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Política

Rio de Janeiro

Choques de ordem e desordem

por Edgard Catoira — publicado 11/10/2011 15h11, última modificação 11/10/2011 15h13
Poda de árvores no Canadá leva 15 minutos: não suja nem atrapalha o trânsito. Já no Rio de Janeiro...

A Prefeitura do Rio faz questão de aparecer para fazer valer a política do “Choque de Ordem” na Cidade Maravilhosa. Quando passeamos pela orla da Zona Sul podemos ver o préstimo das autoridades: os camelôs, hoje muitos bolivianos, atentos, saem correndo com suas mercadorias quando se aproxima um carro da Secretaria Municipal de Governo.

Quem parar o carro em local impróprio, seguramente, vai ter seu carro rebocado. Nós, cidadãos, apesar de até ficarmos solidários aos infratores, acreditamos que nossa qualidade de vida vai melhorar, como aconteceu no “Tolerância Zero” de Nova York.

No dia a dia, porém, a gente é obrigada a cair na real.

Nesta terça, 11 de outubro, às 11 horas, dois caminhões fecharam o trânsito da Rua Cinco de Julho, em plena Copacabana. Mesmo com carros estacionados nos dois lados da rua, as árvores devem ser podadas.

Enquanto um trabalhador sobe com a grua para serrar os galhos mais altos, outros cinco auxiliares observam. Numa esquina atrás, um guarda municipal impedia que os desavisados avançassem pela via pública. Aviso irritante, já que para poder ir para o outro lado da Cinco de Julho, a volta é enorme, num trânsito terrível. Coisa de 20 minutos a mais para se chegar à Santa Clara, onde termina a rua.

Ontem, dia 10, uma poda de árvores como essa engarrafou a importante Rua das Laranjeiras, um dos caminhos de quem utiliza o Túnel Rebouças. Atrapalhou ainda mais o trânsito em Botafogo,  Flamengo e Catete.

Nessa hora, me lembro de Vancouver, Canadá, onde estive há um mês. Por coincidência, um pequeno caminhão com uma grua e um reboquezinho parou em frente ao ponto de ônibus onde eu estava. A operação chamou minha atenção: dois homens trabalhavam na poda das árvores. Um, na grua, serrava os galhos. O outro, pegava as folhas e pedaços de madeira para jogar no reboque, que já triturava tudo, expelindo a serragem resultante para o caminhão, onde o material já era compactado. Em 15 minutos, sem sequer ser percebido por pedestres e motoristas, a poda estava feita. Normalmente, sem choque algum, sem política especial. Claro que fotografei tudo.

Graças a Deus, porque agora posso mostrar como a cidadania é respeitada no Primeiro Mundo. Lá, o que seria um escândalo público, aqui é coisa corriqueira, que só irrita, mas não faz aflorar nossos baixos instintos por sermos oficialmente desrespeitados como cidadãos.

E o Choque de Cidadania?

No outro lado da Cinco de Julho está a sempre congestionada Santa Clara. Com buracos feitos pelas companhias de gás e de luz para livrar a cara de possíveis novas explosões de bueiros, os pedestres se atropelam pelas calçadas originalmente largas da via.

Mas os motoristas que também se ferrem. Os caminhões estacionam em filas duplas, como na foto, feita no mesmo horário da poda das árvores que estão a um quarteirão dali. Afinal, precisam descarregar suas mercadorias, ainda que em horário pouco ortodoxo. Tudo dentro do democrático direito de ir e vir, garantido pelos policiais do entorno.

A propósito, pedestres e motoristas veem tudo mas não se queixam. Apenas estrepam-se passivamente.

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