Você está aqui: Página Inicial / Política / Autoridades argentinas não acreditam na participação de brasileiros no assalto

Política

Banco Província

Autoridades argentinas não acreditam na participação de brasileiros no assalto

por Lucas Azevedo — publicado 14/01/2011 06h22, última modificação 14/01/2011 16h25
Argentina possui know how de roubos cinematográficos, o que faz com que polícia acredite que criminosos sejam de casa
Autoridades argentinas não acreditam na participação de brasileiros no assalto ao banco Provincia

Argentina possui know how de roubos cinematográficos. Por Lucas Azevedo. Foto: Barcex

Argentina possui know how de roubos cinematográficos, o que faz com que polícia acredite que criminosos sejam de casa
Lucas Azevedo
A polícia argentina não descarta, mas ainda é incrédula sobre a participação de brasileiros no assalto ao Banco Província de Buenos Aires (Bapro), no bairro de Belgrano, em Buenos Aires, no final de semana do Ano Novo.
Em Buenos Aires desde essa terça-feira, quando levou às autoridades do país vizinho material comparativo em ações no Brasil para tentar identificar a participação de algum brasileiro, o Delegado Regional Executivo da Polícia Federal no Rio Grande do Sul, José Antônio Dornelles de Oliveira, afirmou à CartaCapital que a apuração ainda está no começo, mas que os investigadores argentinos não encontraram muitas similaridades.
“Não tivemos acesso às investigações deles. Nós mostramos a nossa, e eles estão achando que não há similaridades em muita coisa, mas também não descartam [a possibilidade de envolvimento de brasileiros]”, disse Oliveira.
Os argentinos trabalham comparando o recente a outros grandes assaltos em seu país. A Argentina possui um passado recente de mega operações semelhantes e até idênticas a do Provincia.
“Os investigadores argentinos têm know how. Mas a investigação ainda não pode concluir nada, porque tem todo um trabalho de coleta de material e perícia a ser analisado. Isso demanda tempo. Nossa colaboração foi apenas um plus”, completou Oliveira, que volta ao Brasil nesta quarta-feira.
Know how argentino
Em janeiro de 1997, assaltantes construíram um túnel de aproximadamente 70 metros. Na semana seguinte ao Réveillon, entraram na sucursal Recoleta do Banco de Crédito Argentino em Callao e Las Heras, sacando algo em torno de 15 milhões de dólares.
Doze anos depois, em julho de 2009, um grupo levou 28 caixas de segurança da sucursal do Banco Francês na localidade San Miguel fazendo-se passar por operários que reformavam o local, gerando um prejuízo de 2 milhões de pesos.
Ação semelhante ocorreu em março de 2010, no banco Macro, no Congresso argentino. Caixas de segurança de 99 clientes foram esvaziadas, o sistema de alarme foi desligado e cerca de 10 milhões de dólares levados. Os assaltantes ainda deixaram pichado em uma parede: “Não será o roubo do século, mas sim do milênio”. O recado fez referência ao “roubo do século”, ocorrido quatro anos antes.
Em janeiro de 2006, como em um roteiro de filme, cerca de dez assaltantes passaram várias horas em uma falsa tomada de reféns dentro do banco Rio de Acassuso, no subúrbio de Buenos Aires, enquanto roubavam 145 caixas de segurança. Durante toda a operação eles permaneceram cercados pela polícia, mas fugiram sem disparar um púnico tiro. A saída foi via túnel construído para acessar a rede de esgoto, carregando 19 milhões de dólares.
Hipóteses para a invasão
O promotor Martín Niklison, encarregado do caso, preferiu não se manifestar sobre as semelhanças entre os assaltos em seu país e as possíveis coincidencias com a ação no Banco Provincia. “Desculpe, mas não posso comentar isso”, disse, por telefone, à CartaCapital.
O que as autoridades argentinas têm, no momento, são imagens de dois assaltantes do lado de fora do Provincia, carregando um utilitário Renault Kangoo branco com 12 sacos escuros. As filmagens são das 6h07 do dia 3 de janeiro. Depois de carregarem o automóvel, os criminosos deixam o local com o veículo, possivelmente guiado por um terceiro elemento. Instantes depois, outros dois membros do grupo deixaram, a pé, o escritório alugado na avenida Cabildo 1971, de onde partiu o túnel até o endereço do banco, na mesma avenida, número 1999.
Os assaltantes argentinos detinham um bom aporte financeiro e informações privilegiadas para o ataque. A Polícia Federal argentina trabalha com a hipótese de o grupo ter contado com o apoio de algum funcionário do banco que lhes forneceu mapas da construção ou que não ofereceu resistências.
Outra possibilidade, ainda mais elaborada, é que integrantes da quadrilha, fingindo serem clientes, instalaram um GPS em uma das caixas do cofre. As duas táticas eliminariam erros no trajeto das escavações, diminuindo o tempo gasto nesta tarefa. Primeiramente estimado em seis meses, os investigadores, agora, avaliam que o acesso subterrâneo possa ter sido feito em menos de um mês.
A presidência da instituição descarta a hipótese de ajuda de funcionários. “Até o momento, afastamos as três pessoas que trabalhavam na central de superintendência de alarmes do banco. É pessoal de segurança que estava de turno nos dias em que ocorreu o fato. Nesses casos, é evidente que esta gente não cumpriu com sua função adequadamente, que implica seguir o protocolo ante o disparo dos alarmes", afirmou ao jornal La Nacion o presidente do banco, Guillermo Francos. Ele se refere ao fato de o alarme ter tocado várias vezes no feriado do Ano Novo enquanto os assaltantes estavam invadindo o cofre. Mesmo assim, nada foi feito.
Assaltos brasileiros
Na tentativa de assalto em Porto Alegre, em setembro de 2006, as escavações duraram três meses. Mapas dos subterrâneos do Centro da capital gaúcha foram utilizados. Tanto que os bandidos contornaram árvores e evitaram estruturas difíceis de serem transpassadas. O objetivo era roubar cerca de 200 milhões de reais dos cofres do Banrisul (Banco do Estado do Rio Grande do Sul) e da Caixa Econômica Federal no meio do Centro de Porto Alegre.
Ao todo, 29 pessoas foram presas na Operação Toupeira, da Polícia Federal, desencadeada em 1º de setembro de 2006. Atualmente apenas três membros do bando continuam presos. Dois morreram, e o restante cumpriu a pena e foi libertado.
Parte do financiamento da ação é fruto do maior assalto a banco da história do Brasil. Em 6  de agosto de 2005, uma quadrilha cavou um túnel de 80 metros e fisgou do cofre do Banco Central em Fortaleza (Ceará) 164 milhões de reais. Até agora, pouco mais de 10% do valor foi recuperado. Após o roubo, a quadrilha entrou em guerra interna. Sequestros e assassinatos entre os envolvidos deram um tom ainda mais cinematográfico à ação. Alguns dos líderes do assalto participaram da tentativa frustrada em Porto Alegre, apoiados por membros do PCC (Primeiro Comando da Capital).
Pistas argentinas
Uma das pistas deixadas pelo bando argentino que saqueou o Banco Provincia é o contrato de aluguel da casa em que o túnel começou a ser construído, na avenida Cabildo 1971. A mulher que assinou o documento citou como sendo seu atual endereço um local em que possivelmente ela teria vivido há cerca de oito meses. As autoridades não revelam o nome da suspeita nem o endereço.
Outra tática utilizada pela polícia argentina é a consulta, com o apoio das empresas de telefonia daquele país, dos números de celulares que estiveram em frequente funcionamento durante o final de semana do roubo, na área das torres de telefonia. Um filtro está sendo feito baseado no horário de trabalho dos criminosos. O método permitiu a prisão dos responsáveis pelo “assalto do século”, no banco Rio de Acassuso, em 2006.
E outra preocupação para os investigadores. Ao menos nesses quatro outros casos citados – banco Macro, Rio de Acassuso, Banco de Crédito Argentino e Banco Francês de San Miguel – houve participação de policiais ou ex-policiais.

registrado em: