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Caminho tortuoso

por Rodrigo Martins publicado 11/08/2010 17h00, última modificação 12/08/2010 13h02
Sem o apoio do PMDB de Jader Barbalho no primeiro turno, Ana Júlia Carepa busca a reeleição em um cenário tão adverso quanto a dura disputa de 2006
Caminho tortuoso

Sem o apoio do PMDB de Jader Barbalho no primeiro turno, Ana Júlia Carepa (foto) busca a reeleição em um cenário tão adverso quanto a dura disputa de 2006. Foto: Renato Testa

Há quatro anos, ninguém apostava na vitória da petista. Em desvantagem nas pesquisas hoje, ela busca um amplo leque de alianças

Primeira mulher a governar o Pará, a petista Ana Júlia Carepa está diante do desafio de repetir o feito de quatro anos atrás, quando, desacreditada nas pesquisas, venceu as eleições e interrompeu a hegemonia de 12 anos do PSDB no estado. À época, todos os levantamentos indicavam ser impossível vencer o ex-governador Almir Gabriel, que cumpriu dois mandatos e conseguiu eleger o seu sucessor, Simão Jatene, na eleição anterior. Inicialmente, previa-se a vitória do tucano logo no primeiro turno. Graças à articulação dos movimentos sociais no campo, parceiros históricos de Ana Júlia, e ao apoio de ocasião do PMDB de Jader Barbalho, a petista levou a disputa ao segundo turno e ganhou. Com margem apertada, inferior a 300 mil votos, mas ainda assim surpreendente.

O desafio da reeleição, hoje, não é menos grandioso. Nenhuma pesquisa de opinião reuniu, até o momento, os três principais candidatos na disputa (além de Ana Júlia, o ex-governador Jatene e o peemedebista Domingos Juvenil, presidente da Assembleia Legislativa). O levantamento mais recente, feito pelo Ibope no fim de maio (sem considerar o nome de Juvenil, indicado depois), aponta o favoritismo do candidato do PSDB, que liderava a corrida eleitoral nos cinco cenários projetados pelo instituto. Num eventual segundo turno entre Ana Júlia e Jatene, o tucano levaria a melhor, com 48% das intenções de voto, contra 36% da petista. O próprio Ibope ressalta, contudo, o caráter de indefinição das eleições. Pouco mais da metade dos entrevistados não indicavam espontaneamente o nome de nenhum candidato.

Na avaliação de André Farias, coordenador da campanha do PT, o cenário eleitoral mudou nos últimos meses. “Estamos falando de um estado com o dobro do tamanho da Espanha e uma população de 7,5 milhões de habitantes, dos quais dois terços vivem no interior, em áreas de difícil acesso, no meio da floresta”, afirma. “As pesquisas não têm boa capilaridade no estado. E, se estivessem sempre certas, Ana Júlia não seria eleita em 2006.”

A despeito das adversidades, a governadora se mantém firme na campanha. Nas caminhadas diárias pela região metropolitana de Belém, onde a população mostra-se um tanto indiferente à movimentação dos políticos, improvisa como repórter e entrevista eleitores diante das câmeras da campanha, uma das mais caras do País, orçada em 47 milhões de reais (ante um eleitorado de pouco mais de 4,5 milhões). Nos fins de semana, percorre o interior do estado, o segundo maior em extensão territorial, buscando o apoio de prefeitos das mais variadas legendas. A coligação da governadora inclui 14 partidos e os estrategistas do PT não se fazem de rogados na tentativa de seduzir antigos adversários. “Até prefeito do DEM já declarou apoio. Nosso objetivo é vencer a eleição no primeiro turno”, afirma a governadora com confiança. Mas a disputa para valer mesmo deve começar com o início do horário eleitoral, em 17 de agosto. Por enquanto, o debate nas ruas é frio, muito diferente do calor abrasador que castiga a capital paraense no período de estiagem.

Um dos principais problemas da candidatura petista foi a decisão de Barbalho de bancar um candidato peemedebista ao governo, em vez de compor com o PT no primeiro turno. O deputado federal possui um eleitorado cativo no estado, cerca de um terço do total, e sua intervenção nas eleições de 2006 foi considerada decisiva para a vitória de Ana Júlia. Finda a disputa, o PMDB ficou com as secretarias de Saúde e de Obras, postos que controlam alguns dos maiores orçamentos estaduais. Desde meados de 2008, no entanto, a relação entre os aliados vem se deteriorando.

