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Política

As leituras de Lula

por André Barrocal publicado 01/08/2013 08h57, última modificação 01/08/2013 14h02
Lincoln, Vargas e Chávez, as biografias que revelam o que vai pela cabeça e o que inspira atos e falas do ex-presidente
Valter Campanato / ABr
Lula

O ex-presidente Lula durante discurso em Brasília no último dia 23

O ex-presidente Lula nunca escondeu ter dedicado pouco tempo aos livros. Com raiz sertaneja e formação em escola técnica e no chão de fábrica, seu aprendizado humano e político calcou-se no empirismo e na intuição. Mas a vida depois do poder tornou-o um leitor mais curioso. E o que tem passado pelos olhos de Lula em viagens ou depois do almoço diz muito sobre o que vai pela cabeça do petista, ainda uma liderança atuante.

Na biblioteca do Instituto Lula no bairro do Ipiranga, em São Paulo, encontram-se as biografias de três líderes que fizeram História. São personagens de épocas, perfis e lugares diferentes, mas com pontos de contato com o brasileiro e seu governo: o norte-americano Abraham Lincoln, o venezuelano Hugo Chávez e o conterrâneo Getúlio Vargas.

Lincoln parte do que teria sido a principal marca dele para a autora, a compatriota historiadora Doris Kearns Goodwin: a habilidade para contornar adversários e adversidades. O título original do livro é bem mais revelador, Time de Rivais – O Gênio Político de Abraham Lincoln. O batismo explica-se por Lincoln ter abrigado no próprio gabinete durante seu governo (1861-1865) três candidatos que havia derrotado nas primárias do Partido Republicano.

A biografia é de 2005, mas só ganhou versão no Brasil em janeiro, no embalo do filme de Steven Spielberg. Nas telas, a narrativa concentra-se na luta do presidente para arrancar do Congresso o fim da escravidão e, assim, acabar com a guerra civil. Unido e sem escravos, os EUA inauguraram uma era de desenvolvimento baseado no mercado interno que levou os republicanos a reinarem nas urnas (elegeram 12 dos 16 presidentes em 72 anos). O domínio só foi encerrado pelo democrata Franklin Roosevelt, depois da quebra da Bolsa de Nova York em 1929.

A geração de renda e emprego na gestão Lula também serviu de base para o Brasil constituir um grande mercado interno pela primeira vez na história. Mas a intersecção entre os dois-presidentes parece ir além, na visão do brasileiro. “Fiquei impressionado como a imprensa batia no Lincoln, igualzinho batem em mim”, disse Lula na comemoração dos 30 anos da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em fevereiro.

A relação com a mídia é um dos aspectos a unir Lula e Chávez, biografado em Comandante por um jornalista irlandês. Rory Carroll trabalhou em Caracas de 2006 a 2012, a serviço do jornal britânico The Guardian. Lançou o livro em março, mês da morte do presidente.

A obra relata a transformação econômica e social da Venezuela promovida por alguém que, como Lula, tinha o rosto da maioria e o ódio da minoria. Mas é repudiada pelos chavistas, por narrar casos de corrupção e intrigas no governo do coronel (1999-2012). Nestes trechos, mostra-se desafiadora para alguém como Lula, um simpatizante da Revolução Bolivariana.

Foi com o apoio de brasileiros indicados por Lula, por exemplo, que Chávez disputou sua última eleição, em 2012. O intercâmbio entre os dois deixou no petista a sensação de que Chávez acertou na estratégia adotada para enfrentar a imprensa: apoiar novos espaços midiáticos para ele e seus apoiadores terem como se contrapor à visão expressa pelos veículos de comunicação tradicionais.

O caminho tem sido seguido pelo presidente Nicolás Maduro, mas Lula acha que talvez não baste para que o Socialismo do Século XXI siga no ritmo ditado por Chávez, dono de um carisma e uma força individual incomparáveis. Eis a razão pela qual aconselhou Maduro a maneirar, ao se encontrar com ele em Brasília em maio: “Você não é o Chávez”.

A percepção sobre a importância do carisma no rumo de um governo ajuda a entender por que Lula defende Dilma Rousseff de críticas da imprensa de modo mais firme do que a própria presidenta, responsável por uma relação amena com a mídia. “Eles estão com preconceito contra a Dilma maior do que tinham contra mim”, disse ele em um evento do movimento negro no fim de julho.

O confronto de Getúlio Vargas com a imprensa e a elite nos moldes em que Lula travou e ainda trava será conhecido em detalhes pelo ex-presidente em 2014, com a conclusão da trilogia sobre o gaúcho escrita pelo jornalista cearense Lira Neto. O último livro enfocará o governo eleito em 1950 e encerrado em 1954 com o suicídio de Vargas, clímax da crise deflagrada pelo atentado ao jornalista Carlos Lacerda, um ícone do cerco da imprensa ao presidente.

Nos últimos dias, Lula terminou o segundo volume, Getúlio (1930-1945): Do governo provisório à ditadura do Estado Novo, a ser lançado oficialmente em agosto. Abrange a fase autoritária de Vargas, época de censura, fechamento do Congresso e dos partidos. O discurso contra os partidos e a política usado na implantação do Estado Novo em 1937 fez Lula preocupar-se com o tom dos recentes protestos pelo Brasil. E despertou-lhe vontade de ler O Analfabeto Político, do dramaturgo alemão Bertold Brech, uma condenação veemente da alienação.

Curiosamente, foi como ditador que em 1943 Vargas baixou a CLT, símbolo do emprego e dos direitos trabalhistas, outro ponto de aproximação com Lula. Em dez anos de governo petista, foram criadas 19 milhões de vagas formais. Quando o livro chegar às lojas, em agosto, terá na contracapa textos do próprio ex-presidente e seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, que governou decidido a enterrar a herança de Vargas. Vai ser interessante comparar o que os dois têm a dizer.