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Política

Pinheirinho, praça de guerra

Baleado na desocupação não mexe a perna esquerda e teme pelo futuro

por Redação Carta Capital — publicado 04/02/2012 08h14, última modificação 06/06/2015 18h21
No hospital, o morador que recebeu um tiro nas costas ao deixar o assentamento Pinheirinho concedeu sua primeira entrevista a CartaCapital
Foto - Pinheirinho 5

O que antes era uma comunidade, se tornou mais um pedaço de terra cercado. Enquanto isso, ex-moradores são estigmatizados na cidade . Foto: Murilo Machado

Por Daniella Cambaúva e Murilo Machado

Quando, no penúltimo domingo de janeiro, por volta das 6h da manhã, um efetivo de 2 mil homens da Polícia Militar iniciou a operação de reintegração de posse na ocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos, o maranhense David Furtado, de 30 anos, demorou para perceber o que estava acontecendo. Em meio ao tumulto, deixou o local às pressas, com a família, tentando se livrar dos tiros disparados em direção aos moradores.

Não imaginava que a expulsão ocorreria naquela manhã. Nem que corria em direção ao perigo.

Nos dias anteriores, diante das muitas liminares sobre a desocupação, ele a família esperavam pelo pior: todos dormiam vestindo roupas normais, em vez dos pijamas.

O sistema de alerta também estava montado. Caso a PM chegasse, os moradores do soltariam fogos de artifício para avisar a vizinhança. A ordem era resistir.

Entre sábado e domingo, porém, o clima era de alivia. Na véspera da expulsão, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) e vereadores do Partido dos Trabalhadores estiveram no local. Com os moradores, eles comemoravam um acordo feito entre as lideranças e a massa falida da Selecta, dona do terreno, que supostamente garantiria a suspensão da ordem de reintegração por 15 dias. Para o domingo à tarde, estava previsto até mesmo um show com o rapper Lurdez da Luz.

Até que a ordem da Justiça Estadual colocou todo mundo para correr – e colocou também ao chão todo o sistema de alerta montado nos dias anteriores.

Pego desprevenido, David Furtado correu com a mulher e os filho em direção a uma quadra poliesportiva onde a prefeitura havia montado estandes para orientar os moradores, a algumas dezenas de metros da ocupação. Ali, justamente onde deveria estar protegido, foi alvejado pelas costas – e o tiro não era de borracha.

O disparo, conforme a Prefeitura de São José dos Campos (SP) reconheceu, partiu do revólver de um homem da Guarda Civil Metropolitana, que assistia à atividade e acertou a coluna do rapaz.

“Quando nós saímos de dentro do acampamento, você não entendia o que estava acontecendo, aquele barulho, aquele tumulto. A gente achava que indo naquela direção ia se livrar das balas, mas corremos exatamente na direção do perigo”, relatou Laura Furtado, mulher de David.

Na terça-feira 31, David aceitou conceder sua primeira entrevista desde que foi atingido. Ele nos recebeu no quarto de 7 m² que divide com um homem de cerca de setenta anos no Hospital Municipal de São José dos Campos.

Morador do Pinheirinho desde o início da ocupação, David era funcionário de uma empresa que presta serviços à prefeitura de São José dos Campos na construção e manutenção de calçadas.

Dias depois de passar por uma cirurgia para retirar a bala, sua fala é lenta e arrastada, e seu futuro é incerto. Ainda não há previsão de alta e ele teme não poder voltar ao trabalho, já que não consegue realizar qualquer movimento com a perna esquerda.

Em conversa com a reportagem de CartaCapital, ele conta que sua maior preocupação agora é ter condições para sustentar sua mulher e filho. Confira:

CartaCapital - Como souberam que a operação de reintegração de posse já havia começado?
David Furtado - Acordamos com fogos de artifício lá no Pinheirinho. A população estava preparada, a gente estava esperando, mas não naquele domingo, naquela covardia. No domingo, as famílias dormem até mais tarde, foi uma estratégia deles. E a gente conseguiu sair [de casa], eu, minha esposa e meu filho. Ficamos sabendo através do povo que mora ali mesmo no Pinheirinho.

CC - Que fogos de artifícios eram aqueles?
DF - A gente tinha planejado [a queima de fogos] na comunidade mesmo para avisar. Era para correr para frente da fronteira, para esperar eles.

CC - Deu tempo de pegar alguma coisa? Você conseguiu recuperar seus pertences?
DF - Nada. Só o bebê. Trocamos de roupa e saímos.

CC - Como foi o momento em que você levou o tiro?
DF - Eu e minha esposa estávamos subindo lá de volta para a casa do meu irmão. Não deixaram a gente entrar para fazer a inscrição [na quadra poliesportiva onde a prefeitura montou os estandes]. E aí eles já tinham dado vários tiros, mas, como eles já tinham abaixado as armas, mas estava em punho ainda, nós dois resolvemos voltar para ir na casa do meu irmão. A gente estava ciente de que não podia mais entrar. Aí foi a hora que ele [o policial da Guarda Civil] estava com a arma na mão atrás do poste. Ele e mais alguns começaram a atirar. Foi na hora que eu mandei a minha esposa correr, e quando eu me vi eu estava no chão.

CC - Você conseguiu ver o rosto de quem disparou?
DF - De onde eu estava para ele... Eu sei mais ou menos a fisionomia, como ele se comporta. Mas o rosto não dá para discriminar bem. Mas assim, a fisionomia, do jeito que ele estava muito nervoso, carregando aquela arma direto...

CC - Ele atirou uma vez só?
DF - Ele atirou uma vez e o meu colega foi me socorrer, graças a Deus, e ele atirou outra vez. Não sei se foi ele, porque eu estava no chão, não deu para ver porque eu estava nervoso, perdendo muito sangue.

CC - Você já sabe se vai ficar com o movimento das pernas prejudicado?
DF - Bom, o doutor disse que a bala ficou entre um nervo e o osso. Ele disse que, aos poucos, eu vou caminhar, mas estou com muita dificuldade na perna esquerda. Vou fazer exames para saber qual nervo foi atingido e fazer uma série de fisioterapia para ver se realmente eu vou voltar a andar normal.

CC - O que você pensa em fazer quando sair daqui?
DF - Não sei. Não tem nem previsão de alta ainda....

CC - E o seu trabalho?
DF - Por enquanto...também não sei, não tem nem como pensar, né? Não tem como voltar ainda, não tenho condições de nada, precisa de fisioterapia. Eu sinto ainda o impacto da bala nas costas, não tenho condições de trabalhar, de fazer nada.

CC - Em que você pensa quando fica aqui, sozinho, na maior parte do tempo?
DF - Na minha esposa e no meu filho. Em mais nada.

CC - Você acredita que alguém será responsabilizado pelo tiro que você levou?
DF - Sim, porque a justiça de Deus não falha.

CC - Qual é seu maior medo a partir de agora?
DF - Meu maior medo é não voltar a andar normal, não conseguir trabalhar, não conseguir sustentar nem meu filho, nem minha esposa. Espero que não aconteça nada pior, nem comigo, nem com outras pessoas.

CC - Como você avalia a atuação da polícia naquele domingo?
DF - A tropa de choque... Eu achei muito errado. Saíram jogando bomba pra todo mundo, pra tudo quanto é lado. Muito errado mesmo, um monte de gente despreparada. E da guarda municipal pior ainda. Despreparados. Eles são de uma faixa etária que a maioria toma remédio de pressão, não sabe controlar uma arma. Então pra que colocar esse pessoal para trabalhar sem qualificação nenhuma? Isso é uma pergunta para o Cury [Eduardo Cury, PSDB, prefeito de São José dos Campos] responder. Todos os que estavam ali, se você passar nas casas por ali, todos vão dizer da mesma maneira.

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