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Política

São Paulo

Aumento da tarifa de ônibus em SP: “Só com pressão popular Kassab vai dialogar”

por Viomundo — publicado 29/01/2011 11h12, última modificação 30/01/2011 12h12
Decisão de aumentar a passagem para 3 reais levou a população às ruas da capital paulista para protestar. Do Viomundo

De Conceição Lemes*

O Movimento Passe Livre realizou nesta quinta-feira, 27, às 17h, em frente ao Teatro Municipal, nova manifestação pública  contra o aumento da tarifa de ônibus na cidade de São Paulo, que passou de R$ 2,70 para R$ 3

O primeiro ato,  no dia 13 de janeiro, reuniu cerca de mil manifestantes e acabou violentamente reprimido pela Polícia Militar (PM), que utilizou bombas de efeito moral, gás pimenta e balas de borracha. Trinta e uma pessoas foram detidas e, pelo menos, dez ficaram feridas.

“O que mais me impressionou foi a perseguição aos manifestantes  no centro da cidade, iniciada  após a dispersão, ou seja, o ato público já havia acabado”, denunciou ao Viomundo Nina Cappello. “Em alta velocidade, carros de polícia passaram a percorrer o trajeto da manifestação – Praça da República – Câmara Municipal-Teatro Municipal –, em busca de pessoas que viram no ato.”

Nina tem 21 anos, é estudante de Direito, pertence ao  Movimento  Passe Livre e foi a responsável pela negociação com a PM durante a manifestação do dia 13. Desempenhou o mesmo papel no segundo ato contra o aumento das tarifas, em 20 de janeiro.

“Devido à repercussão negativa na mídia , a PM teve postura diferente na segunda manifestação”, revela Nina Cappello em nova entrevista ao Viomundo.  “Mesmo alguns policiais querendo nos reprimir, o comandante nos deixou claro, desde o começo, que a preocupação era evitar qualquer tipo de conflito e que seguraria o máximo possível a tropa.”

“Na quinta-feira passada, fizemos uma performance de uns 15 minutos no cruzamento das avenidas Brigadeiro Luiz Antonio com Paulista, que paralisou o trânsito”, acrescenta. “A tensão aumentou. Receei  por repressão. Felizmente, não ocorreu.”

Viomundo – Que outras diferenças você notou entre a primeira e a segunda manifestação?

Nina Cappello — O número de participantes quadruplicou.  A segunda chegou a ter 4 mil. Gente da população em geral se juntou a nós, mostrando  indignação com a violência como fomos tratados, o descontentamento com o aumento absurdo da tarifa de ônibus e a péssima qualidade de transporte público. É necessário um novo modelo de transporte público em São Paulo.

Viomundo – Pelas fotografias, a  maioria dos manifestantes é estudante.  É isso mesmo? Vocês acreditam que conseguirão reverter o aumento tarifário

Nina Cappello – Bem, foi assim em outras cidades. Os estudantes se mobilizaram e conseguiram barrar o aumento. Para a maioria dos trabalhadores, é muito difícil participar.  No final da tarde, estão saindo do trabalho e ainda terão muito chão para  chegar em casa, pois dependem do transporte coletivo precário.  Mas a gente nota, pelos aplausos enquanto passamos,  que eles nos apóiam.

Entretanto, temos plena consciência de que não iremos mudar o jogo apenas com estudantes. Nesse sentido, é fundamental que as nossas ações envolvam número cada vez maior de pessoas e de setores da população.

Viomundo – Os estudantes pagam metade da passagem, muitos trabalhadores recebem vale-transporte.  Como mobilizar esses diferentes segmentos da sociedade?

Nina Cappello -- Os estudantes pagam metade, mas o aumento da tarifa traz implicações para a população como um todo. Reconhecemos dificuldade também para mobilizar, por exemplo, os sindicatos, pois muitos trabalhadores recebem vale-transporte, cujo valor sobe quando a passagem aumenta. Por isso, já começamos a conversar com alguns sindicatos …

Viomundo – O aumento da tarifa é a única reivindicação do Movimento Passe livre?

Nina Cappello – É a causa mais imediata. Mas sabemos que não basta barrar o aumento se não questionarmos e transformamos a lógica do transporte público como um todo. Como  ele é gerido por concessões a empresas privadas, basta os empresários pressionarem a Prefeitura, para o poder público ceder, aumentando o preço das passagens, sem melhorar em nada as condições para os usuários.

O transporte deve ser visto como um direito, e não como fonte de lucro. Por isso, deve ser público de verdade, assim como a saúde e a educação. É um direito básico . Do jeito que está hoje em dia, a tarifa impede que parte da população se locomova pela cidade, e isso se agrava a cada novo aumento.

Por isso, o aumento da tarifa é o aumento da exclusão.  A locomoção não se dá apenas  na ida e volta do trabalho. Vai além. Por que não temos ônibus de madrugada? Por que é muito mais difícil pegar ônibus no final de semana?

O transporte deve funcionar de acordo com os interesses da ampla maioria da população, para isso o poder público deve assumir para si o planejamento e a gestão dos transportes coletivos. E os usuários devem participar diretamente disto.

Viomundo — Vocês marcaram para hoje  um novo ato,  na frente do Teatro Municipal. Um ato atrás do outro não seria desgastante para o movimento?

Nina Cappello – Apesar do sucesso do ato na Avenida Paulista, é importante voltarmos com força total para o centro da cidade, para dialogar com quem mais sofre com o aumento das tarifas, que são os trabalhadores das classes mais desfavorecidas.

Com a crescente aceitação da nossa pauta  pela população, provavelmente esse desgaste não será rápido. Evidentemente que se ficarmos apenas nos atos de rua, uma vez por semana, e nada de concreto for sendo conquistado, haverá um desgaste…

Por isso, cada vez mais, pretendemos  pressionar o poder público para revogar o aumento da tarifa e repensar a lógica do transporte como um todo.

Viomundo – A mídia tem noticiado o  movimento. Como você  avalia a cobertura

Nina Cappello —  No ato da Paulista, em 20 de janeiro, tivemos cobertura expressiva em grande parte devido à repressão da manifestação anterior.  Aparentemente, a maioria da imprensa só queria saber como seria o comportamento da PM naquele ato e  quantas pessoas agregaríamos na manifestação. Não estava muito interessada nas explicações para o aumento da tarifa e o absurdo do nosso modelo de transporte…

Viomundo – E os parlamentares como têm reagido às manifestações de vocês?

Nina Cappello – Alguns já nos contataram e pretendem, pela via institucional, cobrar explicações do poder público para esse aumento da tarifa. Mas essa cobrança só acontecerá, de fato, no início de fevereiro, quando o Legislativo volta das férias.

Viomundo – Já tentaram marcar uma reunião com o prefeito Gilberto Kassab para discutir o aumento da tarifa?

Nina Cappello – O Kassab rejeita discutir o aumento que ele deu para as passagens de ônibus. Até agora não se dispôs a conversar conosco.  Em anos anteriores, articulamos audiências públicas  para exigir explicações sobre o aumento da tarifa. O secretário de Transportes nem sequer apareceu. Por isso volto a dizer: só com  pressão popular, o  Kassab vai dialogar com a gente, e esperamos que ele se disponha a isso.

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