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Política

Thomaz Wood Jr.

Gestão

18.08.2011 11:00

Afogamento em números

Em um mês, dois casos significativos: um na Indonésia, outro nos Estados Unidos. Em Java, a mãe de um adolescente revelou à mídia local que seu filho, durante um exame nacional, fora forçado por seus próprios professores a passar suas respostas para colegas menos capazes. A atitude da mãe foi motivada pela recusa da escola em aceitar sua denúncia. Como se não bastasse o constrangimento, a honrada genitora teve de enfrentar a ira dos pais dos colegas de seu filho, horrorizados com seu “egoísmo”. A divulgação do caso abriu caminho para denúncias de histórias similares. Os professores, acossados, passaram a culpar a pressão que suas escolas sofrem para conseguir bons resultados nos exames nacionais, os quais condicionam a obtenção de recursos do governo.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, em Atlanta, drama parecido se desenrolava. Uma comissão indicou irregularidades em larga escala no sistema escolar da cidade. Durante a realização de exames, professores forneciam as respostas aos estudantes, permitiam que alunos com baixo desempenho escolar copiassem dos colegas mais capazes e até preenchiam eles mesmos as folhas de respostas. A investigação apontou que as irregularidades ocorriam desde 2001. Para espanto dos cidadãos, durante o período das falcatruas a superintendente das escolas de Atlanta fora premiada pelos resultados excepcionais alcançados pelos estudantes locais. Na raiz do problema, a mesma causa do drama indonésio: a pressão por bons resultados nos exames, que determinam o recebimento de recursos do governo.

Há vários pontos comuns entre os dois casos: primeiro, o uso de sistemas unificados de avaliação escolar; segundo, a utilização de indicadores de desempenhos para medir e comparar resultados; e terceiro, a pressão pela melhora dos resultados, que podem condicionar os recursos alocados para as escolas. Até aí, nada de errado: tudo soa racional e razoável. De fato, decidir de forma transparente, com base em fatos e números, é premissa para realizar uma boa gestão, alocando recursos da melhor maneira possível.

Os modernos sistemas de gerenciamento de desempenho popularizaram-se a partir dos anos 1990. Pressionadas pela abertura de mercado e pela desregulamentação econômica, as empresas privadas investiram na modernização de suas práticas. O voo nos céus turbulentos do novo ambiente empresarial exigia painéis mais completos e sofisticados, com indicadores que registrassem o desempenho de toda a organização.

Com o passar do tempo, pelas mãos de consultores e gurus, as novas práticas migraram das empresas privadas para as empresas públicas e para os órgãos de governo. Afinal, quem poderia discordar da racionalidade das decisões baseadas em fatos e números? Infelizmente, a vida real nem sempre se ajusta aos idílicos manuais de administração. Os manuais vêm cheios de fórmulas e receitas, transbordam razão e lógica. Já a vida real é povoada de imperfeições, interesses ocultos e manobras escusas; limita a razão e, frequentemente, atenta contra o bom senso.

O observador acidental que deitar sua vista sobre uma moderna corporação privada, nela observará números em harmonia, cientificamente desdobrados e controlados, cada profissional ciente de suas metas e responsabilidades. No entanto, uma visita mais atenta possivelmente lhe revelará uma realidade desconcertante, povoada por executivos que manipulam resultados financeiros para engordar seus bônus, gerentes que escolhem deliberadamente indicadores que lhes favorecem a avaliação de desempenho, e profissionais que distorcem metas e escondem números conforme sua conveniência. Maior a pressão por resultados, maior a tendência para maquiá-los.

Curiosamente, gestores públicos vez por outra se fascinam com práticas de empresas privadas, adotando-as sem pudor ou crítica. Deslumbram-se com a fachada e ignoram as entranhas. Tais adoções eventualmente produzem benefícios, mas também podem gerar efeitos colaterais. Não é fácil discordar de princípios tais como transparência na gestão, decisões baseadas em fatos e números e promoção da meritocracia. No entanto, esperar que a aplicação de certos modelos de gestão a sistemas corrompidos por décadas de turbidez, patrimonialismo e personalismo gere bons resultados, sem considerar o contexto humano e cultural destes sistemas, é ingênuo e irresponsável.

Mudanças tecnocráticas, que celebram soluções técnicas, em detrimento dos aspectos sociais e culturais, são capazes de provocar manchetes laudatórias nas revistas de negócios e de promover seus arautos, mas podem também gerar comportamentos de faz de conta e efeitos colaterais ruinosos; que o digam os pais de alunos indonésios e norte-americanos.

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Sua opinião

  1. hélio porto disse:
    Muito bom artigo!
  2. Jose Carlos disse:
    A única ressalva que faço é quanto ao título. Palageando a Era do Gelo I, II e III, o título poderia ser A ERA DOS ÍNDICES.
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