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Bahia e nova hegemonia

por Emiliano José — publicado 23/10/2008 17h49, última modificação 01/09/2010 17h57
A Bahia está mudando. E esse movimento de mudança começou bem antes que Antonio Carlos Magalhães se despedisse da vida

A Bahia está mudando. E esse movimento de mudança começou bem antes que Antonio Carlos Magalhães se despedisse da vida. Eu dizia desde há muito que o carlismo já havia sido derrotado, mesmo com o velho coronel vivo. E essa derrota era anunciada. De um ponto de vista mais aparente, começou pelos próprios erros de Antônio Carlos Magalhães – com o episódio do Senado e sua renúncia e depois com os grampos da amante e de seus adversários. A partir do início dessa década, na alvorada do século XXI, foi uma sucessão de erros imperdoáveis – ou quem sabe apenas a reiteração do caráter autoritário do velho coronel.

Para além do que é mais aparente, do ponto de vista estrutural, de uma visão mais ampla, creio que o coronelismo conservador estava em decadência há muito tempo, e não é por acaso que nas últimas eleições o Nordeste todo se levantou e derrotou oligarquias com as mesmas características daquela que imperava na Bahia.

Havia um processo político de mudanças em andamento, decorrente, sobretudo, das políticas públicas do governo Lula, que mudava as relações de poder na região, que alavancava a cidadania. No caso do velho coronel da Bahia, havia uma inadequação histórica – ele acreditava poder fazer o que fazia em outros momentos. Permanecia com toda sua arrogância e pretensão, sem perceber que os tempos eram outros.

Volto a esse debate por conta da boa reportagem de Leandro Fortes em CartaCapital de 6 de agosto desse ano, Depois do carlismo. Quero acrescentar duas ou três palavras a ela. Podemos dizer que se trava na Bahia uma luta político-cultural, uma luta pela hegemonia, num quadro político-social onde ainda sobrevivem aspectos da cultura política anterior, a cultura do carlismo. A vitória de Jaques Wagner, em 2006, indicou um novo rumo, um apoio do povo a uma nova proposta hegemônica. Foi um passo, importante.

A cultura política do carlismo, a seu modo, pretendia modernizar a Bahia. Essa cultura seguia a tradição da ditadura, que também foi modernizadora. E essa modernização excluía o povo. A Bahia se industrializou – criou um pólo industrial forte, como o Petroquímico –, saiu da fase da predominância da agropecuária, sem que isso significasse melhoria das condições de vida do povo. Essa chamada modernização convivia com índices sociais terríveis. Mais de 2 milhões de analfabetos, a maioria do povo sem água por todo o interior, campeão de pessoas vinculadas ao Bolsa-Família, muita miséria.

A proposta do PT e de outros partidos de esquerda – encarnada na liderança de Wagner – vinha há tempos indicando outros caminhos. Wagner havia sido candidato em 2002 e obtido mais de 38% dos votos. E em 2006, venceu. No primeiro turno. A mais surpreendente vitória do País. A população da Bahia optou por outro caminho. Não aceitava mais os métodos e a política do carlismo. Recusava o autoritarismo, inerente ao velho modelo. Recusava a sua exclusão do processo de desenvolvimento. Queria participação.

Essa vitória eleitoral, no entanto, não quer dizer que a cultura política anterior foi definitivamente sepultada. Claro que até mesmo os herdeiros do carlismo fazem questão de dizer que o carlismo acabou. Isso foi dito por ACM Neto recentemente, quem sabe considerando o fardo do avô muito pesado para o enfrentamento da disputa eleitoral em Salvador. Há, como costuma dizer o cientista político Paulo Fábio Dantas Neto, a tentativa de constituição de um pós-carlismo carlista. Uma direita que continuaria, sob outras formas, a mesma política anterior, com o traço fundamental da exclusão do povo.

A bem da verdade, no entanto, não se pode dizer que a herança daquela cultura política se localiza apenas no partido do neto do velho coronel. O problema é mais amplo. Uma hegemonia de tantas décadas deita raízes. Elas são políticas e culturais. Há vários políticos, de centro e de direita, de variados matizes, que se entusiasmam com os métodos antigos, sobretudo com o autoritarismo, com o murro na mesa, com a utilização da máquina pública em benefício próprio, com a exclusão do povo do processo político, com o fisiologismo. Nada disso é exclusivo apenas do DEM.

Levar à frente um projeto republicano, democrático e popular não é uma tarefa fácil num Estado onde durante décadas predominou uma concepção centralizadora, autoritária, conservadora, excludente. Justiça seja feita: o governador Wagner tem feito um grande esforço para mudar essa cultura. Tem feito esforço para conquistar a população para uma outra visão do que seja a política. Oligarquias e autoritarismo na Bahia, sabe o governador, não nasceram com Antonio Carlos Magalhães. Este deu continuidade a uma tradição.

Wagner tem honrado os compromissos de participação popular. Tem sido republicano a tal ponto que recebe crítica dos aliados – não discrimina ninguém. É profundamente democrático.

A Bahia está vivendo inegavelmente um novo momento. Isso não quer dizer, insista-se, que está decidida uma nova hegemonia. Há uma tendência no sentido de firmar-se uma nova cultura política – democrática, transparente, de participação do povo, de inclusão da população em todos os sentidos. Há contracorrentes, no entanto. Os que adotam a política antiga, e que lutam contra essa nova hegemonia.

Estamos às portas das eleições municipais. Será um bom termômetro para aferir em que medida a nova cultura está se firmando e para saber também qual o prestígio da velha política. Sei que eleição municipal não define necessariamente eleição de governador ou presidente da República. Wagner contava com apenas 60 prefeitos em mais de 417 municípios. Ganhou a eleição, com folga. Mas, de qualquer forma, será um bom teste. Para Wagner, que até agora vem firmando suas posições na sociedade e, também, para os que pretendem mudar tudo para nada mudar, na velha fórmula de Lampedusa.

Creio que a opção feita pelo povo em 2006, derrotando uma oligarquia de quatro décadas, aponta para a consolidação dessa nova hegemonia, para a superação dos que acreditam nos métodos da modernização conservadora, para a derrota dos que crêem na fórmula do manda quem pode, obedece quem tem juízo. Quem sabe, no plano da política, estejamos escapando de uma onda autoritária de longa duração para uma outra, democrática, que desejamos seja também longa, tendo o povo como protagonista ativo.