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Rio Grande do Sul

Arapongagem no Piratini

por Lucas Azevedo — publicado 06/09/2010 18h19, última modificação 14/09/2010 17h32
Sargento da inteligência do governo gaúcho devassa vida de políticos, militares e jornalistas. Envolvimento de superiores não é descartado pelo Ministério Público
Arapongagem no Piratini

Sargento da inteligência do governo gaúcho devassa vida de políticos, militares e jornalistas, inclusive filha de 8 anos de deputa petista. Envolvimento de superiores não é descartado pelo Ministério Público. Foto: Flickr de Yeda Crusis

(atualizado as 20:05)

O sargento da Brigada Militar responsável pela segurança da governadora gaúcha Yeda Crusius (PSDB) e acusado de acessar irregularmente o Sistema de Consultas Integradas do Estado (cadastro geral de identificação de pessoas físicas), fez uma verdadeira devassa na vida de autoridades, políticos e até jornalistas. Foram 10 mil consultas; 1,2 mil em uma semana. Entre os bisbilhotados, está o filho de 8 anos de uma deputada petista.

Preso desde a última sexta-feira, Cesar Rodrigues de Carvalho é acusado de utilizar o banco de dados para levantar dados de investigações policiais, partidos políticos, candidatos a cargos públicos, entre eles o ex-ministro da Justiça Tarso Genro. O Ministério Público Estadual encontrou indícios de que oficiais de dentro da Casa Militar estariam envolvidos no esquema.

Nesta segunda-feira, foi divulgada uma listagem de algumas pessoas que tiveram informações acessadas. São advogados, delegados, líderes partidários e profissionais de comunicação de quem o sargento visualizou dados do registro estadual, como endereço, ocorrências relacionadas e até possíveis investigações em andamento.

Mas o que mais chama a atenção é a bisbilhotagem a filhos de políticos. Crianças com 8 anos de idade tiveram seus registros vasculhados e fotos visualizadas. Além disso, o endereço dos pais de um chefe da Inteligência da Brigada Militar foi verificado.

“Que tipo de perigo à segurança da senhora governadora e a de seus familiares esses dados podiam auxiliar”, questionou o promotor Amilcar Macedo, que vem comandando as investigações.

Carvalho investigou a vida dos filhos da deputada estadual Stela Farias (PT-RS), inclusive o caçula, um menino de 8 anos de idade. A informação foi repassada à parlamentar pelo próprio promotor que investiga o caso, Amilcar Macedo.

Por sua ampla circulação no meio criminoso, o sargento poderia utilizar essas informações para qualquer fim. No entanto, qualquer conclusão deve ser tomada somente após o exame dos dois computadores apreendidos na casa do sargento, que irão para a perícia nesta quarta-feira.

O Consultas Integradas funciona por meio de senhas para diversos níveis de acessos a informações. Carvalho utilizou uma senha simples para consultar os filhos da deputada Stela, o que deu acesso para dados pessoais, endereço e fotografias, por exemplo.

Já em outros casos, o sargento utilizou a chamada senha master, ou de “auditoria”, que permite outro tipo de acesso, revelando, além de dados gerais, se a pessoa está sendo alvo de alguma investigação. Essa foi a senha utilizada, por exemplo, para vasculhar o registro da governadora Yeda Crusius (PSDB) e do ex-ministro Tarso Genro (PT).

Stela foi presidente da CPI da Corrupção no parlamento gaúcho, que, no ano passado, investigou denúncias de corrupção no governo de Yeda.

Lotado até o final de agosto na Casa Militar, o sargento era responsável pela segurança dos mandatários do Poder Executivo. Cabia a ele fazer a inteligência de eventuais riscos de segurança à Yeda, sua família e ao pessoal da cúpula do Piratini.

O que ainda está sem resposta é que tipo de informação o araponga buscava em suas consultas. Ao verificar o cadastro de apenados e fugitivos da Justiça, o sargento tentava encontrar possíveis investigações que estivessem sendo feitas contra essas pessoas. O MP apurou que, com base nesses dados, o policial militar alertava os investigados sobre as operações.

Levando-se em conta essa sistemática, ao menos uma parte da lista dos bisbilhotados foi vasculhada para esse fim. Outro propósito da irregularidade é, possivelmente, utilizar informações confidenciais para chantagem, tanto em terreno político, quanto policial.

Juntando essas peças, a investigação chegará ao que o promotor Macedo chama de “cadeia de comando”, que estaria por trás das práticas do sargento, que atuava muito bem amparado.

Segundo um oficial da Casa Militar do RS ouvido pelo MP, depois de integrado ao gabinete da governadora, a ligação do sargento com contraventores foi denunciada duas vezes pelo disque-denúncia. Informalmente, revelou o oficial, essa informação foi repassada ao comando da BM.

O MP chegou até ele ao apurar uma denúncia de que empresários da Região Metropolitana de Porto Alegre, envolvidos com caça-níqueis e bingos, estariam pagando propina a Carvalho.

Corregedor Geral da Brigada Militar, o coronel Manoel Vicente Ilha Bragança assistia à coletiva de imprensa solicitada pelo MP na tarde de hoje. Abordado por jornalistas, ele respondeu que as informações serão investigadas e disse que a Corregedoria não tomou conhecimento de denúncias contra o sargento.

O Sistema de Consultas integradas está sob administração da Secretaria de Segurança Pública do RS e possui 49 entidades cadastradas para o seu uso. Não há dados disponíveis do número de pessoas que são aptas a utilizar o sistema, que funciona por meio de senhas para diversos níveis de acessos a informações.

Algumas pessoas que tiveram dados acessados pelo sargento da Brigada Militar Cesar Rodrigues de Carvalho:

- Adão Paiani - Ex-ouvidor da Secretaria da Segurança do RS

- Ana Claudia Mazzali - capitã da Brigada Militar

- Coronel Bondan - Brigada Militar

- Coronel Quevedo - Brigada Militar

- Chefes do Serviço de Inteligência do Comando de Policiamento Metropolitano e do V COMAR (Quinto Comando Aéreo Regional)

- Claudio Manfroi - ex-presidente do PTB-RS

- Edilson Paim - delegado de polícia

- Eliseu Santos - ex-secretário da Saúde de Porto Alegre, assassinado no início do ano

- Flávio Conrado - delegado de polícia

- Flavio Koutzii - ex-deputado estadual do PT-RS

- Heliomar Franco - delegado de polícia

- Jefferson de Barros Jacques - major da Brigada Militar

- Lair Ferst – empresário, uma das principais figuras do escândalo do Detran-RS, que deu origem à Operação Rodin

- Luis Augusto Lara - deputado estadual do PTB-RS

- Luis Carlos Busato - deputado federal do PTB-RS

- Marco Aurélio Weisshmeimer - jornalista

- Maria Lúcia Streck - jornalista

- Nereu Lima - advogado

- Roberto Sirotsky Gershenson

- Políbio Braga - jornalista

- Rafael Colling - jornalista

- Ranolfo Vieira Jr. - delegado de polícia

- Ricardo Lied - ex-chefe de gabinete da governadora Yeda Crusius

- Sandra Terra - assessora da governadora Yeda Crusius

- Sérgio Zambiasi - senador do PTB-RS

- Stela Farias - deputada estadual do PT-RS

- Tania Regina Silva Reckziegel - presidente do PTB Mulher (RS)

- Tarso Genro - ex-ministro e candidato do PT ao governo do RS

- Telma Cecília Torran

- Vanessa Guazzelli Braga

- Walna Vilarin Menezes - assessora da governadora Yeda Crusius

- Yeda Rorato Crusius – governadora do RS

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