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Política

Eleições 2016

'Carlismo paz e amor' ganha força com reeleição de ACM Neto em Salvador

por Nivaldo Souza — publicado 02/10/2016 19h04
Prefeito renova força dos Magalhães sem recorrer ao estilo do avô, mas precisará ‘dobrar’ Geddel para disputar governo em 2018
ACM Neto

ACM Neto em evento de campanha: reeleição em 1º turno era esperada (Divulgação)

“Quem decide meu destino é a Bahia". Foi com está frase, em 30 de maio de 2001, que o senador Antônio Carlos Magalhães renunciou. Então com 22 anos, Antônio Carlos Peixoto de Magalhães Neto, o ACM Neto (DEM), observou à distância a queda do avô após quatro décadas como cacique político de envergadura nacional. Ele acabara de estrear na política como assessor na secretaria estadual de Educação.

Em 2012, exatos 11 anos após a renúncia de ACM, que voltou ao Senado em 2004, Neto foi eleito prefeito de Salvador. Naquele ano completavam-se 45 anos da chegada do avô dele à prefeitura soteropolitana pelas mãos da ditadura civil-militar, em 1967. Diferentemente do avô, contudo, Neto adotou um estilo "paz e amor" de governar. Ele foi reeleito neste domingo 2, com 74% dos votos válidos.

A vitória confirma que o neto de ACM fez ressurgir um ‘carlismo’ renovado: menos truculento e mais negociador. Isso o coloca como virtual candidato ao governo do estado em 2018.

Para isso, Neto deixou o acrônimo do avô de lado para reforçar a própria marca e dialogar com o eleitorado jovem. Não à toa, discurso impositivo e truculento de ACM cedeu lugar a um Neto que, na propaganda eleitoral, prometia fortalecer "parcerias" com os soteropolitanos.

O professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Paulo Fábio Dantas Neto, especialista em elites políticas regionais, define uma diferença entre neto e avô: "ACM se apresentava como uma autoridade, uma figura quase paternal, um homem poderoso que podia fazer as coisas que (o povo) precisava. Ele fazia e dava ao povo”, avalia. “Neto age de outro jeito, dizendo que trabalha junto com o povo. Ele está se tornando uma figura capaz de verbalizar uma semântica que tradicionalmente é de centro esquerda, embora Neto seja uma pessoa de direita", avalia.

Político mirim

O perfil de direita disfarçada parece reproduzir o estilo de Neto empresário na juventude: mesmo avesso a noitadas, o prefeito acabou virando empresário da noite na capital baiana. Neto criou uma produtora de bandas aos 18 anos. A empresa revelou grupo como o Babado Novo, que lançou a cantora Claudia Leitte. Ivete Sangalo e Durval Lélis também estiveram no casting da produtora.

A política só entrou no roteiro dele após a morte de Luís Eduardo Magalhães, em 1998. O enfarto fulminante que levou o tio aos 43 anos acelerou a entrada de Neto na política. O plano do velho ACM era levar Luís ao Palácio do Planalto. Neto procurou o avô para dizer que seria o herdeiro político dos Magalhães.

A imposição das vontades é um dos traços do prefeito. O estilo já lhe rendeu, aos 9 anos, a primeira vitória: síndico mirim do prédio em que morava com a mãe e o pai, ACM Júnior, administrador do império construído pelo avô e composto por emissoras de rádio e televisão, jornal e construtora.

A primeira eleição real de Neto foi entre os dez os 11 anos, como cabo eleitoral na vitória avô ao governo estadual em 1990. Em 2008, ele foi cabo eleitoral de si próprio. Ficou em terceiro lugar na disputa pelo Palácio Tomé de Sousa, sede da prefeitura soteropolitana. A experiência ajudou a evitar percalços na corrida eleitoral seguinte.

Onda anti-PT

O estilo negociador é outra diferença entre os ACMs. O avô retirou o controle da Bahia da mão dos coronéis do interior ao se alinhar com a ditadura, mas conduzindo alianças com a elite empresarial para ganhar sustentabilidade. Ele também adotou uma linha transversal de política ao se aproximar e dar sustentação a lideranças nacionais progressistas como Tancredo Neves e Fernando Henrique Cardoso na saída da ditadura.

