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Civilização da biomassa?

por Ricardo Young — publicado 14/03/2008 16h05, última modificação 08/09/2010 16h05
O pesquisador do nosso folclore Luís da Câmara Cascudo costumava afirmar que o Brasil não tem problemas, apenas soluções adiadas.

O pesquisador do nosso folclore Luís da Câmara Cascudo costumava afirmar que o Brasil não tem problemas, apenas soluções adiadas.

As oportunidades que as mudanças climáticas estão abrindo para o país e para os empreendedores daqui me fazem pensar: vamos novamente adiar soluções ou, invertendo a tradição histórica, assumir nosso potencial de liderança e, a partir da nossa inventividade, oferecer ao mundo a perspectiva de uma outra civilização, mais inclusiva e sustentável? A resposta ainda é incerta. Mas exemplos há de que a criatividade brasileira pode, sim, apresentar alternativas que representam avanço no sentido da sustentabilidade, isto é, de um modelo que leva em consideração progresso econômico com inclusão social e equilíbrio ambiental. Para citar apenas um exemplo, ao qual pretendo voltar em outro artigo: a bioquerosene de um dos quatro motores do Boeing 747 da Virgin Airways, que realizou o primeiro vôo em avião de carreira propelido a combustível alternativo (trecho Londres – Amsterdã), foi “inventada”, aperfeiçoada e produzida por uma empresa brasileira localizada em Fortaleza (CE), a Tecbio, fundada pelo engenheiro e professor Expedito Parente, internacionalmente conhecido como “pai do biodiesel”. O bioquerosene do Boeing foi produzido a partir do babaçu, numa cadeia produtiva que garantiu renda e trabalho a agricultores e trabalhadores rurais das regiões mais carentes do Brasil.

Parente começou as pesquisas e os testes de biocombustíveis em aviões da Embraer, ainda na década de 1970, por insistência do Ministério da Aeronáutica. O primeiro avião propelido a bioquerosene foi um Bandeirante que, em 1984, voou de São José dos Campos (SP) a Brasília. Mesmo com o sucesso da iniciativa, o biocombustível foi engavetado por quase vinte anos. A provável escassez de petróleo e a busca por energias alternativas que mitiguem os efeitos do aquecimento global deram novo impulso ao projeto.

Em 2001, Expedito Parente fundou a Tecbio e vem se dedicando cada vez mais a desenvolver energias provenientes da biomassa. A produção de biocombustíveis, segundo Parente, tem três missões: ambiental, já que a cadeia produtiva das oleaginosas utilizadas em biocombustíveis mais seqüestra do que emite carbono; social, pois a produção destas plantas pode garantir renda e trabalho aos pequenos produtores agrícolas do país; e estratégica, porque a humanidade vai entrar num novo ciclo de matriz energética e o Brasil tem tudo para despontar como liderança na área.

Para o economista Ignacy Sachs, esta matriz energética baseada principalmente em sementes oleaginosas vai engendrar o que ele mesmo denominou “civilização da biomassa”. Em contraste com a “civilização do petróleo” iniciada no século 19, a provável era da biomassa terá potencial para, com um planejamento sistêmico da produção e do consumo, incluir milhões de miseráveis do campo não apenas nas atividades agrícolas, mas com empregos rurais não-agrícolas, promovendo renda e trabalho decente o ano inteiro. É este, por sinal, o grande desafio do desenvolvimento sustentável: reorganizar a sociedade de modo a que as soluções para antigos problemas não sejam mais adiadas. Não basta remendar o mercado ou mexer um pouco nas instituições. Precisamos de outros paradigmas que nos ajudem a inventar uma outra cultura, um outro modo de vida menos perdulário.

O tamanho enorme da tarefa e a exigüidade de tempo para executá-la fazem muita gente acreditar não ser possível promover esta transformação. No entanto, a existência de iniciativas como a dos biocombustíveis nos indica que sim, um outro mundo é possível. Os empreendimentos atuais que buscam a sustentabilidade apontam para um dado importantíssimo: a mudança cultural que precede qualquer outra já está ocorrendo em vários planos e, na maior parte das vezes, impulsionada por empresas que gerem os negócios de outra maneira, buscando também incluir no planejamento estratégico as vertentes social e ambiental, não apenas econômica.

Alguns exemplos que corroboram este raciocínio: a consolidação do Pacto Global, o compromisso estabelecido pela ONU para empresas, segundo o qual as signatárias se comprometem a combater a corrupção e respeitar o meio ambiente, os direitos humanos e os direitos trabalhistas na matriz e nos países onde mantêm filiais; os índices de sustentabilidade em bolsas; as diretrizes de boa governança do IBGC, etc. Estes e muitos outros indicadores criam plataformas para uma outra cultura organizacional, baseada no diálogo, na ética e na transparência.

Esta nova cultura, por sua vez, está induzindo a sociedade a repensar os padrões de produção e consumo até agora prevalecentes. Essa capacidade de construir valores e ética num processo de entendimentos multissetoriais põe a empresa num lugar especial: o de agente de transformação da sociedade. De novo o exemplo que citei no início deste artigo: uma cadeia poluente e não renovável como a do combustível fóssil pode ser repensada de maneira a produzir o impacto oposto. De um processo isolado, como é a cadeia do petróleo, passamos a outro compartilhado e renovado continuamente pelo diálogo.

No processo de construção da sociedade sustentável, a empresa precisa desempenhar o papel de agente interativo e catalisador, em um sistema que necessita urgentemente de um novo patamar de equilíbrio para progredir. Sem prosperidade para todos, não há negócio que dure. Portanto, empresa-parceira da busca por uma sociedade mais inclusiva e mais justa não é utopia. É imperativo de gestão.

Por isso, mais do que nunca, precisamos de gestores – públicos e privados – que sejam comprometidos com resultados e, ao mesmo tempo, competentes para construir a confiança com as partes interessadas. A construção dessa confiança passa pela habilidade política, entendida como a capacidade de articular os diversos interesses envolvidos no negócio, de estabelecer diálogos transparentes baseados em valores. Por que devo apostar no biocombustível? O que ganho se deixar o carro em casa? As respostas a estas e a outras perguntas aparentemente simples podem definir o destino dos brasileiros e da humanidade num futuro muito próximo. Talvez não estejamos vivos para conferir. Mas se acertarmos as respostas, talvez possamos afirmar: o Brasil, por ter tido a visão e as soluções antecipadas, não tem problemas hoje.