Você está aqui: Página Inicial / Política / Arremedo udenista

Política

Eleições 2010

Arremedo udenista

por Cynara Menezes — publicado 01/10/2010 17h18, última modificação 01/10/2010 17h44
Críticas de Lula à mídia provocam uma reação contra o “autoritarismo” e as “ameaças à liberdade de imprensa”. Estamos em 2010 ou em 1964? Matéria publicada na edição 615, de 25 de setembro

Críticas de Lula à mídia provocam uma reação contra o “autoritarismo” e as “ameaças à liberdade de imprensa”. Estamos em 2010 ou em 1964? Matéria publicada na edição 615, de 25 de setembro

No domingo 19, o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira dava o alerta pelo Twitter: “A UDN foi um exemplo de liberalismo autoritário, golpista. Hoje, no Brasil, vemos um patético renascimento do udenismo”. Bresser-Pereira está longe de ser um perigoso stalinista. É um tucano de origem garantida e sua preocupação, a uma semana das eleições, com o risco da escalada udenista faz todo o sentido.

Não se nega a origem correta de algumas das denúncias contra o governo, principalmente os casos de nepotismo a envolver a ex-ministra-chefe da Casa Civil, Erenice Guerra. Eles devem ser investigados com rigor e acompanhados com vigilância pela mídia e a sociedade civil. Mas o que Bresser-Pereira e tantos outros apontam é que, na esteira das denúncias, tomou forma um movimento exacerbado pela mídia que tenta ressuscitar fantasmas do passado. Fala-se em ameaças à democracia, à liberdade de expressão e até ao Estado de Direito. Ao mesmo tempo, a campanha realimenta velhos preconceitos contra o presidente de origem operária. A se ouvir a mídia, vivemos a ditadura não do proletariado, mas a do proletário.

Com sua candidata Dilma Rousseff sob o fogo cerrado há quase um mês, Lula saiu a campo para denunciar os interesses políticos não assumidos pela mídia. Em comício em Campinas no sábado 18, Lula “ousou” dizer que, se o PT vencer as eleições, será também a derrota de alguns setores da mídia. “Dilma, nós não vamos derrotar apenas os tucanos, vamos derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como se fossem partido político e não têm coragem de dizer que são um partido político e têm candidato”, afirmou.

Foi o que bastou para Lula ser acusado de atentar à liberdade de expressão, como se críticas à imprensa não fosse um componente dessa mesma liberdade. Ainda que, eventualmente, tenha “exagerado” nas críticas, como reclamam vários jornalistas, o presidente não foi mais grosseiro do que boa parte dos colunistas e editorialistas. Lula poderia ter sido mais contido? Talvez. Mas qual deveria ser o comportamento de quem o achincalha diariamente sem nenhum compromisso com os fatos?

Com raras exceções, a mídia preferiu esconder-se atrás da bandeira da liberdade. A reação de Lula causou uma contrarreação imediata. Os jornais passaram a chamar o presidente de “autoritário” e voltaram a acusar o governo e o PT de querer “controlar a imprensa” e dar continuidade ao “desmanche da democracia”, iniciado com sua eleição em 2002, como publicou o jornal O Estado de S. Paulo em editorial.

“Defensores da liberdade de expressão” assinaram manifesto em ato nas Arcadas do Largo de São Francisco, em São Paulo. Os “intelectuais”, muitos filiados ao PSDB, chamaram Lula de fascista, caudilho, opressor e violador da Constituição, e compararam mais uma vez o presidente a Benito Mussolini, a ecoar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A mídia os definiu como representantes da sociedade civil, sem que suas filiações e simpatias partidárias fossem reveladas aos leitores. Ironicamente, um movimento contrário, contra a “mídia golpista”, organizado por movimentos sociais simpáticos ao governo Lula foi definido por essa mesma imprensa imparcial como um grupo aparelhado pelo PT para solapar a opinião livre.

Apesar de todo o barulho, o cientista político Paulo Kramer, da Universidade de Brasília, diz ser uma injustiça com a UDN chamar a turma da São Francisco e a oposição como um todo de udenistas. “A UDN tinha pessoas cultas, geniais. Era um show, comparados com esses daí. Moralmente, intelectualmente, são pigmeus”, diz Kramer. “O que existe no Brasil é que a oposição não faz o seu trabalho, de se opor ao governo pelo ponto de vista. Na única vitória que teve durante o governo Lula, a derrota da CPMF, tinha a chance de ganhar a população. Em vez disso, terceirizou o discurso de oposição para a mídia, cujo papel também deveria ser outro, o de apontar o que está errado e não o de fazer oposição.”

Acusado de golpista, Lula não se intimidaria e voltaria à carga em entrevista publicada pelo portal Terra na quinta 23. “Duvido que exista um país com mais liberdade de comunicação do que este, da parte do governo”, afirmou Lula. “Agora, a verdade é que nós temos nove ou dez famílias que dominam toda a comunicação. A verdade é que você viaja pelo Brasil e tem duas ou três famílias que são donas dos canais de televisão. E os mesmos são donos das rádios e os mesmos são donos dos jornais...”

