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Bem-vindo ao mundo de Rosa

por Tania Pescarini — publicado 24/04/2013 18h55
Na cidade de Guimarães, contadores de histórias narram sua obra e estimulam 
a descoberta de sua linguagem sutil e lírica
Contadora de histórias

Na cidade de Guimarães, contadores de histórias narram sua obra e estimulam 
a descoberta de sua linguagem sutil e lírica. Foto: Washington Alves

"No meio dos Campos Gerais, mas num covoão em trecho de matas, terra preta, pé de serra...”. É narrando trechos como esse, do conto Campo Geral, que adolescentes de 13 a 20 anos de Cordisburgo, em Minas Gerais, ingressam no universo de João Guimarães Rosa. Chamado de Miguilim, em referência ao personagem de um dos contos do autor, o grupo de contadores de histórias consolidou-se na cidade natal do escritor com a missão de divulgar a obra de Rosa. A ideia, abraçada também por professores em sala de aula, é recuperar a leitura em voz alta e explorar a oralidade da obra Roseana. Nesta entrevista a Carta na Escola, Elisa de Almeida, que coordena, com Dora Guimarães, o grupo Miguilim, conta como adolescentes exploram a linguagem sutil e lírica do autor pela narrativa oral.

Carta na Escola: Por que criar um grupo de narrativas orais da obra de Rosa?

Elisa de Almeida: Quem criou o grupo Miguilim foi Calina Guimarães, prima de Guimarães Rosa. Ela já estava no espírito de trazer coisas para o museu do autor quando criou a Associação dos Amigos do Museu Guimarães Rosa. Ela tinha o desejo de fazer algo pelos jovens de Cordisburgo. Nessa época, em 1995, Dora Guimarães e eu, que temos um grupo chamado Tudo Era Uma Vez, já trabalhávamos com a narração de contos literários. Calina foi assistir a uma de nossas apresentações,  em que narramos vários autores. Quando ela viu que era possível narrar Rosa, surgiu a ideia. Na época, ela estava se aposentando, voltando para Cordisburgo e entrando em contato com o Museu Casa Guimarães Rosa. Calina nos convidou para dar a oficina já com a ideia de formar jovens e crianças para narrar Guimarães Rosa no museu.

CE: Como introduzir aos jovens os textos de Guimarães Rosa?

EA: O processo é bastante gradual. Começamos com uma oficina, com textos mais simples, de tradição oral. Não vamos direto aos textos literários, começamos com os de tradição oral, como contos de fadas, fábulas. Então, primeiro a criança aprende técnicas gerais para narrar um texto, ligadas a falar o texto em voz alta, conseguir pegar o sentido do texto, encontrar a entonação certa lendo em voz alta para compreendê-lo. Só depois vem o preparo para narrar. Após a oficina, introduzimos textos de Guimarães Rosa, começando com pequenos trechos. Geralmente iniciamos com partes do conto Capo Geral, do livro Manuelzão e Miguilim.  É um processo de ler em voz alta para encontrar o sentido, encontrar a entonação certa, se aparece uma palavra difícil, já introduzimos o uso do léxico em Guimarães Rosa, que é aquele dicionário com palavras que o autor criou e usa. É um processo lento, eles levam de um ano e meio a dois anos para estar prontos para ingressar no grupo, que é o momento em que recebem a camiseta e começam a atender os turistas.

CE: A experiência da oralidade ajuda os adolescentes a compreender a obra do autor?

EA: Ajuda muito, não somente os adolescentes como qualquer um que entre em contato com a obra. Em sua correspondência com a tradutora de seus livros para o inglês, Guimarães Rosa fala que, na obra dele, a poética, ou poeticidade da forma, tem um valor igual ou maior ao valor atribuído ao sentido da história. Ele explica o que é essa poeticidade da forma, a que ele atribui valor tão grande; é tanto a sensação mágica e visual das palavras quanto sua eficácia sonora, seu ritmo, a música subjacente às frases. Rosa está dizendo que a oralidade é importante. Parece que descortina uma dimensão da obra que não se encontra somente com a leitura silenciosa. Percebemos isso narrando e ouvindo a opinião de quem nos ouve narrar. É claro que a obra do autor tem algumas partes muito herméticas, impossíveis de ser narradas.

CE: Guimarães Rosa, em sua obra, brinca com a linguagem de sua terra natal bolando construções literárias eruditas e inventivas, inspiradas no jeito de falar do sertão mineiro. Existe uma relação especial dos jovens de Cordisburgo com a linguagem do autor?

EA: É claro que o sotaque dos meninos, a música da língua, que sutilmente forma cada um de nós, é uma música familiar, a mesma que inspirou Guimarães Rosa. Ele diz: “Quando escrevo, sinto-me transportado para Cordisburgo”. Tanto na música quanto no cenário, Rosa situa sua obra aqui no sertão mineiro. Isso facilita, para os meninos, encontrar o melhor jeito de falar o texto. Mas é um texto que, no primeiro momento, apresenta muitas dificuldades, como para qualquer um.

CE: Quais são as dificuldades que a leitura de Guimarães apresenta para os jovens?

EA: Hoje em dia, os jovens praticamente não leem. Há essa concorrência do computador, do videogame, tudo na telinha.  Não há o hábito de sentar para ler um livro por prazer. Essa dificuldade existe lá (no grupo Miguilim) também, claro. Começamos com um grupo de 25, 30 crianças, e depois sobram 12, 15. Muitos não conseguem dar esse mergulho na leitura, no treino, na disciplina exigida para falar um texto de Rosa, falar com as palavras dele. A própria questão da oralidade, da leitura em voz alta, antigamente era mais presente nos currículos das escolas. Sei que no tempo de minha mãe, por exemplo, havia nas aulas de Português um momento para a leitura em voz alta. Era mais comum. Abolir isso dos currículos prejudica um pouco aprender a ler em voz alta.

CE: O grupo Miguilim começou como projeto ligado ao Museu Casa Guimarães Rosa e agora alguns professores pensam em adotar o recurso com alunos dos ensinos Fundamental e Médio. Como a senhora vê a narração de textos literários como recurso para os professores em sala de aula?

EA: O Miguilim começou e continua como um projeto ligado ao museu. Atuar no museu é condição para o menino fazer parte do grupo. Mas a narração de histórias como recurso dentro da sala de aula, de uma forma ou de outra, sempre existiu. Acho um recurso valioso, que pode ser utilizado em várias frentes, como para introduzir algum tema. Conta-se uma história sobre o assunto introduzido. Pode ser usado para desenvolver a capacidade de ouvir, tão difícil hoje em dia. No momento em que se usa a narração de histórias como recurso pedagógico, é possível desenvolver essa capacidade de ouvir. Abre também espaço para a divulgação de textos da literatura oral, da literatura autoral, textos poéticos que ajudem no desenvolvimento da sensibilidade. Observamos nos adolescentes do Miguilim, principalmente nos que passam bastante tempo no grupo, que se vai educando essa sensibilidade. Trabalha-se com um texto poético, que ao mesmo tempo te faz pensar. Muitas coisas são desenvolvidas com esse trabalho. Vemos isso pela facilidade que muitos têm em passar no vestibular. A narração estimula a leitura, os jovens adquirem facilidade para a leitura, de maneira geral. É um processo muito rico na formação dos adolescentes.

CE: Muitos professores usam filmes e peças teatrais como recursos para colocar os adolescentes em contato com Guimarães Rosa. Quais as vantagens da narração em relação a esses outros recursos?

EA: O teatro e o cinema fazem uma versão, uma adaptação (do texto), e quando se narra um texto, há a possibilidade de se estar mais próximo ao que o autor quis transmitir. É claro que, quando narramos, colocamos nossa emoção, nosso jeito de narrar. Mas isso acontece com as próprias palavras do autor. Já em um filme ou peça de teatro, esse texto é adaptado, transposto a outras linguagens. Na narração, no momento em que se traz o texto em voz alta, tal como ele foi escrito, com as palavras que o autor escolheu – e Rosa fala que cada palavra está ali não por acaso – há uma experiência mais próxima da criação.