Barbalho reclama que os acordos firmados pelo PT, especialmente no que diz respeito à distribuição de cargos, não foram cumpridos. O Diário do Pará, da família do deputado federal, passou a criticar duramente o governo e, antes mesmo de encerrar as negociações com o PT, passou a publicar capítulos do que chama de “dossiê de irregularidades” da gestão Ana Júlia, na velha e conhecida estratégia de mandar recados a aliados e desafetos pelas páginas do jornal.

Enredados em denúncias de corrupção, dois secretários de Saúde indicados pelo PMDB foram afastados. Na casa do hoje candidato Juvenil, em Altamira, a Polícia Federal chegou a apreender uma tonelada de remédios e abriu um inquérito para apurar se houve desvios em hospitais públicos e se os medicamentos seriam trocados por votos.

Com ou sem o apoio de Barbalho no segundo turno, Ana Júlia terá de melhorar a imagem do governo, que chegou a ser reprovado por 60% da população em 2009 e, de acordo com o Ibope, continuava mal avaliado até o fim de maio por metade da população. “Tivemos um grave problema de comunicação durante a gestão. A população não sabe tudo o que foi feito, mas teremos oito minutos no horário eleitoral para mostrar”, rebate a governadora. “Pegamos o estado com um passivo enorme, após 12 anos de administração tucana, que governou de costas para a população. Investimos em projetos estruturais e os resultados demoram a aparecer, mas isso era indispensável para mudar o modelo de desenvolvimento do Pará.”

A mudança começou por um dos pontos mais sensíveis da economia paraense, baseada na exploração de minérios, na atividade madeireira e na agropecuária: a ocupação de terras. Após aprovar o Zoneamento Econômico e Ecológico (ZEE) do estado, definindo as áreas de proteção e as de exploração, o governo iniciou um desgastante processo de regularização fundiária. Vista com desconfiança pelos produtores rurais, especialmente após o cerco montado pelo Ibama e pela Polícia Federal no combate aos desmatadores, a governadora iniciou um processo de varredura nos cartórios para identificar as terras griladas, os passivos ambientais e regularizar as áreas de até 2,5 mil hectares de quem estivesse disposto a regenerar ou manter 50% da área preservada.

De acordo com José Benatti, presidente do Instituto de Terras do Pará (Iterpa), a profusão de documentos falsos ou títulos de posse precários era tão grande que a área registrada nos cartórios correspondia até três vezes o tamanho do Pará. Em alguns municípios, como Moju, as terras registradas irregularmente somavam mais de 15 vezes a área total da cidade. “É claro que houve muita desconfiança dos produtores, que imaginavam que a ação visava o confisco de terras e a aplicação de multas. Mas eles ficaram mais receptivos com a aprovação da lei de regularização, que deu um prazo de 30 anos para eles recomporem os passivos ambientais e poderem adquirir as terras em caráter definitivo.”

Paulo Barreto, pesquisador sênior do Instituto do Homem e do Meio Ambiente (Imazon), considera a medida essencial para combater o desmatamento. “Com as terras regularizadas, fica mais fácil identificar e punir os desmatadores. O governo avançou nos cadastros, mas demora a conceder os títulos de propriedade aos ocupantes da terra, o que pode atrasar a recomposição das áreas devastadas”, avalia. “Foi um passo importante, embora o estado tenha, em outras situações, atuado de forma vacilante. Por exemplo, ao se opor à fiscalização dos órgãos federais.”

Fontes ouvidas por CartaCapital afirmam que a governadora reclamou em Brasília do “excessivo rigor” da fiscalização. E teria, inclusive, encaminhado um ofício no início do ano à então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, pedindo o fim da Operação Arco de Fogo da PF. Ana Júlia confirma ter mandado a solicitação, mas não pelo fim da fiscalização. “O que pedi era que o governo federal passasse a investir na estratégia de regularizar a situação agrária e ambiental, em vez de intensificar aquela postura repressiva que nunca resolveu o problema da Amazônia.”

A fiscalização do Ibama e da PF continuou, inclusive apontando irregularidades na Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), com longa trajetória na política de “impor dificuldades para vender facilidades”. Na administração tucana, um secretário da pasta chegou a ser preso. Na petista, outro foi afastado. Dezenas de servidores estão sob investigação. “Agi da única maneira que poderia. Afastei os suspeitos, abri processo administrativo e dei total respaldo para a polícia investigar o caso”, diz a candidata à reeleição.

