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A verborragia do conservadorismo

por Coluna do Leitor — publicado 27/01/2011 12h16, última modificação 27/01/2011 12h16
Para o leitor Felipe A. Filomeno, quando o ex-presidente celebra a crise no mundo desenvolvido, sabemos que não se trata de deleite com o sofrimento dos trabalhadores europeus e norte-americanos

Em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, de 18 de Janeiro deste ano, José Pastore, professor de relações trabalhistas da Fundação Getulio Vargas, critica o ex-presidente Lula por sua afirmação de que foi “gostoso” terminar seu mandato vendo os Estados Unidos, o Japão e a Europa atravessarem uma crise econômica. Para Pastore, isso demonstraria um desprezo de Lula pelos trabalhadores do mundo desenvolvido, aqueles que mais sofrem com a recessão naqueles países.

De fato, o ex-presidente é notório por articular suas idéias de maneira que para alguns não soa “politicamente correta”. Se acompanhadas de algum erro de Português, pior ainda do ponto de vista da elite brasileira. No entanto, estas críticas à suposta “verborragia” do ex-presidente, mais do que apontar a sua alegada falta de verniz cultural ou sensibilidade diplomática, demonstra a fraqueza de seus críticos. Em primeiro lugar, são críticas não originais, repetidas ano após ano pela grande mídia sempre que alguma “gafe” aparece em algum dos discursos de Lula. Em segundo lugar, são fáceis, pois focam em palavras mais do que em ações do ex-presidente. Finalmente, são ideologicamente viesadas, pois adotam uma interpretação literal dos discursos de Lula, dotada de preconceito linguístico, ao invés de interpretá-los sistemática ou teleologicamente, dentro de seus contextos e considerando suas intenções.

No caso da crítica do Professor Pastore, uma consideração do contexto de redução da desigualdade, aumento da formalização e da quantidade do emprego e de crescimento salarial observado durante o mandato de Lula seria suficiente para mostrar que não é razoável acusar o ex-presidente sindicalista de insensibilidade para com os trabalhadores. Portanto, quando o ex-presidente celebra a crise no mundo desenvolvido, sabemos que não se trata de deleite com o sofrimento dos trabalhadores europeus e norte-americanos, mas sim de uma comemoração da ascensão do Sul Global, que hoje apresenta um desempenho econômico superior ao dos países mais ricos. Em crises mundiais anteriores, os países do Sul sofriam mais que proporcionalmente a recessão econômica e os problemas sociais dela decorrentes. Isso faz da conjuntura atual uma verdadeira anomalia do ponto de vista histórico, justificadamente comemorada por Lula, na medida em que sugere a redução da desigualdade de poder econômico e político entre as nações.

Por outro lado, o desejo de Pastore de que Lula tivesse tirado dessa crise ensinamentos úteis para promover reformas que reduzissem o déficit público no Brasil é sério e bem-vindo. Sua crítica seria útil se tivesse desenvolvido seu argumento sobre tais reformas. Assim fosse, guardaria relação temática com a redução promovida no orçamento público deste ano pelo governo e integraria o debate atual sobre a conveniência ou não de medidas de austeridade fiscal como solução para a crise da União Européia. Além disso, como entre as reformas sugeridas por Pastore está a da Previdência, uma de suas áreas de expertise, poderíamos ter visto um debate interessante, pois, logo após a publicação de seu artigo, a presidente Dilma afirmou que enviará ao Congresso proposta de reduzir a contribuição à previdência na folha de pagamento das empresas com o objetivo de aumentar a formalização do mercado de trabalho e a base de arrecadação do INSS.

Nosso país ganharia muito mais com críticas abordando o processo e os resultados das políticas públicas. A verborragia é, portanto, não do ex-presidente, mas dos seus críticos que, mesmo no apagar das luzes do mandato, levam suas gafes ao pé da letra ainda inconformados com os resultados da última eleição. Em Português informal e politicamente incorreto: “Tá ficando chato já”.

* Felipe Amin Filomeno é Economista, Doutorando em Sociologia pela Johns Hopkins University (EUA).

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