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Política

Assassinato

Camponês era fonte da Funai na busca de índios

por Felipe Milanez publicado 06/06/2011 17h53, última modificação 06/06/2011 20h25
Adelino Ramos, líder sem-terra morto em Rondônia, era informante dos sertanistas da Funai na busca por índios isolados no estado nos anos 1990.

O líder sem-terra Adelino Ramos, conhecido pelo apelido de Dinho, foi a principal fonte dos sertanistas da Funai na busca por índios isolados no sul de Rondônia, na região de Corumbiara, no início dos anos 1990. Ramos era um sobrevivente do Massacre de Corumbiara, ocorrido em agosto de 1995, e foi assassinado em 27 de maio em Vista Alegre do Abunã, na região da Ponta de Abunã, município de Porto Velho (RO). Ele foi morto por um motoqueiro, próximo da esposa e duas filhas.

Dinho liderava os sem-terra em Corumbiara, onde a Funai suspeitava haver poucos indígenas ainda sem contato. Em expedições lideradas por Marcelo dos Santos, em 1995 foi contatado pela primeira vez o povo Kanoe. Em seguida, os Akunt’su. E, por fim, descoberta a sobreviência do “Índio do Buraco”, último sobrevivente de um povo que teria sofrido genocídio por fazendeiros. As informações que levaram os sertanistas até os índios, liderados por Marcelo dos Santos, teria partido de Ramos.

“O Dinho teve a coragem de organizar reuniões, a luz de velas, nos acampamentos, juntar o pessoal que trabalhava nas fazendas, para nos contar. Foi ele quem falou sobre os índios”, recorda Marcelo dos Santos. Em uma dessas reuniões, veladas para despistar pistoleiros, os camponeses que trabalhavam nas fazendas contaram as histórias de toparem com os índios com vestígios da ocupação deles.

“Nessas conversas descobrimos a existência do povo Akunt’su, através de informações dos colonos. Eles nos deram os rumos para encontrar os índios. Sem essa colaboração, é provável que a gente nunca tivesse encontrado esses povos”, diz Santos. “Ele teve muita coragem, porque ninguém falava nada naquela época.”

Essas reuniões teriam acontecido antes do Massacre de Corumbiara. Os kanoe foram encontrados no mesmo mês em que houve a matança, em agosto de 1995.

Altair Algayer, parceiro de Santos, é hoje o chefe da Frente de Proteção Etnoambiental Omere, da Funai, que atende estes dois povos e, também, protege a área ocupada pelo “Índio do Buraco” e um povo indígena que vive em isolamento voluntário na Terra Indígena Massaco.

Os colonos haviam trabalhado na fazenda de Antenor Duarte e na fazenda São Sebastião. “Eles contavam histórias de índios que tinham se escondido no mato”, afirma Algayer.

Santos suspeitava da existência de índios nessa região desde que ouviu boatos sobre um suposto massacre aos índios, em 1985, e descobriu uma aldeia parcialmente destruída. O cineasta Vincent Carelli registrou as denuncias – posteriormente mostradas no filme Corumbiara. Essa área foi brevemente interditada pela Funai, mas desobstruída de proteção na administração de Romero Jucá, atual senador pelo PMDB de Roraima, enquanto presidente do órgão indigenista.

“Apesar de os movimentos sociais sem terra possuírem, as vezes, conflitos com indígenas na luta por território, ou então não se importar com o destino dos índios, esse não era o caso”, diz Santos. “Dinho e o pessoal de Corumbiara achavam que os índios tinham direito a ter protegido seu território tradicional.”

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