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Cinema político de elite (1ª parte)

por Coluna do Leitor — publicado 07/12/2010 10h01, última modificação 07/12/2010 12h21
Se o agora bem-sucedido cineasta José Padilha pretende manter a linha política de seu trabalho, precisa ser justo e ético para com a História deste País e chegar até ao final da mesma. Ou, melhor dizendo, ao começo. Por Haroldo Nobre Lemos

Por Haroldo Nobre Lemos*

O Sr. José Padilha , embalado pelo sucesso de seus "Tropa de Elite 1 e 2", passou a classificar seus trabalhos como "cinema político" pelo fato de que "discutem aspectos da realidade" tal como disse em entrevista concedida à Ricardo Boechat da Band News FM.

Em tempo: o cineasta refere,in verbis, "eu classifico meu próprio trabalho como político...". Ora, se o trabalho é dele tem que ser "próprio". De quem mais seria?

De todo modo, referiu ainda que tal motivação teve início (sic) "enquanto corria numa esteira de academia vendo televisão" e assistia aos desdobramentos do sequestro pavoroso do ônibus da linha 174. De início, ficou interessado no Sandro, o sequestrador, e depois nos policiais do BOPE, aproximou-se dos mesmos e acabou por fazer um documentário sobre o sinistro e posteriormente dois filmes de longa metragem sobre a vida dos policiais.

Na mesma entrevista entrevista disse também que fez um documentário antropológico intitulado "Segredos da Tribo" (não veiculado no Brasil), outro sobre o pantanal; sobre a fome fez "Garapa" que (sic) "passou dois anos atrás em berlim em Berlim" (penso que isto quer dizer que este também nunca foi veiculado no Brasil) etc. Agora está dirigindo um novo filme político intitulado "Nunca Antes na História Deste País" com roteiro do sr. Luís Eduardo Soares.

De modo sarcástico diz que "é a história fictícia de um partido de esquerda idealista que assume o governo e começa a pagar salários mensais aos deputados". A despeito do sofrível uso da Língua Portuguesa, ele, de certo, está a se referir ao escândalo do mensalão que envolveu o PT e outras siglas, cuja apuração integral dos fatos não chegou a termo.

Se é assim, e se o agora bem-sucedido cineasta pretende manter a linha política de seu trabalho, precisa  ser justo e ético para com a História deste País e chegar até ao final da mesma. Ou, melhor dizendo, ao começo!

Precisa chegar àquele que fez parar as investigações sobre o suposto pagamento aos deputados, uma vez que foi ele quem deu início, de modo despudorado e escandaloso, ao processo de compras de votos para aprovação de emendas constitucionais. Uma em particular, a da REELEIÇÃO PRESIDENCIAL. Isso mesmo, o Prof. Fernando Henrique Cardoso.

A diferença foi que FHC pagou à vista, cerca de meio milhão de reais para cada deputado interessado, tendo como pagador o então poderosíssimo e, hoje, falecido, Ministro das Comunicações, Sérgio Motta.

E é fato de notório conhecimento que se os parafusos fossem apertados até o fim chegar-se-ia ao tucanato e ao seu líder máximo e emplumado.

Por que não fazer um filme sobre a CPI dos Correios? Esta que teve à frente o outrora muito valente deputado Eduardo Paes (ex-PSDB) e atual burgo-mestre do Rio de Janeiro que, do alto de sua arrogância e iluminado pelo Farol de Alexandria chegou a chamar o Presidente da República de chefe de quadrilha. Parece que foi perdoado(??). Não seria esse um excelente "thriller" político?

Confesso que a entrevista foi mais longa, mas me foi muito sofrido ouvir o mal-falar (forma e conteúdo) do sr. cineasta que agora, na posição neófita de intelectual e antropólogo e que classifica tudo como "kafkiano" (terá ele lido Franz Kafka...em verdade?), passou a fazer análises sociológicas absurdas sobre corrupção policial. Estas sim, todas "kafkianas". Mas esta já é outra história.

Só espero que ele não acorde um dia pensando que virou uma barata. Que coisa!

Em 07 de dezembro de 2010, do policialmente desditoso Estado da Guanabara.

Haroldo Nobre Lemos é professor doutor em Biologia e Virologia pela UFRJ.

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