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Política

Segundo Turno 1

Cartas na mesa

por Leandro Fortes — publicado 14/10/2010 11h31, última modificação 22/10/2010 11h37
O PT revê os erros, convoca aliados vitoriosos e monta central contra os boatos. O PSDB aposta no desgaste de Dilma e ressuscita a era FHC

 O PT revê os erros, convoca aliados vitoriosos e monta central contra os boatos. O PSDB aposta no desgaste de Dilma e ressuscita a era FHC

Foi em 14 de setembro, a 19 dias da votação do primeiro turno, que os analistas da campanha de Dilma Rousseff souberam, mas não deram a devida importância, ao aparecimento extemporâneo de um tema espinhoso – o aborto – como mote de campanha da oposição. O sinal nem foi dado no horário eleitoral gratuito, nem havia chegado ainda às redes sociais da internet. A novidade veio pela boca de Mônica, mulher do candidato José Serra, do PSDB, durante um corpo a corpo em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Ao se dirigir a um camelô, Mônica definiu Dilma: “Ela é a favor de matar as criancinhas”.

Apuradas as urnas eleitorais, na noite de 3 de outubro, o comando da campanha petista aliava raiva e frustração por não ter detectado precocemente o movimento fundamentalista embutido na frase da tucana, obviamente terceirizada por Serra. Pior: por ter sido incapaz de reagir diante da avalanche de boatos jogados na internet nos dias subsequentes, apesar de ter montado uma equipe supostamente comandada por um especialista em redes sociais, o publicitário Marcelo Branco. Chamado às falas no Twitter pelos eleitores petistas, Branco negou ter sido escalado para o serviço e passou a culpar a coordenação de comunicação social da candidata. A partir daí, iniciou-se um disse não disse que só foi resolvido com a criação de uma “central antiboatos”, comandada a partir de Brasília, mas com capilaridade nos estados.

De todas as evidências pesquisadas pelos petistas para explicar o fracasso da estratégia montada para eleger Dilma Rousseff no primeiro turno, a inépcia da turma da internet e a demora para se montar um grupo de contra-ataque aos brucutus jogados na rede pelo esquema tucano foram eleitas como fatores fundamentais. O escândalo de tráfico de influência protagonizado por Erenice Guerra, segundo avaliação de assessores de Dilma Rousseff,- serviu de anticlímax num momento em que a ex-ministra crescia nas pesquisas (ela tinha cerca de 55% quando o escândalo veio à tona), mas foi mesmo o terrorismo cibernético com viés religioso que empurrou boa parte dos votos para Marina Silva, do PV.

Focados, somente agora, em articular uma reação organizada à campanha religiosa desencadeada pelos adversários, os petistas começaram a descobrir que não teria sido difícil desarmar a boataria. Bastaria, por exemplo, ter lido com cuidado o programa de governo do PV, disponível no site do partido. Está lá, no item “g” do capítulo sobre Reprodução Humana e Cidadania Feminina: “Legalização da interrupção voluntária da gravidez com um esforço permanente para redução cada vez maior da sua prática através de uma campanha educativa de mulheres e homens para evitar a gravidez indesejada”.

Ou seja, quem votou na evangélica Marina Silva no primeiro turno das eleições por creditar a Dilma Rousseff o discurso pró-aborto cuidadosamente montado na rede mundial de computadores caiu em um engodo. Além disso, o programa do PT, simplesmente, não trata de aborto, ao contrário do que está escrito naquele do PV. E mais: a posição da petista sobre o tema é exatamente a mesma de José Serra, referendada pelo tucano quando ministro da Saúde, no governo Fernando -Henrique Cardoso, de tratar o tema como uma questão de saúde pública. Mas as obviedades sobre o assunto foram descobertas tarde demais.

Embora tenha sido escondido pela campanha do PSDB depois de apontado como operador de brucutus cibernéticos na internet, o tucano Eduardo Graeff, ex-secretário-geral da Presidência no governo FHC, nunca descansou. Montou uma equipe de ao menos 50 militantes, dividida em turnos, para alimentar as redes sociais, sobretudo no Orkut e no Twitter, tanto de forma remunerada como voluntária. O PT, com uma equipe três vezes maior, não conseguiu ser tão eficaz. O e-mail com a declaração falsa de Dilma de que “nem Jesus Cristo” seria capaz de impedir a sua eleição circulou por uma semana, inclusive nas redes sociais, antes de ser detectada como ameaça pela campanha governista. Mesmo assim, quando descoberta, nada se fez.

