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Impeachment

Campinas: PT não tem governabilidade

por Soraya Aggege — publicado 23/08/2011 18h46, última modificação 24/08/2011 09h36
Novo prefeito Demétrio Vilagra enfrenta fragilidade financeira, três CPI´s na Câmara e ainda pode sofrer impeachment

O PT assumiu o comando da Prefeitura de Campinas nesta terça-feira (23), mas não conseguiu fechar acordos para a governabilidade. Enquanto o vice, Demétrio Vilagra (PT), fazia o discurso de posse como prefeito, pela manhã, a oposição protocolava na Câmara dos Vereadores dois pedidos para seu impeachment. Até o início da noite, o PT contava com o apoio de apenas seis dos 33 vereadores. Não há muitas margens de acordo político, porque quase todas as bancadas já acumulam cargos no próprio governo e não estão obedecendo às orientações partidárias. Assim, na próxima sexta-feira (26), Vilagra poderá ser alvo de um processo de cassação. A administração também já enfrenta três CPIs na Câmara e uma situação de fragilidade financeira. Há rumores de que os cofres não tenham verbas para a cobertura da folha de salários. O PT espera apoio dos movimentos populares para conquistar estabilidade e conseguir governar a cidade.

O cenário não tem precedentes na crônica política. Vilagra substitui Hélio do Oliveira Santos, o Dr. Hélio (PDT), cassado pela Câmara no final de semana, inclusive com os votos da própria bancada pedetista e do PT. Dos 33 vereadores, apenas um, do PC do B, votou contra o impeachment do prefeito. Mas embora tenha colaborado com a maioria, o PT ficou isolado.  A maioria dos vereadores preferiria que o presidente da Câmara, Pedro Serafim, do PDT de Hélio, assumisse o Executivo. Serafim não era próximo de Dr. Hélio e pode ser empossado, se Vilagra for cassado. O interesse na posse de Serafim, que é de um grupo político beneficiado com cargos no atual governo, seria um novo projeto eleitoral para as eleições de 2012, numa suposta coalizão com o PSB e o PSDB, afirmam alguns assessores parlamentares.

O fato é que o PT está tentando acordos desde as 5h30 do último sábado, quando foi anunciado o impeachment, sem sucesso. As conversas são positivas no patamar das legendas, mas se diluem completamente quando chegam às bancadas. “Se depender da oposição, não teremos governabilidade. Cassar o vice virou um projeto político. Parece que a maioria está seguindo um script”, disse Ari Fernandes, presidente do PT em Campinas.

Ontem, ainda durante a posse do petista, o vereador tucano Valdir Tarraxam protocolou pedido para a abertura de uma comissão processante contra Vilagra. O vereador Paulo Búfalo, do PSOL, também registrou pedido semelhante. As requisições serão votadas na sessão de amanhã (24) da Câmara e precisam de 22 votos favoráveis para serem aprovadas.

“É uma situação grotesca. A não ser que Vilagra tenha assinado a posse com uma caneta roubada. Eles nem deram tempo para haver um motivo de se pedir a cassação do prefeito empossado”, disse Ari Fernandes. De acordo com ele, a oposição está em um “embalo político”: “Cassamos um e agora vamos cassar o outro”.

A oposição alega que o novo chefe do Executivo está envolvido nas mesmas denúncias do Ministério Público do Estado (MPE) que resultaram na cassação de Dr. Hélio. Vilagra é acusado pela Promotoria por formação de quadrilha e corrupção em oito contratos públicos. Ele e o PT negam qualquer participação nas supostas fraudes. Vilagra chegou a ser detido em maio, em uma operação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), que apura uma série de fraudes na Prefeitura de Campinas. Durante as buscas, foram encontrados R$ 60 mil na casa de Vilagra. Ele tem se defendido dizendo que, desde o período da ditadura militar, quando teve suas contas bloqueadas, guarda dinheiro em casa. O dinheiro seria destinado ao pagamento de multas eleitorais.

Dr. Hélio foi acusado de omissão diante das investigações do Gaeco e do Ministério Público sobre cobrança de propina e fraudes em contratos da Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento de Campinas (Sanasa). Também é acusado de irregularidades em loteamentos imobiliários e em contratos de operação de antenas de telefonia celular na cidade.

A administração da cidade está sob tensão. O governo estaria em graves dificuldades financeiras. Haveria dificuldades de levantar fundos até para o pagamento dos funcionários. Segundo Fernandes, não há riscos financeiros, mas é comum que nesta época do ano as administrações municipais arrecadem menos. “Além disso, a oposição chegou a fazer campanha no começo da crise com o Hélio, sugerindo aos cidadãos que deixassem de pagar impostos, o que é um absurdo, uma irresponsabilidade”.

Os postos de saúde da cidade estariam sem medicamentos básicos e com más condições de atendimento. Durante o discurso de posse, Vilagra prometeu tirar Campinas da estagnação. Para isso, pediu o apoio de todos. No entanto, cometeu uma gafe. Disse que seu governo terminaria em dezembro deste ano, e não em 2012, o que arrancou risadas da platéia.

É a quarta vez que o PT assume a Prefeitura de Campinas, segundo maior colégio eleitoral paulista, sempre em meio a graves crises políticas. Em 1988, o sindicalista Jacó Bittar foi eleito prefeito, mas acabou acusado de corrupção. Em 1991 o PT rompeu com Bittar e deixou o governo. Foi criado uma espécie de “governo paralelo” na cidade. Em 2000, Antonio da Costa Santos, o Toninho do PT, foi eleito, mas acabou assassinado oito meses após a posse, em setembro de 2001, em um crime que nunca foi esclarecido.

Em seu lugar, a vice Izalene Tiene, também do PT, tomou posse, mas não tinha a unanimidade do partido e terminou o governo com uma grande reprovação popular. Derrotado no primeiro turno de 2004, o PT apoiou o primeiro governo de Dr.Hélio, que foi reeleito em 2008 com uma coalizão com o PT de Vilagra. Para 2012, o partido decidiu, numa resolução polêmica, que independentemente do cenário da época, terá candidato próprio em Campinas.

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