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A voz dos pastores e a consciência do rebanho: a quem devo escutar?

por Coluna do Leitor — publicado 18/10/2010 09h29, última modificação 18/10/2010 09h29
Não é prudente que para salvar uma doutrina particular sejam usados argumentos que ferem princípios invioláveis, afirma o Pe. Paulo Cezar Nunes de Oliveira

Por Pe. Paulo Cezar Nunes de Oliveira*

É da Bíblia, da tradição de Israel, que conhecemos a relação pastor-rebanho. O pastor guia e protege, as ovelhas seguem o pastor. Israel conheceu muitos pastores: David, Moisés, Isaac, Jacó, os profetas, Jesus. Pastores verdadeiros e pastores falsos. O tempo passou, a tradição permaneceu. Hoje, no mundo do século 21, políticos e religiosos, sacerdotes e bispos de várias igrejas, presbíteros e diáconos, evangelistas e "pastores" de tantas denominações, erguem seus cajados "de microfones" e se auto-intitulam salvadores do rebanho, portadores da verdade, senhores da consciência. Do alto dos seus púlpitos eletrônicos, soando a trombeta via satélite, conclamam o povo a escolher um candidato. Lançam as mais sórdidas acusações contra seus adversários, revestindo-os de lobo mau, que come criancinhas, de besta do apocalipse, de dragão devorador de virgens.

São muitos os fatos relevantes. Mas não posso falar de todos, pois minha lente é católica. Gadamer me ensinou que ninguém é desprovido de preconceitos. Tudo o que podemos fazer é tomar consciência deles para melhor formular nossa análise. É isso que tentarei fazer.

Tenho recebido uma enxurrada de e-mails com denúncias contra alguns candidatos e partidos. A princípio, não reagi, até que um ex-aluno me questionou: "professor, o que a teologia moral tem a dizer sobre essas graves acusações?"

Parto do princípio de que não tenho o direito de falar em nome dos outros. Não posso falar em nome da teologia moral. Sou teólogo moral, mas não sou dono da verdade moral. Mas daí nasce a pergunta: não existe nenhuma orientação objetiva? É claro que existe. Para nós, cristãos católicos, a primeira referencia é Bíblia lida a partir do Novo Testamento e do olhar de Jesus. Temos também o Magistério da Igreja, os Concílios, particularmente o Vaticano II, o Catecismo e o Código de Direito Canônico. Todos esses documentos devem ser lidos e meditados à luz da fé, da esperança e da consciência pessoal. A consciência, aliás, tem papel decisivo.

O que mais me assusta nessa chamada "corrente de e-mails" é que a maioria dos que se dizem católicos e os repassam em defesa da fé não percebem que podem estar cometendo um pecado contra o oitavo mandamento, "falso testemunho", do qual fala o Decálogo. Recebem e repassam, sem questionar se o que receberam é verdade ou uma calúnia. Trata-se de uma atitude muito longe daquela defendida por Jesus: "Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra"(Jo. 8,7)

A postura de algumas lideranças religiosas assumindo publicamente posição contrária ou a favor de algum candidato é bastante complexa do ponto de vista da avaliação moral. Seria esse o papel de padres e bispos? Temos o direito de dizer em qual candidato o católico deve e não dever votar? É certo que os argumentos se embasam na busca pela verdade e na defesa da "sã doutrina". Mas o fato é extremamente delicado. Os verdadeiros pastores propõem e não impõem. Ajudam o povo a formar sua consciência, não ditam verdades. Não respeitar a dignidade da liberdade humana é contrário às orientações da Igreja. O Vaticano II deixa claro que o homem, para agir dignamente, deve seguir com sua consciência: "Exige, portanto, a dignidade do homem que ele proceda segundo a própria consciência e por livre adesão, ou seja movido e induzido pessoalmente desde dentro e não levado por cegos impulsos interiores ou por mera coação externa" (Gaudium et Spes 17). O Catecismo também não deixa dúvida: "A consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual ele se encontra a sós com Deus, cuja voz ressoa na intimidade do seu ser" (CIC 1795). As orientações desses documentos valem para todas as dimensões do agir humano, seja religioso ou político.

Bispos, padres, religiosos, se querem ser fiéis à Igreja, podem e devem discutir com o povo, ajudar a formar a consciência, procurar caminhos, se abrir ao diálogo, ouvir o coração do outro, convencer pelo testemunho e pela ternura. Mas não podem, em nenhuma hipótese, tolher a liberdade das pessoas, dizer o que elas devem ou não devem fazer: "...todos os homens devem estar livres de coação, quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos sociais ou qualquer autoridade humana; e de tal modo que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência", diz o documento Dignitates Humanae do Vaticano II. Existe um consenso entre os teólogos da moral que "quem age contra a liberdade, comete pecado grave". Exigir que outro aja contra a sua liberdade, comete pecado ainda maior. Não é prudente que para salvar uma doutrina particular sejam usados argumentos que ferem princípios invioláveis. Talvez nem todos conheçam bem os documentos da Igreja, mas é possível que haja distorções e ideologias nas leituras. Em caso de dúvida, o católico deve aplicar a regra de ouro da moral, como sugere o Catecismo da Igreja nº 1789, citando a Palavra de Deus: “tudo quanto quiserdes que os homens vos façam, fazei-lho, de igual modo, vós também” (Mt 7, 12).

Por fim, deixo uma palavra aos cristãos católicos. Não é preciso medo, não somos obrigados a agir contra nossa consciência. Todas as pessoas têm o direito sagrado de votar com liberdade. Diante de Deus cada pessoa prestará conta da sua vida. E nós, "pastores", também seremos julgados. E quando esse dia chegar, quando estivermos face a face com Deus, não será levando em conta os títulos alcançados, os recursos conseguidos, as igrejas construídas, ou panfletos e jornais publicados, a conta bancária ou saldo da paróquia, mas o bem que com a nossa vida fizemos florescer no mundo (Mt 28).

*Pe. Paulo Cezar Nunes de Oliveira é Redentorista. Graduado em Filosofia e Teologia. Mestre em Ciências da Religião pela PUC-GO. Professor de Teologia Moral no Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás. Mestrando em Teologia Moral pela Università Lateranense - Accademia Alfonsiana - Roma

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