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Política

Entrevista - Rodrigo Salazar

"Brasileiro fazia vista grossa para corrupção quando economia ia bem"

por Deutsche Welle publicado 17/08/2015 11h50, última modificação 17/08/2015 12h07
Especialista argentino Rodrigo Salazar lembra que FHC, Lula e Dilma enfrentaram escândalos, mas afirma que indignação popular só apareceu quando economia piorou
Orlando Kissner/Fotos Públicas
Manifestação-contra-Dilma

A popularidade de um presidente ainda é muito ligada ao ciclo econômico

A indignação com a corrupção que assola o sistema político brasileiro é seletiva e brota em momentos de declínio econômico. Essa é a opinião do professor argentino Rodrigo Salazar, coordenador do curso de governança e assuntos públicos na unidade mexicana da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO).

Para ele, a maioria dos brasileiros foi extremamente tolerante com irregularidades durante períodos de crescimento econômico nos mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e no início da gestão de Dilma Rousseff.

Confira os principais trechos da entrevista concedida à DW Brasil, a terceira e última da série com especialistas em Brasil e América Latina de todo o mundo. O primeiro entrevistado foi o americano Peter Hakim. O segundo, o austríaco Bernhard Leubolt.

DW Brasil: Como o senhor avalia a situação atual do Brasil?

Rodrigo Salazar: O Brasil, assim como outras democracias da América Latina, ficou mais estável nas últimas décadas, mas o problema é que isso ainda depende muito do estado da economia – e as economias da região ainda continuam vulneráveis.

Um governante pode passar de uma hora para a outra de um cenário em que goza de muita popularidade para outro em que passa a existir um clamor pela sua saída.

A natureza dos regimes presidencialistas na América Latina joga muito peso na figura do chefe do Executivo, que é responsabilizado pessoalmente pelo estado das coisas, em especial na economia. A popularidade de um presidente ainda é muito ligada ao ciclo econômico.

O que estamos presenciando no Brasil é um prenúncio do que vai acontecer em outros países da região, à medida que as economias começarem a ser afetadas pelos problemas da China e pela queda do preço das commodities. O Brasil não é o único, é só o primeiro. O Uruguai, a Argentina e outros países vão experimentar situações semelhantes, que misturam crise econômica com instabilidade política.

DW: Os escândalos de corrupção não estão sendo determinantes para a crise no governo?

RS: FHC, Lula e Dilma – em seu primeiro mandato – enfrentaram escândalos de corrupção, mas a população estava disposta a fazer vista grossa por causa dos bons resultados econômicos. Isso não é uma exclusividade do Brasil, pode ser observado na Argentina, na Bolívia e em outros países.

Quando as coisas vão mal, as pessoas do nada começam a dizer "como é possível que a coisa toda seja administrada dessa maneira, como é possível tanta corrupção?". Esse discurso é muito volátil. E isso piora no caso do PT, que sempre teve em sua história um discurso moralizador. Agora, quando se vê confrontado com seu antigo discurso, vira um alvo fácil da opinião pública.

O atual modelo de presidencialismo de coalizão brasileiro está esgotado ou o problema foi como este governo lidou com esse sistema?

É um modelo que combina um presidencialismo com um sistema partidário muito fragmentado. Bem ou mal, por 30 anos, apesar dos problemas, diferentes governos conseguiram lidar com essa fragmentação. Ele tem algumas virtudes, como deixar claro quem é governo e quem é oposição.

O problema é que muitas das alianças formadas são puramente programáticas. É só ver o caso do PMDB; um partido em que não existe um programa, mas facções e personalidades. Isso abre a porta para o clientelismo em que os governos são obrigados a fazer pactos com o diabo. E isso acaba alimentando um padrão de escândalos de corrupção, em que o governo tem que pagar políticos para conseguir aprovar qualquer coisa e preservar maiorias parlamentares. E, para piorar, o modelo brasileiro se sustenta em alianças que são insustentáveis quando há pressões econômicas.

DW: Por que a política brasileira se tornou tão problemática e polarizada? Existe um clima de ódio na política?

RS: Parece-me que é um fenômeno esperado em uma situação na qual o governo sente o desgaste por causa do declínio econômico. Por anos, quando os presidentes brasileiros eram populares, a oposição não tinha um discurso convincente.

Os eleitores são pragmáticos na América Latina, em especial no Brasil. Não é um eleitorado em sua maioria ideológico, que respaldava o PT pelas suas ideias e pela sua ideologia. Só respaldava o PT quando ele dava bons resultados. Quando isso passa, a oposição enxerga uma oportunidade para tentar reconquistar o terreno político perdido.

Na atual conjuntura está mais fácil para ela encontrar adeptos. Fazem uso de um discurso que já foi feito antes, mas que passa a ser mais atraente. A oposição quer aproveitar o quanto antes, porque Dilma ainda tem mais três anos pela frente. Se eles não agarrarem a oportunidade agora, e promoverem um impeachment, a situação econômica pode melhorar até 2018 e Dilma pode voltar a ser popular – e o momento terá passado, arriscando que Lula ou outro candidato do PT possa ganhar mais uma vez. A oposição sente que é agora ou nunca. Do ponto de vista da direita e da oposição, faz sentido radicalizar agora. Nada garante que o eleitorado vai estar contra o governo em 2018.

DW: O senhor acredita que o impeachment de Dilma pode prosperar?

RS: Parece-me que não. Dilma não é Collor. Ela tem o PT por trás, que é um partido sólido e disciplinado. Essa é a principal diferença. Ela também pode conseguir chegar a um acordo com o PMDB para estabilizar a situação, entregando mais cargos e orçamento. Não parece possível conseguir tantos votos para tirar Dilma.

DW: Alguns oposicionistas apostam que protestos de rua marcados para este mês podem ser o gatilho para forçar o início de um processo de impeachment, como no caso do impeachment do ex-presidente Fernando Collor. Isso pode se repetir com Dilma?

RS: Talvez, mas teria que ser um cenário de protestos com violência extrema para provocar uma situação em que a própria Dilma chegue a uma conclusão de que não é mais possível continuar. Teria que ser o tipo de coisa que aconteceu na Bolívia e na Argentina nos anos 2000, em que os presidentes saíram por causa da violência generalizada. Mas não parece que esse tipo de coisa vai acontecer no Brasil.

DW: E, se Dilma permanecer, quais são as perspectivas?

RS: Como sempre, um dos principais beneficiados da crise vai ser o PMDB. Por causa da crise econômica, Dilma não tem campo de manobra para expandir os gastos públicos e agradar o eleitorado. Então é possível que a popularidade dela continue baixa. Ela vai ter que procurar uma saída com outros políticos.

E, se as coisas não melhorarem economicamente, em 2018 o Brasil vai liderar uma tendência que vai prevalecer na maioria da América do Sul nos próximos anos: a derrota eleitoral dos partidos que atualmente estão no poder. E, como a maioria dos governos na região é de esquerda, esse vai ser o fim de um ciclo. Forças mais conservadoras vão ganhar. Em países com instituições mais fortes, como o Chile e Uruguai, isso vai ocorrer sem problemas – o governo perde e sai. Mas é possível esperar turbulência na Bolívia e no Equador, onde os governos não estão tão dispostos a deixar o poder.

Por Jean-Philip Struck

Deutsche Welle