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Bang Bang em Porto Alegre

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 01/03/2010 18h03, última modificação 07/09/2010 18h04
O vice-prefeito no primeiro mandato de José Fogaça, atual Secretário da Saúde de Porto Alegre, médico Eliseu Santos (PTB-RS), sai com mulher e filha do culto evangélico no Templo da Assembléia de Deus

Sexta feira, 21 horas. Zona norte de Porto Alegre. Bairro Floresta. Rua Hoffmann. O vice-prefeito no primeiro mandato de José Fogaça, atual Secretário da Saúde de Porto Alegre, médico Eliseu Santos (PTB-RS), sai com mulher e filha do culto evangélico no Templo da Assembléia de Deus. Eliseu, como de costume, fica conversando com amigos e conhecidos à saída do culto. Come, a porta do templo, o seu último pastel.

Às 21h20, Eliseu se dirige para seu carro, estacionado logo adiante. É neste momento que um automóvel prata dobra na rua Hoffmann. Dentro, havia três homens. Dois saem do carro. A mulher e a filha de Eliseu já haviam sentado no carro do Secretário. É tudo muito rápido. Ninguém fala em assalto. Nada. Só se escutam tiros. Bandidos de um lado. Eliseu de outro. É um bang bang intenso nas ruas de Porto Alegre. Da pistola de Eliseu Santos são disparados nove cartuchos. Um dos atacantes teria sido atingido. Mas os bandidos levam a melhor e acertam seu alvo. Eliseu leva tiros na perna, no peito e na cabeça. Morre ali.

Assalto ou execução?
As primeiras declarações da direção do PTB, partido de Eliseu, é que ele teria reagido a um assalto. Ninguém acredita. Nem mesmo a mídia. Eliseu, faz tempo, vinha se dizendo ameaçado. Afirmava não temer e contar com a proteção divina. E andava armado, com uma pistola .380, por precaução.

Nos últimos anos, dois grandes problemas apareceram na sua Secretaria. Primeiro, foi feita a denúncia de desvio de verbas da saúde. Eliseu, no primeiro mandato de Fogaça, rompeu com a Fundação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Causou demissão de mais de 700 funcionários. Contratou, sem licitação, uma empresa de Sorocaba, SP, para cuidar da saúde da família em Porto Alegre. O Instituto Sollus, conforme denúncia do Ministério Público Federal, teria desviado pelo menos 9 milhões de reais entre 2007 e 2009. O caso, hoje, está sob investigação da Polícia Federal. No dia anterior ao seu assassinato, Eliseu Santos, havia feito seu primeiro depoimento no inquérito.

Coincidência? O delegado da PF fez uma declaração evasiva. Disse que Eliseu não disse nada de importante em seu depoimento. Claro que suas declarações não poderiam ser diferentes. A Operação Phatos -nome dado pela PF à investigação - está longe de ter chegado ao final e parece ter apanhado o fio da meada de mais uma extensa rede de corrupção e desvio de recursos públicos no Rio Grande do Sul.

Um segundo problema enfrentado por Eliseu, também na sua pasta e vinculado ao tema da corrupção, ocorreu mais recentemente. Em maio deste ano, empresários de uma firma de Segurança Patrimonial, chamada Reação, encarregada da segurança dos postos de saúde da capital, denunciou que o Coordenador da Assessoria Jurídica da Secretaria da Saúde havia cobrado propina, em nome de Eliseu, para fazer caixa de campanha. Eliseu desautorizou o assessor publicamente, abriu sindicância e rompeu contrato com a empresa. Pouco depois, Eliseu foi à imprensa dizer que havia sido ameaçado de morte por motoqueiros numa sinaleira.

Reação em cadeia

No sábado, pega de surpresa, toda a mídia gaúcha posicionou-se contra a tese do assalto, divulgada pela direção do PTB. No domingo, entretanto, os jornais passaram a defender a ideia. Talvez porque se deram conta de que o tema pode se tornar uma batata quente nas mãos do atual prefeito e candidato a governador pelo PMDB, José Fogaça.

Na política gaúcha, a governadora Yeda Crusius já tem o seu cadáver para dar conta. Até hoje está mal explicada a morte de seu chefe da representação gaúcha em Brasília, Marcelo Cavalcante, encontrado "suicidado" no lago Paranoá. Entrar numa disputa eleitoral com um cadáver de arrasto pode ser muito ruim para o prefeito de Porto Alegre. Fogaça já terá de se desvencilhar da responsabilidade que o seu partido tem na adiministração desastrosa de Yeda Crusius. O simbolismo de ter, igualmente, mortes mal explicadas em seu pequeno círculo, pode ser decisivo para deslocar sua candidatura a governador no imaginário popular.

No sábado, o jornal Zero Hora, por exemplo, dava a seguinte manchete: "Secretário Eliseu Santos é assassinado". A chamada de capa afirmava que "o ex-vice prefeito da Capital foi executado a tiros por um homem que desceu de Vectra na rua Hoffmann, no bairro Floresta, por volta das 21h20 de ontem". Já no domingo, após uma reação em cadeia nos bastidores na política gaúcha, o tom de Zero Hora era totalmente diferente. A manchete ficou enigmática: "O mistério da Rua Hoffmann". E a chamada: "Motivações para assassinato de Eliseu Santos, como latrocínio e execução, são investigadas pela polícia".

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