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As dificuldades de Genro no pampa gaúcho

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 01/07/2009 15h01, última modificação 08/09/2010 15h02
A candidatura do ministro Tarso Genro ao governo gaúcho tem diversas pedras no caminho: o centralismo do PT, o desejo de renovação das bases, a falta de um projeto para o Rio Grande e a arrogância de seu partido estão entre elas

A candidatura do ministro Tarso Genro ao governo gaúcho tem diversas pedras no caminho: o centralismo do PT, o desejo de renovação das bases, a falta de um projeto para o Rio Grande e a arrogância de seu partido estão entre elas. Nos últimos dias, Tarso deu início à superação de dois destes obstáculos: o centralismo e o desejo de renovação das bases de seu partido.

Lula recuou da alternativa Rigotto
O centralismo do PT foi vencido com a visita do presidente Lula ao Rio Grande. Na sexta-feira, dia 26, o presidente cumpriu uma agenda simbólica em Porto Alegre. Primeiro esteve com Tarso Genro no lançamento do Pronasci numa das vilas mais violentas de Porto Alegre. A praça da Vila Bom Jesus tornou-se pequena para receber tanta gente. Depois, Lula visitou a décima edição do Fórum Internacional do Software Livre, onde foi dizer que "felizmente o governo brasileiro optou por apostar na nossa inteligência ao invés de ficar comprando conhecimento dos outros povos". Por fim, foi até o evento de inauguração do novo parque gráfico do grupo RBS, um investimento de 70 milhões que foi elogiado pelo presidente como um exemplo a ser seguido na crise.

No dia anterior à visita ao Estado, o jornal Zero Hora já havia publicado uma entrevista exclusiva na qual Lula, nas entrelinhas, jogava a toalha quanto à defesa da candidatura de Germano Rigotto a governador com o apoio do PT. Lula reconhecia o favoritismo de Tarso nas pesquisas e dizia que o melhor seria trabalhar por um segundo turno civilizado no Rio Grande do Sul. O recuo de Lula foi a deixa para que Tarso, esta semana, depois de haver obtido 67% dos delegados a um encontro estadual do PT nos próximos dias 18 e 19 deste mês de julho, quando deverá ser ratificado candidato, viesse a público dizer que admite conversar com o PMDB e discutir inclusive nomes.

A renovação da política
Se o centralismo do PT começou a vergar diante das pesquisas e da resistência das bases petistas ao PMDB, o mesmo não ocorreu com o desejo de renovação. Este é um elemento que tem raízes na militância petista, e atravessa a alma do eleitor gaúcho. Com um agravante: há os que desejam um PT gaúcho renovado num processo de alinhamento com o governo Lula e há os que querem um PT gaúcho renovado dentro de suas origens, mais "chavistas" que "lulistas".

De qualquer modo, cerca de um terço do PT de Tarso hoje reivindica mudanças e renovação. E este tende a ser um problema permanente para sua campanha. Em 2006, Yeda Crusius elegeu-se prometendo "um novo jeito de governar". Yeda não atendeu sua promessa básica, mas a bandeira da renovação permanece no ânimo do eleitorado e, fora do PT, os pequenos partidos têm apostado nela, do PPS ao PCdB e PSB.

A falta de um projeto
Além da renovação e do centralismo, Tarso terá de enfrentar outros fantasmas em seu caminho: o seu partido, por hora, não tem um projeto para a crise da economia gaúcha e parece também não saber como desmontar a política antipetista que vingou no Rio Grande do Sul e o tem levado a derrotas sucessivas em disputas importantes. Prova desta dificuldade é o slogan de sua campanha interna. Tarso, por enquanto, promete apenas "unir o PT e governar o Rio Grande". Se ficar nesta plataforma, é provável que sua candidatura não avance além dos 40% dos votos já históricos do PT gaúcho. O maior erro do PT nos embates de Porto Alegre e cidades importantes do interior do Estado tem sido exatamente o de apresentar candidatos que "unem o exército petista para governar" como se isto fosse suficiente.

As alianças como virtudes
O ministro precisará alterar a política de alianças de seu partido no Estado se quiser fazer vingar sua candidatura. E talvez aí residam as principais dificuldades. Quando estourou a crise do mensalão, o ex-governador Olívio Dutra imputou as causas da crise às "más companhias". A declaração veio na esteira da postura do partido no Estado na questão das alianças. O PT gaúcho cresceu com forte espírito hegemonista, e hoje tem dificuldades de compor alianças inclusive com parceiros de esquerda, como o PCdoB e PSB. Sem superar esta visão, é provável que o PT gaúcho acabe mais uma vez isolado e sozinho.

O cenário das disputas de 2010 no Rio Grande do Sul oscila entre duas possibilidades. Uma hipótese é a de um quadro multipolar, onde poderiam equilibrar-se diversos nomes, entre eles Tarso Genro(PT), Germano Rigotto ou José Fogaça (PMDB), Yeda Crusius(PSDB), Pedro Ruas(PSOL) e até o atual vice governador Paulo Feijó(DEM). Outro é de uma polarização já no primeiro turno entre o PT e o PMDB. O PT gaúcho parece apostar neste segundo cenário (que envolveria alianças desde o primeiro turno), e intuir que as resistências a sua política junto do eleitor gaúcho podem acabar se diluindo na percepção do eleitor lulista. O problema desta aposta é que é preciso combinar com os russos... E se o PMDB, com seu governismo radical e seu aliancismo amplo for mais competente na capitalização do governo Lula?