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Política

Olho nas urnas

Alemanha: política influenciou decisão de usinas nucleares

por Gabriel Bonis publicado 04/06/2011 09h12, última modificação 06/06/2011 11h43
Para especialista brasileiro, o fechamento de 17 usinas nucleares anunciado por Ângela Merkel tem como pano de fundo a aliança com o Partido Verde alemão.
De olho nas urnas

Para o presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear, Edson Kuramoto, o fechamento das usinas na Alemanha, após acidentes em Fukushima, é decisão meramente política. Foto: Issei Kato/Reuters

A decisão da Alemanha em desativar suas 17 usinas nucleares até 2022 ganhou destaque na mídia internacional, apesar de já estar definida há 11 anos. A desistência da prorrogação do prazo para 2035, aprovada em 2010, pela atual chefe de Estado, Ângela Merkel, foi oficialmente influenciada por Fukushima. Mas, para o presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben), Edson Kuramoto, a medida teve cunho meramente político e não técnico.

"As usinas alemãs são as mais eficientes, seguras e produtivas do mundo. Portanto, não foi uma decisão técnica. Merkel precisa do apoio do Partido Verde para se reeleger e eles têm grande influência no país”, diz.

O especialista ainda discorda que o exemplo da maior potência européia indique um abandono generalizado da energia nuclear no mundo. Ele avalia, porém, que a medida pode ter impacto nos planos brasileiros para Angra 3. Segundo apuração da CartaCapital, a Comissão de Meio Ambiente da Câmara – que defende a extinção dessa matriz energética no Brasil - acredita  ser grande a possibilidade de que, a partir de agora, a estatal alemã Hermes não garanta o crédito de exportação de tecnologia e de equipamento nuclear de 1,4 bilhão de euros para a usina, que será construída pela empresa francesa Areva-Siemens.

Posição também defendida pela deputada do Partido Verde alemão Sylvia Kotting-Uhl, em entrevista ao jornal O Globo. A parlamentar teve sua moção pedindo que o governo cancelasse a garantia do empréstimo, antes dos acontecimentos no Japão. Agora, ela acredita que o país “não vai ter meios de manter a sua credibilidade fomentando uma tecnologia de alto risco”. “Se a empresa vai continuar ou não com o projeto vai depender dos seus interesses econômicos, mas suspensão do seguro vai com certeza dificultar o negócio”, dispara.

No entanto, Kuramoto defende o contrário. “Essa decisão da Alemanha não impacta no Brasil. O financiamento virá provavelmente de bancos franceses e o seguro não é o empréstimo”.

Opções renováveis

Atualmente, a Alemanha retira cerca de 25% de sua energia de usinas nucleares. A decisão do país em abandonar a matriz ocorreu após um relatório para estudar opções alternativas garantir que o país não deve enfrentar grandes problemas. Porém, autoridades européias, como o ministro do Meio Ambiente da Suécia, Andreas Carlgren, acreditam que os alemães vão passar apenas a importar energia da França. “As únicas opções que a Alemanha possui hoje para contornar a demanda são as térmicas a gás, carvão e óleo. Mas estas fontes poluem demais e comprometem as metas de redução de emissão de gazes de efeito estufa”, explica o presidente da Aben.

O acordo de desativação propõe o aumento do uso de energias renováveis para ao menos 40%, até 2020. Contudo, matrizes de energia como a eólica e solar dependem de fatores incontroláveis para serem produtivas. “Essas tecnologias devem ser utilizadas, mas precisam de uma complementação que gere energia constantemente”, completa Kuramoto.

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