Branco, mais preocupado em defender a política de software livre e transmitir os comícios ao vivo pela internet, acabou colocado de lado na nova ofensiva montada pelo PT para neutralizar a ação dos brucutus no segundo turno. Definida no mesmo dia em que Dilma se reuniu com os governadores aliados eleitos, na segunda-feira 4, a estratégia prevê a participação das assessorias de todos eles, além das montadas em torno das candidaturas de deputados e senadores da base de apoio governista, numa rede de fiscalização, captação e divulgação de informações na internet. Em suma, um cerco cibernético à boataria.

Essa ação será coordenada por uma equipe mista, a partir do escritório da agência Pepper Comunicação Interativa, em Brasília, sob supervisão do marqueteiro da campanha, o jornalista João Santana. No Blog da Dilma, usado para comunicação direta entre a candidata e o eleitor, foi aberto um espaço exclusivo para desmentir boatos e receber denúncias sobre falsas informações divulgadas na rede. Contratados pelo PT ainda no primeiro turno, os americanos da Blue State Digital, responsáveis pela campanha de Barack Obama na internet, também foram convocados para organizar a reação.

Na quinta-feira 7, o coordenador da campanha do PT, José Eduardo Dutra, pediu à Polícia Federal para investigar a origem de um panfleto distribuído um dia antes em um encontro de Serra com aliados, em Brasília. O papel trazia mensagens contra o Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), chamado de “decreto preparatório para um regime ditatorial” bolado para um eventual governo Dilma.

A ida ao segundo turno serviu para abrir espaço a aliados designados, até então, para fazer serviços periféricos, consultados apenas para dar palpites sobre estratégias eventuais, caso do ex-governador Moreira Franco, do PMDB. Na guerra das próximas semanas, Franco virou general, passou a se articular com as lideranças peemedebistas recém--eleitas e reeleitas e, claro, a negociar a participação deles num futuro governo. Ou seja, virou o homem da partilha. Uma das conversas tocadas por ele, já nos primeiros dias, foi com o governador reeleito de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli, do PMDB, que apoiou Serra no primeiro turno e ajudou o tucano a ser o mais votado no estado.

Assim, Moreira Franco ganhou lugar no núcleo duro da campanha, ao lado de Antonio Palocci, José Eduardo Dutra, José Eduardo Cardozo e Fernando Pimentel. Também do PMDB, o deputado Henrique Eduardo Alves, do Rio Grande do Norte, foi convocado para o contra-ataque.

Outro que saiu fortalecido foi o deputado Ciro Gomes, do PSB do Ceará. Magoado por ter tido a candidatura abortada pelo Palácio do Planalto, Ciro chegou a elogiar Serra, a quem detesta, há três meses. Agora, recebeu carta-branca para bater duro no candidato tucano. E o fez, sem disfarçar o prazer.

Na terça-feira 5, depois de se reunir com a cúpula da campanha petista,- Ciro distribuiu tiro para todo lado. Primeiro, afirmou que os eleitores de Marina Silva, entocados na classe média, estão preocupados com a “frouxidão moral” demonstrada por PSDB e PT, sobretudo na formação das alianças eleitorais. O deputado é um crítico contumaz da aliança petista com o PMDB, a quem já chamou de “ajuntamento de assaltantes”. A ida de Dilma para o segundo turno, afirma, foi “uma lição de humildade”. Votar na candidata do PV, garante, foi uma boa maneira de evitar a “simplificação grosseira” que, segundo ele, a política de São Paulo quis impor ao País com a disputa entre tucanos e petistas.

Ao falar de Serra, Ciro deixou de lado qualquer cordialidade e classificou o candidato tucano de “ministro do governo mais escandaloso que o Brasil já teve”. Referiu-se à era Fernando Henrique Cardoso, de quem chegou a ser aliado e correligionário, mas com quem rompeu ainda no primeiro mandato. O cearense ironizou o slogan da campanha tucana “Serra é do bem”. Segundo ele, os marqueteiros tentaram atenuar- uma evidência oposta. “Todo mundo sabe que o Serra é do mal. E eu sei mais do que ninguém”, afirmou. Em 2007, Ciro teve as contas bloqueadas pela Justiça a pedido de Serra, resultado de uma ação indenizatória por conta de o deputado tê-lo acusado de ser o “candidato das negociatas” durante as eleições presidenciais de 2002.

Fôlego renovado pela chegada surpreendente ao segundo turno, o primeiro movimento da campanha de Serra foi o de, justamente, tentar se livrar de um estorvo, o deputado Índio da Costa (DEM-RJ), candidato a vice na chapa tucana. Sentado sobre um ideário de extrema-direita, afeito à verborragia e a declarações desastrosas, Costa foi obrigado a ficar quase clandestino na fase final da campanha do primeiro turno para não complicar ainda mais a vida de Serra. A troca dele por um aliado, portanto, seria mais do que providencial. O primeiro nome a ser cogitado foi o do deputado Fernando Gabeira, do PV, cristão-novo da direita nacional derrotado na eleição ao governo do Rio de Janeiro.