Graças à postura conciliatória no campo, antigos inimigos viraram aliados da governadora. “Sempre nos acusaram de promover a devastação da floresta, mas nunca ofereceram uma possibilidade real de regularização”, diz Luciano Guedes, pecuarista, prefeito de Pau D’Arco e diretor da Federação Agropecuária do Pará (Faepa). “Para a nossa surpresa, isso só viria a acontecer no governo Ana Júlia, e olha que antes não confiávamos muito”, completa Guedes, ao explicar as razões de o PDT, partido historicamente ligado ao agronegócio no Pará, apoiar a reeleição da petista.

A regularização fundiária é considerada pela governadora como o primeiro passo de uma estratégia mais ampla, de tentar mudar o perfil da economia estadual, marcado por um modelo de exploração predatório e sustentado pela exportação de produtos primários. Maior exportador de minérios do País, o estado tem investido para criar polos siderúrgicos e exportar aço, em vez de apenas minério de ferro ou gusa, que possuem baixo valor agregado.

Depois de atrair para Marabá a Sinobrás, empresa que produz 300 mil toneladas de aço por ano e é responsável por 10% dos vergalhões usados na construção civil brasileira, o estado travou uma queda de braço com a Vale, exigindo a instalação de uma siderúrgica de aço. A companhia pretendia instalar a indústria em outros estados, mas cedeu aos apelos do governo e criou a Alpa (Aços Laminados do Pará). Pelos cálculos da equipe de Ana Júlia, o investimento de 5,2 bilhões de dólares trará 13 mil empregos diretos e indiretos. Em compensação, o governo destravou uma série de obras de logística para escoar a produção de minérios e integrar os três principais polos econômicos do Pará: Belém, Marabá e Santarém, distantes até 720 quilômetros um do outro. “Trata-se de projetos engavetados há décadas, como a eclusa de Tucuruí, para a hidrovia do Rio Tocantins, que ligará Marabá ao porto de Barcarena. Até o fim do ano, a obra estará pronta”, promete a governadora.

Também estão previstos o asfaltamento da rodovia Cuiabá-Santarém e de trechos da Transamazônica. “Se somar os investimentos públicos e privados para essa nova estratégia de desenvolvimento, temos 41,8 bilhões de reais até 2009. E a previsão de mais 109 bilhões de reais para os próximos quatro anos. O que é muito, para um estado com orçamento anual em torno de 10 bilhões”, afirma Maurílio de Abreu Monteiro, secretário de Desenvolvimento do Pará. “Juntamente com os projetos de geração de energia, como a hidrelétrica de Belo Monte, essas medidas devem criar todas as condições para o desenvolvimento industrial do estado.”

O tucano Jatene não contesta a necessidade de o estado induzir a instalação de siderúrgicas e estimular a industrialização. “Só não venham dizer que isso ocorreu graças à primazia petista, porque quem iniciou a briga com a Vale pela instalação da Alpa fui eu. Assim como foi o meu governo que conseguiu aprovar, por unanimidade, o macrozoneamento do estado.” E acrescenta: “Só considero um erro regularizar as terras dessa forma. Para mim, faz muito mais sentido criar grandes unidades de conservação e permitir o uso intensivo do solo em outras regiões do que obrigar o produtor a manter área de reserva legal. Veja bem, não estou falando de mata ciliar ou de cabeceira de rio, porque a água deve ser preservada de qualquer jeito. Só que manter 50% ou 80% das propriedades sem produzir é punir ainda mais o Pará”.

Líder nas pesquisas divulgadas até o momento, Jatene sofreu uma baixa importante na campanha. Seu padrinho político, Almir Gabriel, rompeu com o PSDB, abraçou a candidatura do peemedebista Juvenil e não poupou críticas ao ex-aliado, a quem chegou a chamar de “macaco pelado” em palanques no interior. Está ressentido com Jatene por entender que ele não se empenhou o suficiente em sua campanha, quatro anos atrás, contra Ana Júlia. “Gabriel não esconde de ninguém essa mágoa e já afirmou várias vezes que ‘governador só não elege sucessor se não quiser’”, comenta o jornalista Lúcio Flávio Pinto, editor do Jornal Pessoal.

Cortejado tanto pelo PSDB quanto pelo PT, Barbalho segue na disputa por uma vaga no Senado. Em conversas reservadas, tanto dirigentes petistas como tucanos apostam que a candidatura de Juvenil visa aumentar o poder de barganha do PMDB no segundo turno. E o cobiçado apoio de Barbalho poderia cair tanto no colo do petista quanto no do tucano.

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