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Política

Brasiliana

A vereadora do povo

por Willian Vieira — publicado 28/09/2011 10h18, última modificação 01/10/2011 18h54
Como uma dançarina de pagode transexual virou diva no mundo político de Salvador. Por Willian Vieira

O sol escalda o calçamento do centro histórico de Salvador no dia 7 de Setembro, enquanto o salto 15 estampado- de flores repica veloz. Leo Kret do Brasil é uma “Gisele Bündchen”, segura do alto- do seu 1,75 metro, que vira 1,90 metro e delineia os 80 quilos bem justos no jeans. Verdade, ela declinou do desfile patriótico, oportunidade única para um beija-mão republicano com óbvios ganhos políticos em tempos de eleição próxima – tudo por ter caído na noite e rebolado até o sol nascer na pagodeira. “Tive um imprevisto.” Mas acordou a tempo de maquiar-se, subir no salto e dar entrevista nas ruas, onde se depara com estudantes com uma faixa anticorrupção a inquirir o que a quarta vereadora mais votada faria por eles. O discurso brota naturalmente. “Movimento social tem muito, mas é preciso ver com transparência o que é bom para o povo.” E os projetos? “Tem que ver com transparência o que o povo quer.”

Na Bahia, tudo parece virar show – diz o ditado jocoso que baiano não nasce, estreia. Mas Leo Kret é um fenômeno à parte. Em 140 metros percorridos em 23 minutos entre a Câmara de Vereadores e a Praça da Sé, a dançarina de pagode e primeira transexual a entrar na política local para 36 vezes e posa para mais de cem fotos. “Leo Kret, minha vereadora”, grita a senhora que se abala do outro lado da rua, celular rosa em riste, para posar para a foto. Click. Logo brotam crianças no colo de Leo, gritando seu nome. “Que Xuxa, que nada. Sou a rainha dos baixinhos.” Na pausa para a maquiagem, um motociclista passa acelerado gritando Leeeeo, enquanto uma baiana larga os acarajés fritando para vir abraçá-la. Ela suspira. Ama a fama.

Leo Kret do Brasil se candidatou aos 24 anos, pelo número 22024. Ganhou. E mostrou que o gabinete 24 não estava para brincadeira. “Com tantos problemas em Salvador, os vereadores só discutiam que banheiro Leo Kret iria usar.” Seu primeiro projeto regulamenta a profissão dos mototáxis. “Eu ia comer acarajé em Cajazeiras e andava na garupa dos meninos, que reclamavam.” Dela são o projeto que cria o Dia da Favela, o que permite nomes transexuais no registro escolar e o que tipifica a homofobia, além do que concede o título de cidadão soteropolitano a Michael Jackson.

Em um país que já elegeu de cantor sertanejo a palhaço cantor, de jogador de futebol a Clodovil, não surpreende que “uma transexual pagodeira da periferia” tenha ofuscado as eleições. Mas Leo Kret vai além. É adorada pelo povo, não apenas como piada, mas como diva. Se o sistema político é representativo, ela cumpre o papel. “E a segurança, Leo?”, interpela a doméstica Olívia Coelho. “Apareça segunda-feira lá na Câmara, que é o dia dos populares. Leo Kret não fala, faz.” Outra grita: “Leo Kret, você não vai mandar consertar o nosso mangue?” A resposta é rápida. “Só depende de vocês. Leo Kret pede, a prefeitura faz e o povo agradece.”

Alessandro Sousa Santos, diz o antigo RG, cresceu na periferia de Salvador. O pai tinha um bar que enchia com 200 pessoas para dançar lambada. E lá ia Leo, aos 12 anos, rebolar como Carla Perez – era do fã-clube. “Meu pai mandava dançar para chamar atenção.” Isso até uns 15 anos, quando percebeu algo estranho e a trancou em casa. Leo pulava a janela. “Quando ele via a gritaria, era o povo me vendo dançar.” Aos 18 deixou o cabelo crescer. Fazia uma franja “pega-rapaz” e ia para a escola. O nome veio daí. “Sabe a brincadeira? Qual o seu nome? Claudete. Sua idade? Dezessete. Do que gosta?” Risos. “Eu juntei meu apelido com Kret, de cretina. Aí já viu.” A família não aquiescia. Tirou-a da escola ainda no ensino médio. Ela mostra a cicatriz. “Meu pai me mordeu na cara quando me viu maquiada.”

Um dia foi a um pagode ver o grupo Saiddy Bamba cantar Bicha. A letra: Bicha,

bicha,/ passe a mão na bicha./ Bicha, bicha, sambe com a bicha./ Bicha, bicha, esse cavalo é égua./ Baixo-astral,/ baixaria. Leo ficou possuída. Foi ao palco. “Olhei para o vocalista, com esse olhar sensual. Aí pronto. Virei a primeira trans do pagode.” Ela não só dançava feito entidade no cio, mas “segurava no texto”, declamando poesias de “baixaria mesmo”, que logo ganharam caráter “cultural”. Uma delas versa sobre pintura. Diz que muitos tentaram retratar sua beleza, mas só quem conseguiu foi Picasso.

Um dia, meu produtor disse: com sua fama, você poderia ser política. Ele tinha um amigo no PR. Aí, pronto.” Mas o partido não é conservador? “É. Mas  o que eles querem é voto e isso eu garanto.” Na campanha, Leo chegou a pesar 50 quilos, de tanto subir ladeira atrás de voto. Até que a equipe de assessores chegou a um impasse. Ela era conhecida pela postura “irreverente”, traduzida por textos ousados e condensada num som: “Aaaaiiii”. Assim terminava o show. “E era assim que o povo me conhecia. Se eu colocasse o gritinho na propaganda, iam dizer que eu levaria baixaria pra Câmara. Se não botasse, que perdi a identidade. Gravamos com e sem. Mas pensamos: a pessoa lavando louça, ao ouvir o gritinho, vai correr para ver Leo Kret.” Bingo! Ela teve 12.861 votos, muitos dos quais migraram para ACM Neto – ela foi seu cabo eleitoral.

Sua campanha focou nos pobres e gays. Mas o Grupo Gay da Bahia não gostou que ela, que rebolava ao som de Bicha, defendesse a bandeira. Quis processá-la. “Deu em nada.” A polêmica é intrínseca a Leo. Ela foi acusada de dizer um palavrão a um seguidor no tweeter e ter postado uma foto com o seio à mostra. Boatos de que perderia o mandato circularam. “Essa gente apagada quer me passar a perna”, ironiza. “Mas o povo está do meu lado.” Após perder a eleição para deputada, Leo vai tentar se reeleger como vereadora. Quer ser prefeita, governadora e, por que não, a primeira presidente trans. “Um dia serei uma Rousseff.” Alguém duvida? 

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