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Após ser condenado, Valério tentou envolver Lula no "mensalão"

por Redação Carta Capital — publicado 11/12/2012 09h57, última modificação 11/12/2012 20h57
Reportagem mostra que, em depoimento à Procuradoria, o publicitário apontou, sem detalhes, repasses feitos em 2003 para pagar contas pessoais do ex-presidente
Marcos Valério

O empresário Marcos Valério. Foto: Marcelo Prates/Hoje em Dia/AE

*Matéria atualizada às 12h35

 

Condenado a mais de 40 anos pelo Supremo Tribunal Federal pelos crimes de corrupção ativa, peculato, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e evasão de divisas, o empresário Marcos Valério esperou sete anos para jogar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no centro do escândalo do qual é apontado como “operador”.

Em depoimento prestado em setembro à Procuradoria Geral da República, Valério disse ter repassado recursos para a conta da empresa de um ex-assessor do ex-presidente. O dinheiro, afirmou, seria usado para pagar contas pessoas. A informação foi publicada da edição de hoje do jornal O Estado de S.Paulo.

O publicitário, no entanto, não deu detalhes sobre quais seriam as “despesas pessoais” que ajudou a pagar. Contou apenas que o dinheiro foi repassado em dois depósitos (um deles, de cerca de 100 mil reais) para a conta da empresa Caso Sistemas de Segurança, do ex-assessor da Presidência Freud Godoy. Godoy, apontado na reportagem como “faz-tudo” de Lula, foi chefe da segurança das campanhas políticas do ex-presidente. Em 2006, ele teve o nome envolvido no chamado “escândalo dos aloprados”, quando foi acusado de negociar a compra de um dossiê sobre o então candidato tucano ao governo de São Paulo, José Serra. O episódio derrubou Godoy, que foi apontado como o mandante da compra. Ele foi inocentado pela CPI dos Sanguessugas e nem sequer foi indiciado pela Polícia Federal na ocasião.

Ainda de acordo com o depoimento, o publicitário se reuniu no Palácio do Planalto em 2003 com o então ministro José Dirceu (Casa Civil) e o ex-tesoureiro petista Delúbio Soares, ambos condenados pelo “mensalão”, para acertar detalhes dos empréstimos considerados fraudulentos para o esquema. Após o encontro, Valério disse ter ouvido um “ok” do ex-presidente sobre a negociação.

Valério apontou as digitais do ex-presidente também na viagem que realizou em 2005 para Portugal junto com seu ex-advogado, Rogério Tolentino, e um emissário do PTB, Emerson Palmieri, outros dois réus do “mensalão”. A versão oficial é que, nesta viagem, eles se encontrariam com o ex-presidente da Portugal Telecom, Miguel Horta, para pedir empréstimos para o PT e o PTB. Na nova versão de Valério, foi Lula e o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci quem articularam o encontro e os detalhes do empréstimo.

Valério disse também que Paulo Okamotto, amigo do ex-presidente e hoje diretor do Instituto Lula, chegou a fazer ameaças a ele quando o escândalo eclodiu, em 2005. “Ou você se comporta ou morre”, teria dito Okamotto, que não comentou as declarações do publicitário.

O depoimento foi dado em 24 de setembro e rendeu 13 páginas, segundo o Estado de S.Paulo, que teve acesso à íntegra do documento. Assinam os depoimentos o advogado de Valério, Marcelo Leonardo, a subprocuradora da República Cláudia Sampaio (mulher do procurador-geral, Roberto Gurgel) e a procuradora da República Raquel Branquinho.

Apesar dos relatos, Valério não apresentou provas da versão apresentada após sete anos. Bem diferente, por exemplo, do que aconteceu com Fernando Collor de Mello, cujas suspeitas de envolvimento com Paulo César Farias eram levantadas conforme eram apresentadas provas, como cheques, de seu envolvimento no esquema.

O depoimento deve mobilizar a oposição, mas o impacto das declarações ainda é incerto. Lula, poupado por testemunhas do "mensalão" durante a CPI dos Correios e os depoimentos à Justiça, deixou de ser presidente há dois anos. Valério terá como provar o que diz? E o que a Procuradoria pretende fazer com o depoimento? Gurgel já avisou que só vai se pronunciar sobre o assunto ao fim do julgamento.

Em entrevista ao site Terra Magazine, o presidente do PT, Rui Falcão, rebateu as declarações de Valério. Ele negou que o partido pague honorários aos advogados de Valério, como afirmou o publicitário, e disse que o empresário está “tentando incriminar o presidente Lula e o PT”. “Trata-se de uma sucessão de mentiras que já foram desmentidas anteriormente e, agora, novamente e veementemente são repelidas pelo PT", disse Falcão.

"Desconhecemos o conjunto de declarações do Marcos Valério e estamos supondo que elas foram feitas. A mídia e o Ministério Público não deveriam dar créditos a alguém que, condenado, tenta reduzir suas penas caluniando o PT", afirmou Falcão.

Mais tarde, Falcão divulgou uma nota em nome da Direção Nacional do PT lamentando que as declarações não tenham sito tratadas com a "devida cautela". "As supostas afirmações desse senhor ao Ministério Público Federal, vazadas de modo inexplicável por quem teria a responsabilidade legal de resguardá-las, refletem apenas uma tentativa desesperada de tentar diminuir a pena de prisão que Valério recebeu do STF", escreveu.

Confirma a íntegra da nota:

A Direção Nacional do PT lamenta o espaço dado pela imprensa para as supostas denúncias assacadas pelo empresário Marcos Valério contra o partido e contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Caso essas declarações efetivamente tenham sito feitas em uma tentativa de “delação premiada”, deveriam ser tratadas com a cautela que se exige nesse tipo de caso. Infelizmente, isso não aconteceu.

As supostas afirmações desse senhor ao Ministério Público Federal, vazadas de modo inexplicável por quem teria a responsabilidade legal de resguardá-las, refletem apenas uma tentativa desesperada de tentar diminuir a pena de prisão que Valério recebeu do STF.

Trata-se de uma sucessão de mentiras envelhecidas, todas elas já claramente desmentidas. É lamentável que denúncias sem nenhuma base na realidade sejam tratadas com seriedade. Valério ataca pessoas honradas e cria situações que nunca existiram, pondo-se a serviço do processo de criminalização movido por setores da mídia e do Ministério Público contra o PT e seus dirigentes.

Prestes a completar 10 anos à frente do Governo Federal, período em que o Brasil viveu um processo de desenvolvimento histórico e em que as classes populares passaram pela primeira vez a ter protagonismo no nosso país,  o PT é alvo constante de setores da sociedade que perderam privilégios.

A campanha difamatória que estamos sofrendo nos últimos meses não impediu nossa vitória nas eleições de outubro e nem conseguirá manchar o trabalho que nosso partido tem realizado em defesa do país, da democracia e, principalmente, da população mais pobre.

Rui Falcão
Presidente Nacional do Partido dos Trabalhadores