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Dívida americana

Brasil aumenta aplicações de títulos

por Redação Carta Capital — publicado 19/07/2011 14h38, última modificação 19/07/2011 17h13
Brasil tinha R$ 333 bilhões aplicados em títulos dos EUA, aumento de 30,89% desde o levantamento anterior

Da Agência Brasil*

O Brasil foi o país que registrou o segundo maior aumento em aplicações em títulos do governo dos Estados Unidos no último ano, atrás apenas da China. A informação é do Tesouro americano e foi divulgada na segunda-feira (18), em um momento em que cresce a tensão quanto ao risco de calote por parte dos Estados Unidos, caso o Congresso não chegue a um acordo para elevar o teto da dívida pública do país até 2 de agosto.

Em maio, último dado disponível, o Brasil tinha US$ 211,4 bilhões (cerca de R$ 333 bilhões) aplicados em títulos do governo americano, valor que representa crescimento de 30,89% em um ano e mantém o Brasil como quinto maior credor externo dos Estados Unidos – atrás de China, Japão, Grã-Bretanha e um grupo de países exportadores de petróleo.

Entre os dez principais credores, o Brasil foi o que registrou o segundo maior crescimento entre maio de 2010 e maio de 2011. No mesmo período, a China aumentou em 33,6% sua compra de papéis do governo americano, chegando a US$ 1,16 trilhão, mais de um terço de suas reservas internacionais.

No caso do Brasil, o valor aplicado nesses títulos representa quase dois terços das reservas internacionais, de US$ 340 bilhões.

O aumento das aplicações brasileiras em títulos do Tesouro americano vem acompanhando o crescimento das reservas do país. Em dezembro de 2004, com as reservas brasileiras em US$ 50 bilhões, o país tinha um total de US$ 15,2 bilhões em títulos da dívida americana. Em dezembro de 2007, quando as reservas chegavam a US$ 178 bilhões, as aplicações em títulos estavam em US$ 129,9 bilhões.

Maio foi o segundo mês de aumento consecutivo no valor investido pelo Brasil em títulos do Tesouro dos Estados Unidos. De março a abril, o montante já havia crescido de US$ 193,5 bilhões para US$ 206,9 bilhões.

Igual tendência de crescimento foi registrada entre outros grandes credores, como a China, apesar de o governo dos Estados Unidos ter anunciado, em 16 de maio, que o limite legal de endividamento público, de US$ 14,3 trilhões tinha sido atingido, e que, se ele não for elevado até 2 de agosto, o país ultrapassará o teto e, pela primeira vez, poderá deixar de cumprir seus compromissos financeiros.

Segundo analistas, essa tendência pode indicar que, apesar das preocupações com um possível calote dos Estados Unidos – expressadas não apenas pelo governo, mas também pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e por agências de classificação de risco, em meio às dificuldades de um acordo entre democratas e republicanos no Congresso para elevar o teto da dívida –, os papéis do Tesouro americano ainda são considerados um investimento seguro.

"Os Estados Unidos não vão perder seu status de porto seguro por causa de uma ultrapassagem de curto prazo do teto da dívida", disse à BBC Brasil o economista Gregory Daco, da consultoria IHS Global Insight. Assim como outros economistas, Daco aposta em um acordo antes de 2 de agosto, evitando que os Estados Unidos deixem de cumprir seus compromissos financeiros.

No entanto, o impasse no Congresso já levou as principais agências de classificação de risco a alertar sobre a possibilidade de rebaixamento da nota dada aos Estados Unidos (atualmente é "AAA", a mais alta existente), atestado de que um país tem grande capacidade de cumprir seus compromissos financeiros.

A Standard & Poor's e a Moody's já haviam colocado a nota dos Estados Unidos em revisão, com risco de rebaixamento, caso o Congresso não autorize o aumento do teto da dívida. Ontem a agência Fitch avisou que, "na hipótese pouco provável de o teto não ser elevado antes de 2 de agosto", colocará a classificação do país em observação negativa.

Diante dessa movimentação toda, a China manifesto-se na semana passada, dizendo esperar que o governo americano adote "políticas responsáveis" para garantir o interesse dos credores.

Segundo o economista da IHS, mesmo que o teto da dívida não seja elevado a tempo e a classificação dos Estados Unidos realmente seja rebaixada, é difícil calcular o efeito entre os credores, apesar do impacto "muito negativo" na economia americana.

"Os investidores teriam de encontrar alternativas para aplicar seu dinheiro", diz Daco. "No caso do Brasil, quinto maior credor, não acredito que iria simplesmente retirar suas aplicações nos títulos do Tesouro de uma hora para outra." Segundo ele, uma solução seria reorientar esses investimentos para ativos mais seguros. "Eu poderia citar investimento em ouro ou em títulos de outros países, como a Alemanha."

No entanto, em um momento em que países europeus enfrentam uma crise de dívida e de credibilidade, muitos deles com seus ratings já rebaixados ou sob ameaça, torna-se mais difícil encontrar alternativas.

O analista da IHS diz acreditar que, na hipótese "improvável" de o teto da dívida não ser elevado até 2 de agosto, isso seria feito imediatamente depois, resolvendo o problema no curto prazo.

E, mesmo em meio às dúvidas e ao impasse no Congresso, Daco diz apostar que os investimentos em títulos do Tesouro americano vão continuar a registrar crescimento quando forem computados os dados de junho. "Em julho, vamos ver o que acontece. Mas minha tendência é dizer que não deve haver grande mudança."

Segundo o economista, o ritmo lento da recuperação da economia americana após a crise mundial, aliado às recentes tensões em países do Oriente Médio e do Norte da África e à crise de dívida na Grécia e em outras economias europeias, contribuíram para uma atmosfera de incerteza no mercado financeiro. E em períodos assim, diz Daco, títulos do Tesouro são considerados a alternativa mais segura.

"Isso tudo levou os investidores a buscar segurança nos títulos do Tesouro americano", afirma o analista.

"Neste momento, os investidores não estão preocupados com o teto da dívida. Eles estão mais preocupados com o crescimento [da economia americana]", diz.

*Publicado originalmente pela Agência Brasil

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