Neto, por enquanto, recuperou o DEM em aliança com o PSDB. Fez isso atraindo o PMDB do ministro Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo), com quem deve travar agora uma disputa para construir uma candidatura forte contra o PT na eleição estadual daqui dois anos.

Neto amarrou o PMDB a si ao colocar seu amigo e ex-assessor, Bruno Reis, no partido de Geddel. Depois, alçou Reis a vice na sua chapa de reeleição. Ele deve usar a prefeitura como moeda de troca para forçar Geddel a um acordo em 2018.

O ministro construiu carreira de olho no poder estadual e precisou abrir mão de uma disputa mais aguerrida contra o ex-governador Jaques Wagner (PT). A Bahia era estratégica para Michel Temer para se colocar como vice-presidente de Dilma Rousseff.

A derrubada de Dilma por Temer e o ambiente anti-PT devem acirrar o ânimo de Geddel para enfrentar o governador petista Rui Costa. Em meio à crise de seu partido, o governador não conseguiu viabilizar uma candidatura forte na capital. O PT se aliou com o PCdoB para lançar Alice Portal, que terminou num distante segundo lugar na eleição de hoje.

Dantas, contudo, lança dúvidas sobre a capacidade do ministro em reunir o eleitorado anti-PT em torno de sua candidatura. Segundo ele, o prefeito de Salvador já trabalha nessa perspectiva. "O perfil que ele (Neto) está construindo é do voto de convergência do antipetismo na Bahia", observa o professor da UFBA.

Surra no presidente

O perfil 'paz e amor' de Neto à frente da prefeitura contrasta com um dos momentos mais espetaculosos de sua biografia, quando o palavreado calmo de moço rico e bem educado o aproximou do coronelato dos tempos biônicos de ACM, o avô.

Em 2005, quando ocupava a sub-relatoria da CPI dos Correios, embrião do que mais tarde seria conhecido como "mensalão", o deputado de primeira viagem prometeu dar “um surra” no ex-presidente Lula por, supostamente, ter pedido à Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para monitorá-lo.

"O presidente da República, ou qualquer um dos seus que tiver coragem de se meter na minha frente tomará uma surra. Não me intimido. Tenho coragem e vou até o fim. Não mexam com os meus nem comigo, porque estou pronto para me defender", disse na tribuna da Câmara.

O episódio pouco republicano veio à tona nas eleições de 2012, trazido pelo petista Nelson Pelegrino e acabou levando a disputa pela prefeitura da capital baiana para o segundo turno. Neto precisou gravar um vídeo de campanha se dizendo arrependido da prometida surra, reconhecendo que reagiu “realmente de uma forma indevida”, creditando a surra prometida a pouca experiência dos seus então 26 anos.

A lição foi assimilada. O prefeito de Salvador voltou à discrição. Na eleição deste ano, ele evitou se expor. Isso incluiu não comparecer a nenhum dos debates realizados pelas emissoras de televisão Aratu/SBT e Itapoan/Record. Ele só compareceu no debate realizado na última quinta-feira (29) pela Rede Bahia, filiada da Rede Globo – uma das empresas da família Magalhães. A figura de ACM, o avô, não surgiu no debate. Isso foi favorável a seu neto.

O cientista político Jorge Almeida, da UFBA, avalia que aos poucos o carlismo estilizado sob a marca Neto se consolida. "Ele (Neto) usa pontual e simbolicamente a reverência ao avô, geralmente quando provocado. Mas isso está longe de ser o centro da sua movimentação política”, diz.

Ele afirma, contudo, que o espólio do carlismo também beneficia o PT. “O carlismo na verdade nunca morreu. O carlismo sobreviveu por um lado pela recuperação feita pelo ACM Neto e pelo DEM. Por outro, sobreviveu nos métodos de administração e cooptação politica dentro do próprio governo estadual do PT, que se alinhou com elementos do carlismo”, afirma Almeida.