Ele também cobrou que a imprensa declare ter lado. “A imprensa brasileira deveria assumir categoricamente que tem um candidato e um partido. O que não dá é para ficarem vendendo uma neutralidade disfarçada.”

Três semanas seguidas de denúncias unicamente contra Dilma Rousseff tampouco passaram despercebidas para o comunicólogo Afonso de Albuquerque, do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense. “Os modos de ver da imprensa no Brasil me parecem, sim, muito partidários. E isso terá um custo político pós-eleitoral alto, para o PSDB e para a imprensa. São dois suicídios que me chocam, porque os jornais não avaliam o quanto estão perdendo em credibilidade”, diz.

Seria por não atingir a maioria dos eleitores que as denúncias contra a candidata governista tiveram efeito tímido sobre as pesquisas, ao menos até agora: no último Datafolha, divulgado na quarta-feira 22, a petista oscilou 2 pontos para baixo, José Serra, cresceu 1 ponto, e Marina Silva, 2. A diferença entre a líder e os demais caiu de 12 para 7 pontos, segundo o instituto, mas, se fosse hoje, a disputa acabaria no primeiro turno. No dia seguinte, o Vox Populi soltou nova enquete: a petista tinha 51%, contra 24% do tucano e 10% da verde.

Excessos (previsíveis) da imprensa à parte foram deslizes do governo os responsáveis por fornecer munição ao bombardeio. Lula reconheceu as impropriedades, para dizer o mínimo, cometidas por Erenice Guerra, a substituta de Dilma na Casa Civil e alvo principal das denúncias. “Erenice jogou fora uma chance extraordinária de ser uma grande funcionária pública” admitiu o presidente aos jornalistas do portal Terra.

O caso do vazamento do sigilo de tucanos na Receita Federal parece não ter tido nenhum efeito sobre os eleitores, mas a “parentada” de Erenice Guerra com empregos no setor público pode ser um assunto mais próximo. A ministra caiu após denúncias a envolver o filho, Israel, com a prática de lobby.

Foi revelado ainda que Israel e o irmão de Erenice, José Euricélio, tinham cargos no governo do Distrito Federal. Ambos foram demitidos, mas vieram à tona outros casos: Euricélio teve ainda um cargo no Ministério das Cidades, Antonio Eudacy, outro irmão da ex-ministra, trabalhou na Controladoria-Geral da União (CGU) e na Infraero, e a irmã Maria Euriza atuou no Ministério do Planejamento e como consultora jurídica da Empresa de Pesquisa Energética, ligada ao Ministério de Minas e Energia. Todos haviam deixado os cargos em 2007.

As denúncias contra Israel Guerra tiveram efeito dominó em outra área do governo, os Correios. Lula está convencido de que a briga de poder na ECT é o pano de fundo das acusações. Na esteira das denúncias, foi demitido o diretor de operações, Eduardo Artur Rodrigues Silva, conhecido como “coronel Quaquá”. Silva seria testa de ferro da MTA, empresa para a qual o filho da ex-ministra teria feito lobby. Também caiu Marco Antonio de Oliveira, tio de Vinicius de Oliveira Castro, assessor da Casa Civil e suposto parceiro de Israel, demitido no princípio da crise.

Com Erenice Guerra fora do governo, o alvo passou a ser a Secretaria de Comunicação, especialmente o ministro Franklin Martins, atingido por denúncia de favorecimento do filho, Cláudio, em negócio firmado entre a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) e a Tecnet, de propriedade dos donos da RedeTV!. Martins negou irregularidades no contrato e atribuiu a denúncia a um perdedor da licitação que passara a chantagear funcionários e era alvo de processo judicial pela Advocacia-Geral da União. Outra fonte da imprensa, aliás, no caso de Israel Guerra, também admitiu ter enviado e-mails ao governo com ameaças de retaliação.

Enquanto integrantes do governo se veem no centro de denúncias, o candidato do PSDB, José Serra, segue livre para apimentar suas promessas de campanha. Na boca de outros, as ideias seriam chamadas de “populistas” e “eleitoreiras”, mas Serra conta com o crédito dos analistas econômicos. Em menos de duas semanas, o tucano prometeu elevar no ano que vem o salário mínimo a 600 reais e dar um reajuste de 10% aos aposentados e pensionistas. Por fim, prometeu pagar 13º salário aos beneficiários do Bolsa Família (justamente o programa social que o eleitor médio do PSDB considera uma “fábrica de vagabundos”). O tucano também tem liberdade para insinuar que a pane no Metrô de São Paulo teria sido uma sabotagem (adivinha de quem?). Ninguém lhe cobra coerência.

Mesmo assim, Serra não se beneficiou diretamente, até agora, do cenário. Quem tem crescido nas pesquisas é Marina Silva. Os trackings, medições diárias de todos os partidos, apontam que a verde teria alcançado perto de 15% das intenções de voto. Resta saber se os dados vão se confirmar nas próximas pesquisas e, principalmente, de onde provém esse eleitorado. Daqui até 3 de outubro, a oposição precisa tirar cerca de 1 milhão de votos por dia de Dilma Rousseff. É difícil, mas os saudosos da Marcha pela Família e a Liberdade prometem não desistir.

registrado em: