Você está aqui: Página Inicial / Política / "Brasil vive crise, mas não institucional"

Política

Entrevista - Peter Birle

"Brasil vive crise, mas não institucional"

por Deutsche Welle publicado 07/03/2015 07h46
Especialista em Brasil afirma que instituições democráticas estão funcionando e atribui turbulência política à economia, corrupção e à falta de habilidade de Dilma
Laycer Tomaz / Câmara dos Deputados

Na mesma medida em que a investigação sobre os congressistas envolvidos no escândalo da Petrobras avança, piora as relações entre Executivo e Legislativo. A tensão é tão grande que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), devolveu ao Planalto uma Medida Provisória (MP) referente ao ajuste fiscal, após se sentir "abandonado" pelo governo federal.

Para o cientista político alemão Peter Birle, do Instituto Ibero-Americano, de Berlim, o início do segundo mandato de Dilma é marcado por uma grande insegurança política. Ele cita a perda de apoio dentro do PT e da base aliada como um dos motivos e garante que o Brasil vive uma crise, mas não institucional. "O governo Dilma está em crise por diversos motivos: a situação econômica, o escândalo da Petrobras e pelo fato de a presidente não ser uma boa negociadora", afirma.

Deutsche Welle: O STF deverá investigar 54 políticos, entre eles os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados. Como isso pode impactar a relação entre Executivo e Legislativo?

Peter Birle: Como muitos parlamentares da base governista e da oposição estarão na lista, isso fará com que a relação entre o governo e o Congresso fique mais difícil. É uma situação muito crítica, pois, por um lado, o governo tem a maioria no Congresso, mas os presidentes da Câmara e do Senado são muito críticos ao governo. Com a crise da Petrobras se estendendo a outros círculos, como o político, não será fácil para Dilma Rousseff governar.

DW: Grande parte dos políticos que devem ser investigados é de partidos que fazem parte da base de apoio a Dilma. O Brasil está na direção de uma crise institucional?

PB: Não. Podemos dizer que, depois de 30 anos de democracia, felizmente as instituições democráticas estão funcionando no Brasil. Não é à toa que o escândalo da Petrobras não ficou escondido. O governo Dilma está em crise por diversos motivos: a situação econômica, o escândalo da Petrobras e pelo fato de a presidente não ser uma boa negociadora. E o sistema político brasileiro, presidencialista, implica na negociação de muitas questões.

Dilma não é política, ela é mais tecnocrata e enfrenta muitas dificuldades para negociar se a compararmos com o ex-presidente Lula. A relação dela com o PMDB não é apropriada, já que ela não dá a chance nem do vice-presidente, Michel Temer nem do partido de participar das decisões que toma. E esse estilo de governar não facilita a situação. Eu vejo o Brasil numa crise, mas não numa crise institucional.

DW: O presidente do Senado, Renan Calheiros, se sentiu abandonado pelo governo e já começou a retaliá-lo. Qual é o tamanho dessa crise entre o Legislativo e o Executivo?

PB: Este início do segundo mandato de Dilma está marcado por uma grande insegurança política. E a relação entre Executivo e Legislativo é um ponto central, que se encontra num momento crítico. E isso não diz somente respeito ao PMDB, mas a outros partidos que fazem parte da base aliada de Dilma. O próprio partido da presidente diminuiu o apoio a ela, pois o PT é crítico em relação a tudo que tem a ver com o ajuste econômico e com a aprovação de medidas de austeridade. Ela faz o que o ex-candidato e senador Aécio Neves (PSDB-MG) falou que colocaria em prática caso ganhasse as eleições. Eu entendo que esse é o único caminho para sair dessa situação. Mas naturalmente sua própria base de eleitores vai acusá-la de mentirosa.

DW: É possível o cenário piorar?

PB: A situação já está bem tensa, mas pode piorar mais ainda. Em se tratando dessa devolução [da Medida Provisória pelo Senado], é uma situação muito difícil. O governo não consegue implementar suas políticas mesmo tendo, em teoria, a maioria dos votos no Congresso. Em caso de urgência, Dilma pode reagir por meio do decreto de medidas provisórias. Mas, mesmo assim, elas têm que ser confirmadas pelo Parlamento após 60 dias, se não elas perdem suas validades. Isso é uma situação difícil e não ficará mais fácil após a crise da Petrobras avançar sobre esse círculo político.

DW: Como isso pode afetar a popularidade de Dilma?

PB: Já podemos dizer que a popularidade está no chão. O Datafolha do início de fevereiro mostra o pior resultado de Dilma até agora: 23% da população dizem que ela é uma ótima/boa presidente e 44% ruim/péssima [em dezembro, eram, respectivamente, 42% e 24%]. Os dados, portanto, mostram que o otimismo com o governo é catastrófico. A avaliação de março deverá ser pior ainda.

A popularidade poderá piorar mais ainda se houver a transformação dessa decepção com o governo em raiva. Assim, pode haver mais protestos com críticas em relação ao modo de governar de Dilma. É claro que Dilma não é Lula, que é o único que tenta manter diálogo com amigos e adversários para chegar a um consenso. Dilma, como gestora de crises, não tem êxito. E, juntamente com a situação difícil na área econômica, ela deverá perder ainda mais popularidade.