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As regras do jogo

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 15/04/2010 17h41, última modificação 07/09/2010 17h42
A disputa pelos rumos do Rio Grande do Sul e do Brasil estão entrelaçados como nunca nesta eleição.

O futuro da nação

A disputa pelos rumos do Rio Grande do Sul e do Brasil estão entrelaçados como nunca nesta eleição. Posso estar totalmente errado, mas me assalta a idéia de que o governo Lula está reordenando de alto a baixo absolutamente tudo neste país. Um pouco como Getúlio, que reposicionou o Brasil no contexto mundial no século passado. Mas também mais do que Getúlio, porque Lula pode, sim, vir a ser “o cara” neste século conturbado pelos problemas do clima, da globalização e das tecnologias que apontam novos horizontes.

Lula está bancando Dilma - uma candidata que teria dificuldades numa eleição proporcional no RS -, ou seja, está bancando uma out sider para a função de presidir o país. E pode derrotar José Serra simplesmente porque Serra é um candidato no lugar errado, no momento errado e diante de um adversário bem posicionado.

Serra se lançou candidato esta semana como pacificador - diz que pretende unir o país - mas Lula já fez isto. Serra se apresenta como continuador do que Lula tem de bom - mas Lula já fez isso com Fernando Henrique e absorveu tudo o que este tinha de bom, enquanto Serra, além de afastar-se de FHC na campanha de 2002, parece que não aprendeu nada com a derrota e manteve a agenda negativa de sua legenda.

O Rio Grande do Sul é um Estado atravessado na nação. Serra procurou evitar de todas as formas que Yeda Crusius viesse a ser candidata. Serra tratou de se afastar-se de Yeda porque a governadora enrolou-se na ética mas também porque aplicou a agenda neoliberal com determinação. Lula (ou melhor, o PT) tentou evitar que Tarso Genro se lançasse candidato, argumentando com a prioridade nacional. Lula, na verdade, tratou de se afastar de Tarso porque o socialismo petista gaúcho não lhe parece superior ao lulismo. Já o PMDB nacionalmente não é propriamente um partido, e hoje busca, no cenário regional, tornar-se a alternativa que o PT e o PSDB têm dificuldades para bancar. Num quadro em que Yeda e Tarso estão posicionado, Fogaça busca um território que lhe permita dialogar com a maioria dos gaúchos.

Se compreendermos o governo Lula como um reordenador da política nacional e gaúcha, compreenderemos que Lula será o grande vitorioso nas eleições em 2010 no Rio Grande do Sul. Primeiro, porque tem grandes chances de ver sua candidata vencer Serra num território que há quatro anos era totalmente inóspito e com uma candidata que nunca disputou uma eleição. Segundo porque, seja Tarso ou Fogaça o eleito, a vitória para o governo gaúcho será do lulismo.

As regras do jogo

Depois, sempre é fácil explicar uma eleição, porque alguém foi vitorioso, ou derrotado. Depois, as causas tornam-se evidentes. Pois quero atrever-me a dizer antes os motivos da derrota de Serra e vitória de Lula no Rio Grande do Sul - e, mais que isso, dizer os motivos pelos quais a política gaúcha nunca mais será a mesma depois de 2010.

Me atrevo a dizer que Serra será derrotado no Rio Grande do Sul pelos mesmos motivos pelos quais McCain foi derrotado Estados Unidos. McCain, nas eleições americanas era o candidato da indústria armamentista em crise, dos bancos e montadoras falidas, das seguradoras em colapso. Ou seja, McCain era o candidato de um mundo vencido, ultrapassado, que tinha rendido tudo o que podia render. Foi neste contexto que apareceu Obama como o candidato da nova economia, dos novos tempos, do novo mundo e da nova política. Um out sider num mundo carcomido pelas velhas relações políticas.

Serra, nesta eleição, é o candidato das privatizações que não deram certo, das alianças internacionais erradas, das opções econômicas anti-brasileiras. Por mais que se esforce para se apresentar como líder da nação (como McCain se esforçou e até Hilary, num certo sentido), Serra tende a ser representante do velho Brasil.

Já Dilma vai aparecer como a candidata “do homem”. E, cá pra nós, neste país não tem coisa mais valiosa hoje do que isso: ser a “candidata do homem” para os homens e a candidata mulher para quem possa julgar isso importante. Além disso, é competente e não é política, no sentido tradicional do termo, enquanto Serra, é político e deverá aparecer no imaginário popular como uma raposa tentando aproximar-se do galinheiro...

Bom, exercícios de futurologia aparte, o fato é que Serra deverá aparecer como o candidato de Yeda nas eleições gaúchas, e Dilma como a candidata de Tarso e de Fogaça, ainda que este venha a manter uma postura ambivalente entre o tucano e a petista. Como 99 em 100 analistas políticos acreditam que ninguém, a não ser Tarso ou Fogaça tem chances de eleger-se governador do RS, eu, que não sou louco e me incluo entre os 99, antevejo, antes de tudo, uma vitória de Lula nas eleições gaúchas.

Vitória do lulismo no RS

Isso não é pouca coisa. O Rio Grande do Sul sempre resistiu. Nunca se vergou à exemplos externos. “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra“, diz o hino do Rio Grande. Admitir que Lula está certo não é fácil para os gaúchos. E nessa categoria devemos incluir os de direita, os de centro e os de esquerda. Todos são gaúchos que, talvez, finalmente, como Brizola há muitos anos, vão acabar por engolir o “sapo barbudo”.

Um porta voz talvez um pouco folclórico desta vitória de Lula no RS vem sendo o ex-governador Alceu Collares. Collares tem tido atuações performáticas em defesa da candidatura de Dilma Roussef. Tem dito que Lula é mais importante que Getúlio, Jango e Juscelino juntos. Pode ser um exagero retórico do ex-governador, mas o fato de Collares, um anti-petista radical, estar dizendo isso é um sinal do tempos.

Pode parecer estranho o que vou dizer, mas o voto lulista no Rio Grande do Sul tende a ficar com Tarso e o voto petista pode migrar para Fogaça. Tarso, contraditoriamente, vai depender da força do lulismo. Fogaça, além dos votos da direita num segundo turno, vai depender da capacidade de penetrar no eleitorado petista desde o primeiro.

Parece confuso? É. É muito confuso. Mas se entendermos Dilma como a candidata do homem, Tarso como o jogador esforçado e Fogaça como o cara que veio de fora da equipe mas revela jogo de cintura e capacidade de fazer gol, podemos entender o fato de que estejam compreendendo tudo nesta eleição gaúcha como uma questão de sorte.

Não é verdade?

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Errei: Tenho cometido diversos erros nesta coluna. Quase todos decorrentes do fato de haver passado por três ou quatro reformas ortográficas ao longo da vida e ter adquirido diversos vícios de linguagem. Ou então, noutros momentos, por causa da pressa. Na última coluna, contudo, errei duas vezes por motivos distintos. Errei ao dizer que Eliseu Santos havia sido secretário da Fazenda de Porto Alegre, quando o político assassinado foi secretário da Saúde. Errei também porque ofendi preconceituosamente o povo alagoano. Quanto a este, só posso pedir desculpas e prometer tentar não cometer o mesmo erro novamente.