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Rosa dos Ventos

Banquete conservador

por Mauricio Dias publicado 18/03/2011 09h15, última modificação 18/03/2011 16h08
Segundo o economista Gonçalves, o ditador Emílio Garrastazu Médici é o rei do PIB. Ele era linha-dura, mas não bobo. Disse certa vez: "A economia vai bem, o povo vai mal"

Banquete conservador Segundo economista Gonçalves, o ditador Médici é o rei do PIB

A presidenta Dilma Rousseff comemorou o crescimento do País de 7,5% em 2010, ano que marcou a despedida do presidente Lula. Simultaneamente, ela alertou que a porcentagem não se repetiria este ano.

O aumento foi importante. Significou, entre outras coisas, que a riqueza material do País cresceu mais do que a população, gerou mais empregos etc. e tal. No entanto, o que os governos fazem com isso é que é – como se dizia outrora – o “ó do borogodó”. Note-se que sem a vogal a palavra não existe. Esse “ó” é o cidadão, que deve ser a razão de se governar uma nação.

Sobre este crescimento alentado, circula nos meios políticos, econômicos, acadêmicos e jornalísticos estudo feito pelo economista Reinaldo Gonçalves, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, figura de prestígio em parte da esquerda carioca. Ele foi formulador e militante do Partido dos Trabalhadores até a “diáspora” que houve no PT, provocada pelo chamado “mensalão”.

O trabalho de Gonçalves tem um paladar inconfundível. Foi um banquete para a direita e, por isso, abriu espaço para que o autor debutasse na tela da Globo, em horário nobre, e discorresse sobre o tema no Jornal Nacional.

A cobiça conservadora em torno do artigo tem como um dos focos a posição de Lula no ranking comparativo do PIB elaborado pelo economista. Lula ocupa a 19ª posição, na lista de 29 ex-presidentes elencados por Gonçalves, com o modesto crescimento médio anual de 4%.

“O desempenho do governo Lula é fraco pelos padrões históricos brasileiros”, afirma o economista e “muito fraco” quando comparado com outros presidentes, são duas das conclusões do trabalho.

As taxas de crescimento por períodos administrativos oferecem possibilidade para  determinar a escolha do presidente melhor sucedido ao gosto do freguês. O topo do elenco organizado pelo professor Gonçalves é ocupado, por exemplo, por um ditador: Emílio Garrastazu Médici, expoente dos anos de chumbo.  É o rei do PIB.

O general era da linha dura, mas não era bobo. O colunista, mesmo a contragosto, registra a frase dele: “A economia vai bem, mas o povo vai mal”. Poderia ser gravada no diploma de alguns economistas.

Durante o período Médici, o salário mínimo real teve queda de 18%, segundo o Dieese. Depois de Getúlio Vargas na fase constitucional, foi no governo Lula que o mínimo teve o maior crescimento: 50% em termos reais.

E economia foi bem em 2010. O povo continuou mal. Poderia, no entanto, estar pior. Isso porque, na administração Lula, quase 13 milhões saíram da miséria. Um número inédito, no espaço de seis anos, segundo dados do Ipea.

Em 2003, Lula assumiu o poder com um total de 26.069.035 miseráveis no País. Em 2009, esse número tinha caído para 13.474.983. Talvez não haja razão para comemorar enquanto houver algum brasileiro indigente. Mas esses números dimensionam a preocupação do governo com o problema social.

O estudo de Gonçalves, segundo alguns economistas, tem um erro metodológico eliminatório. Não leva em conta a população de cada período. Eles sugerem que o melhor seria estabelecer o renda média per capita.

Se a má vontade do professor Reinaldo Gonçalves com Lula fosse um pouco maior, ele poderia empurrar o ex-presidente petista do 19º para o 21º lugar. Bastava, para isso, incluir no ranking os ex-presidentes Carlos Luz (governou por quatro dias) e Delfim Moreira (excluído da lista de Gonçalves, embora tenha ficado oito meses no poder e superado Jânio Quadros, incluído com quase sete meses) com uma simples conta pro rata.

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