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As interpretações e a reconstrução da história

por Coluna do Leitor — publicado 04/11/2010 09h26, última modificação 04/11/2010 10h26
O leitor Frederico Firmo de Souza Cruz escreve sobre o papel da mídia e a construção da imagem dos candidatos à presidência do País durante a campanha eleitoral

Por Frederico Firmo de Souza Cruz*

Já está em marcha a reconstrução da história desta eleição. O jornal Folha estampa, em página inteira, uma autopropaganda exibindo uma balança com denúncias contra Dilma e Serra. A pretensão é demonstrar que tudo foi tratado de forma equilibrada. A manchete é, “na Folha sobra para todo mundo”. Como temia, a propaganda é na verdade uma tentativa de reconstruir historicamente o papel da imprensa. Se tivessem colocado como peso, o espaço dado a cada uma das denúncias, o tamanho das letras e a localização das páginas, ficaria claro o desequilíbrio. São os mesmos editores que usam de seu poder para reconstruir a história que vão posteriormente afirmar que os brasileiros não tem memória.

Da mesma forma já começam as interpretações sobre a vitória ou derrota. A pouco nesta mesma revista, Ricardo Young interpreta de forma curiosa a diferença entre os 56% de Dilma e os 87% de aprovação de Lula. Para ele isto demonstra o peso da oposição. Para mim, esta e outras interpretações, são sem dúvida uma outra forma de interpretar e recontar a história. Sem dúvida a diferença existe, mas eu interpreto que 87% da população votou aprovando um programa político, econômico e social. Porém durante a campanha, Marina e Serra tentaram se apropriar deste programa. Ambos se propuseram a ser gerentes, e cada um deles tentou mostrar quem seria um melhor gerente. Em primeiro lugar tentaram se apropriar ou minimizar a autoria afirmando que o programa era na verdade de FHC. Isto foi batido na imprensa ad nausea.

Na reconstrução histórica, esqueceram que um plano semelhante ao Real , levou a Argentina à situação que se encontra, esqueceram o papel de Itamar e Ricupero, esqueceram a subserviência que parecia tornar eterna ,a frase “ fazer a lição de casa para o FMI”; esqueceram Jamil Haddad e Adib Jatene que na saúde fizeram o que Serra disse que fez; esqueceram a quase destruição da Universidade pública por Paulo Renato e até as privatizações. Todas estas diferenças de programa entre FHC e Lula foram esquecidos dentro da lógica de que através da reconstrução histórica podemos voltar ao poder. Tudo isto regado fortemente com os molhos do preconceito, afinal dizem eles; um operário jamais poderia fazer o que fez.

A campanha de Serra foi desde o início, uma campanha para ser GERENTE, isto é, a apresentação de um portfólio pessoal. Serra despolitizou, despartidarizou e personalizou. Parte da população, a classe média de maior poder aquisitivo ( segundo a própria propaganda tucana) aceitou o conto do gerente.

Identificando-se com um PSDB elitista, quatrocentão, da política do café com leite, imaginaram um gerente que ( embora imigrante) pertencia aos Cardoso. Apenas eleitoralmente ele era filho de verdureiro, afinal deveria parecer popular ( e todos nesta classe aprovaram a manipulação). Porém o discurso reforçava diariamente o, nós contra a plebe ignara, o sul contra o nordeste, os esclarecidos contra os iletrados etc... O PV também sofreu do mesmo mal, tentando frisar a imagem de um ambientalismo chic, Marina Natura. Em resumo, o sonho deste grupo social ( meio amorfo) era um gerente chic que seguisse a política econômica do operário barbudo. Assim divergindo de outras interpretações , é este o sentido e o significado de 87% de aprovação. 87% , incluindo o grupo chic, quer continuidade, quer crescimento econômico, quer educação quer segurança, quer tudo que tem direito, mas claro que um certo percentual preferiria isto tudo na mão de alguém cuja mulher se veste na DASLU. Este é o significado dos 44% de José Serra.

Este grupo, pelo menos nesta eleição abdicou de qualquer diretriz política e optou apenas pela luta pelo poder. Para tanto, contou com uma ajuda luxuosa de uma parte significativa da imprensa, recontando a história e tentando construir diuturnamente uma realidade. Incentivaram os regionalismos, os preconceitos, e aquela região mais sombria do imaginário popular. Falaram em “matar criancinhas”, e o velho trololó sobre o perigo comunista. Fizeram das críticas do presidente, um ataque à liberdade de imprensa, como se ela não tivesse tido a liberdade ela mesma de censurar o que não queria e magnificar o que lhe convinha. Mas sobretudo trabalharam a imagem de um presidente que não entende de etiqueta ( a tal liturgia do cargo).

Nada disto funcionou, e agora é hora, mais uma vez, de reconstruir a história, e já o estão fazendo quando descrevem a eleição como uma disputa de apenas dois candidatos que solitariamente não souberam manter o nível. Apenas com uma reconstrução histórica conveniente a imprensa poderá voltar a falar que “sobrou para todo mundo” . Se quisermos aprender algo com esta eleição, devemos preservar a verdadeira história do papel da imprensa, assim como compreender o papel das novas mídias. A preservação da história é fundamental, pois lembrem que até o holocausto já tentaram negar.

Quanto à política oposicionista, daqui para frente ela terá duas caras, todas com o mesmo perfil caracterizado pela falta de programa político. De um lado o PMDB, que conseguiu criar um novo conceito, de oposição no poder e do outro lado os outros. O futuro só a história vai escrever, mas para o PSDB pode ser mais difícil pois o leite azedou o café, e os demos estão tentando fugir do inferno em que se encontram ( talvez para o PMDB) e o PV ainda precisa dizer a que veio além de sua proposta ambiental.

*Frederico Firmo de Souza Cruz é prof. departamento de Física da Universidade Federal de Santa Catarina.

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