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As caixas d'água de Bezerra

por Clara Roman — publicado 13/01/2012 16h17, última modificação 15/01/2012 11h29
Sob gestão de Fernado Bezerra, empresa obtém contrato milionário para instalar cisternas 'perecíveis' em reduto do ministro
cisterna

Cisterna tradicional, com placas de cimento, construída para captação de água. Foto: Valter Campanato/ABr

Sob a gestão de Clementino Coelho, irmão do ministro Fernando Bezerra (Integração Nacional), a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco) fechou um contrato de 210 milhões de reais, no fim do ano passado, com uma empresa mexicana que vai espalhar 60 mil cisternas na região do semiárido nordestino.

O contrato provocou polêmica em Petrolina (PE), base eleitoral de Bezerra. A empresa contratada vai construir os equipamentos com polietileno – material que, segundo especialistas, são menos duráveis que as antigas cisternas, feitas com placas de cimento. Vencedora de licitação, a empresa mexicana Acqualimp, do Grupo Rotoplas (com sede em Valinhos, no interior paulista), mal fechou o contrato e já inaugurou, nesta semana, fábricas em Petrolina (PE), Teresina (PI), em Montes Claros (MG) e Penedo (AL).

Bezerra foi prefeito da cidade duas vezes. O filho dele, Fernando Coelho Filho (filiado ao PSB, como o pai e o padrinho político do pai, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos), é pré-candidato a prefeito do município.

Nos últimos oito anos, a construção das cisternas, espécie de caixa d’água que coleta a chuva durante três meses e abastece uma família para o resto do ano, era responsabilidade de ONGs contratadas pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS). Ou seja: sob a gestão Bezerra, a Integração assumiu a braçadeira para as obras numa área de influência da família do ministro.

A unidade construída com polietileno custa, em média, 1 mil reais a mais do que as cisternas tradicionaos (3 mil reais).  É como trocar uma piscina de azulejo por uma de fibra, só que mais cara.

Desde o começo do ano, o ministro Bezerra é alvo de uma série de reportagens que indicam um suposto direcionamento de recursos federais para seu reduto. Sob sua gestão, o ministério destinou a Pernambuco 90% das verbas de um programa para obras anti-enchete. Dias após receber críticas por supostamente beneficiar sua base, o irmão do ministro deixou o comando da Codevasf, que contratou a empresa.

Enquanto a Acqualimp se defende e aponta que suas cisternas duram em média 30 anos, Haroldo Schistek, engenheiro agrônomo e coordenador do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), com sede em Juazeiro (BA), teme que a solução se torne infrutífera a longo prazo. “As cisternas de polietileno tem pouca durabilidade. Aqui, tubos de irrigação desse material duram apenas 12 anos”, diz o engenheiro.

Além disso, como as cisternas de placas de cimento eram construídas com auxílio das próprias famílias, permitiam maior envolvimento com a comunidade. Os equipamentos de polietileno chegam praticamente prontos, o que quebra a cadeia de serviços e mão-de-obra gerada pelas antigas construções.

“As cisternas de cimento permitem uma mobilização social em torno de sua construção e um bom diálogo com as famílias beneficiadas, para que possam compreender noções de higiene, engenho da água e cuidado com alimentos”, afirma Rômulo Paes, secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento Social.

“Com a cisterna de polietileno, vem um caminhão, descarrega, outro técnico põe a calha no telhado e vai embora”, diz Schistek. Amaury Ramos, diretor comercial da Acqualimp, afirma que o envolvimento para as cisternas de sua empresa é menor, mas não nulo.

“O objetivo do governo é a velocidade do programa e que mais famílias tenham acesso a esse processo”, diz ele, que ressalta a rapidez da produção industrializada desses reservatórios como grande trunfo dessa tecnologia.

“Tenho condições de fazer 10 mil por mês e a instalação dela é rápida, compatível com a velocidade necessária para atender programas governamentais agressivos”, defende ele.

“A cisterna de polietileno aparece como alternativa de mercado e vem escorada na experiência internacional. China Australia, Rússia e México, por exemplo, utilizaram a cisterna de polietileno”, explica Paes.

Parceira do governo há oito anos, a ONG Articulação do Semiárido, que fazia as cisternas até então, se dizia prejudicada pela decisão da presidenta Dilma Rousseff de pedir a revisão de contratos com as ONGs na esteira das suspeitas que derrubaram o ex-ministro dos Esportes Orlando Silva. Por conta da decisão, a retomada do convênio para as cisternas, assinada com o Ministério do Desenvolvimento Social, atrasou cerca de dois meses. Como resposta, em 20 de dezembro do ano passado, cerca de 15 mil manifestantes tomaram as ruas de Petrolina para exigir que a parceria fosse retomada. No fim, após a pressão, o governo liberou para a ONG um aditamento de seis milhões de reais – cerca de 20% dos repasses que eram feitos até então, segundo o governo.

O combate à seca se tornou ponto sensível na Esplanada dos Ministérios desde que a presidenta Dilma Rousseff elegeu o tema, por meio do Água para Todos, como um dos pilares do programa Brasil Sem Miséria. O programa prevê a construção de 750 mil cisternas até 2014  nos estados de Pernambuco, Piauí, Alagoas, Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e Maranhão. Nos últimos dez anos, 415 mil foram implantadas na região.

Para a Acqualimp, empresa contratada para a tarefa, o empreendimento se tornou uma das principais apostas para a expansão dos negócios no semiárido. “É um mercado que nos interessa muito e estamos atentos para novos contratos”, diz Amaury Ramos, diretor comercial.

Com contrato em 16 países da América Latina, o diretor destaca o peso do programa brasileiro. “É o maior programa de compra de sistemas de abastecimento de água no mundo. Nada chega próximo ao volume que o governo pretende comprar”, afirma. Na mesma maré, são beneficiadas empresas da cadeia do petróleo, como a Braskem, que fornece o material polietileno para a confecção das cisternas.

Enquanto o megaprojeto de cisternas toma forma, a polêmica obra de transposição do Rio São Francisco, grande promessa para resolver a questão da seca, enfrenta problemas. Segundo Schistek, como as obras principais, para bombeamento, não existem ainda, os trechos que já foram feitos racham devido à ausência de água. “A obra é um elefante branco, como a Transamazônica. O semiárido tem muita água: nossa proposta [construção de cisternas] é uma coleta descentralizada”.

Procurado, o Ministério da Integração Nacional esclareceu que o Água para Todos visa reunir diversas tecnologias, entre elas, a cisterna de polietileno.

Segundo o Ministério, não existe contraposição entre os modelos de cimento e o citado. A nota afirma que as cisternas de polietileno, fabricadas no Brasil, não racham com o tempo e possuem alta impermeabilidade, evitando contaminações.

Além disso, essas  tecnologias, segundo o órgão, não excluem a participação ativa da comunidade local, que colabora com o processo, por meio de comitês gestores municipais, no acompanhamento e controle da instalação dos sistemas e no trabalho de capacitação das famílias para o uso racional da água. Os novos modelos foram incorporados para atender a demanda de 750 mil cisternas do Água para Todos.

 

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