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Política

Lucas Figueiredo

Carta aberta a Marcos Valério

por Lucas Figueiredo — publicado 13/09/2011 13h16, última modificação 13/09/2011 17h05
'Prove que o Brasil, para além dos operadores, é um país de corruptos e corruptores. Seja o nosso herói!'

Do blog do Lucas Figueiredo

Prezado Marcos Valério,

Não me esqueci e acredito que você também não. No meu livro O Operador: como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT, publicado em 2005, mostro como, ao apresentar você como o grande vilão do mensalão do PT (e ignorar o mensalão do PSDB), parte da mídia serviu a grandes corruptores e a grandes corruptos, que saíram apenas chamuscados da história, quando não incólumes. Permita-me relembrá-lo de um trecho do livro:

“E a história se repete. Ainda que Marcos Valério permaneça livre da cadeia, sua ruína moral e sua quase exclusão do convívio social serão servidas ao país como compensação para a falta de justiça. Como aconteceu antes, aliás, com PC Farias, operador de outro esquema, integrado pelos corruptores de sempre. Quem foram os grandes financiadores de Collor? De onde saiu o dinheiro do caixa dois do PSDB? Quem encheu as burras do PT? Isso não vem ao caso, desde que a história tenha um vilão e que este vilão pague por todos os outros. Por que Marcos Valério dançou? Porque ele estava lá justamente para isso, caso alguém precisasse dançar. Valério caiu, mas o esquema, não. Seguirá firme, fazendo deputados e senadores, influindo em votações do Congresso, tangendo governadores e se escondendo atrás de presidentes.

Poucos se deram conta, mas, num depoimento ao Congresso, Marcos Valério revelou a verdade que todos ali já sabiam:

- Nós devemos deixar claro para a sociedade brasileira e acabar com a hipocrisia: eu não sou a única empresa que ajudou e ajudará políticos. [...] O Marcos Valério não é detentor de tecnologia para ajudar campanhas políticas. Isso já acontece no Brasil desde Rui Barbosa.

O que Marcos Valério tentava dizer era que, no esquema, ele era só o operador. Ou como ele próprio definiu na CPI:

- Eu sou um grande areia. Um grão…”

Passados seis anos, eis que, na sua defesa apresentada ao Supremo Tribunal Federal, você enfim assume seu verdadeiro papel naquela trama: o de operador. E sugere uma certa indignação por ter sido apresentado como o grande vilão da história quando havia vilões bem mais parrudos e maléficos. Diz sua defesa:

“O operador do intermediário aparece como a pessoa mais importante da narrativa, ficando mandantes e beneficiários em segundo plano, alguns, inclusive, de fora da imputação, embora mencionados na narrativa, como o próprio presidente Lula.”

Beleza, Marcos Valério, nós sabemos que você é “o operador do intermediário”, um grão de areia. Mas então pare com esses textos cifrados e cheio de reticências e nos diga, de uma vez por todas, quem são o mar, o sol, o rochedo, os tubarões… Conte o que fez, para quem fez e como fez quando você operava nas sombras dos governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e, em Minas Gerais, nas administrações tucanas de Eduardo Azeredo (1995-1999) e Aécio Neves (2003-2010). Fale tudo. Dê nomes de políticos, autoridades, empresários… Vire a mesa, transforme a história. Prove que o Brasil, para além dos operadores, é um país de corruptos e corruptores. Seja o nosso herói!

Saudações cordiais.

Lucas Figueiredo

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