio Neves (PSDB) chama para manifestação a favor do impeachment de Dilma quando ele mesmo é citado nas delações da Lava Jato. Alguém realmente acredita que o PSDB da máfia da merenda e do "trensalão" paulista tem moral para falar contra a corrupção de qualquer partido?

O que se vê é o desmonte de um sistema político que há tempos anda podre. Mas o que ficará no lugar? Quem vai reformar o sistema? O mesmo Congresso conservador que elegeu Eduardo Cunha como presidente da Câmara? Quem ficará no lugar de Dilma caso ela seja afastada? Michel Temer? Cunha? Quantos golpes ainda estão reservados contra Lula até 2018?

Quantas vezes Marina Silva mudará de lado nesse percurso? Luciana Genro acha que agora vai? Ciro Gomes vai resistir ao primeiro sincericídio? Aécio realmente crê que será o herdeiro politico do caos? Neste jogo, somos todos perdedores.

O discurso contra a corrupção cabe na boca de todos os populistas. A eleição de 2014 já mostrou que as Jornadas de Junho de 2013, que tanto prometeram em termos políticos, desaguaram em um Congresso ainda mais conservador. Logo, o momento é menos promissor do que parece àqueles que almejam ocupar espaços a serem vagos.

E a polarização política só faz aumentar a instabilidade. Pedir um grande diálogo nacional é como pregar no meio do deserto. Se vivêssemos no Brasil de 30 anos atrás, uma intervenção militar já seria uma opção na mesa. Evoluímos um pouquinho, mas não o bastante para evitar uma ressaca dolorida.

Mais difícil que sair da crise econômica será emergir da atual realidade politica. E o mais assustador é que no Brasil, um dia o país do futuro, o horizonte é de curto prazo – até a próxima edição do Jornal Nacional.