A ideia de colocar Gabeira na chapa de Serra partiu do pressuposto político de transferência dos votos “verdes” de Marina Silva, no Rio, para o PSDB, além de fazer uma vinculação direta da chapa tucana, em nível nacional, com os quase 20 milhões de voto conseguidos pela candidata do PV no primeiro turno. Para levar a cabo o expediente, os tucanos tinham como exemplo a substituição precoce do ex-senador Guilherme Palmeira, então do PFL de Alagoas, pelo senador Marco Maciel, durante a primeira campanha de FHC, em 1994. Denunciado por ter elaborado uma emenda orçamentária superfaturada, Palmeira, candidato a vice na chapa do PSDB,- foi substituído pelo correligionário pernambucano no meio da disputa.

Também o nome do ex-governador Aécio Neves, senador eleito pelo PSDB- de Minas Gerais, foi aventado para substituir Índio da Costa. O sonho de ter Neves como vice, alimentado desde o início da campanha por José Serra, também não vingou. Como de costume, o tucano mineiro saiu pela tangente e evitou, outra vez, ter a imagem vinculada diretamente ao candidato paulista, a quem apoia sem nenhum entusiasmo desde que foi sabotado, no ano passado, ao tentar levar a decisão pela candidatura do partido por meio de eleições prévias. Serra ganhou a pendenga, mas fez um inimigo para sempre em Minas, com disposição, inclusive, de abandonar o barco do PSDB para fundar um novo partido e comandar a oposição a partir de 2011.

A possibilidade de se trocar o vice de Serra foi, porém, descartada pelo advogado da campanha, Ricardo Penteado, preocupado em gerar uma demanda judicial incerta em meio à guerra eleitoral do segundo turno. Penteado avisou aos líderes tucanos que o PT poderia aproveitar a brecha para requerer a perda do registro da candidatura de Serra. Maior interessado no desfecho do caso, o candidato a vice, Índio da Costa, nem sequer foi consultado sobre o assunto. Ficou impassível diante das negociações internas em torno da saída dele, mas acabou mantido na campanha, com a condição de continuar como tem estado: calado.

Sem a troca do vice, Serra decidiu resgatar velhas bandeiras do partido. Na quarta-feira 6, defendeu o legado de FHC, elogiou as privatizações e afirmou que elas também aconteceram no governo Lula. Uma tentativa de blindagem. Em 2006, no segundo turno, o PT acusou- o PSDB de privatista e de agir contra os interesses nacionais. Alckmin, então candidato tucano, vestiu a carapuça. Para mudar a imagem, deixou-se até fotografar com um boné do Banco do Brasil. Sem sucesso: teve menos votos no segundo turno que no primeiro.

Assediados por tucanos e petistas, a senadora Marina Silva e o PV decidiram ganhar tempo antes de tomar uma posição de apoio, aliás, cada vez mais improvável de acontecer. Erguida de forma difusa e fragmentada por lideranças regionais, a estrutura orgânica do Partido Verde não deu a Marina nenhuma condição de definir a quem se aliar, sobretudo depois de surpreender a todos com quase 20% dos votos válidos no primeiro turno. A cúpula do partido optou por fazer uma convenção, em 17 de outubro, às vésperas da votação do segundo turno, para, justamente, não chegar a lugar nenhum.

Isso porque o discurso consolidado dentro do PV é o da “não participação”, uma forma de deixar Marina Silva em cima do muro e capitalizar a votação no primeiro turno como trampolim para as eleições de 2014. Embora a tendência natural do partido seja a de apoiar Serra, especialmente a partir das lideranças de São Paulo e Rio, há franca resistência dos verdes do Acre, da Bahia, do Distrito Federal e do Maranhão, onde desponta como estrela ambiental o deputado Zequinha Sarney, filho do senador José Sarney (PMDB-AP) e irmão da governadora reeleita Roseana Sarney, aliada de primeira hora do PT no estado.

Marina pretende fixar no eleitorado uma imagem de artífice de um novo modo de fazer política que seria maculado caso ela decidisse apoiar um dos adversários do primeiro. Assim, pretende apresentar o programa do PV a Serra e Dilma, colher apoio de ambos e, terminada as eleições, apresentar-se como uma vencedora de fato, com as teses aclamadas pelos dois lados. Teve, no entanto, um choque de realidade ao se defrontar com a sanha fisiológica dos companheiros de sigla, animados por uma oferta da campanha de Serra de quatro ministérios (Minas e Energia, Educação, Meio Ambiente e Cidades), no caso de vitória tucana. “Do jeito que tem gente aí, basta pensar num conselho de estatal”, ironizou a senadora.

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