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A terceira via e o voto anti-cíclico no RS

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 06/11/2009 18h20, última modificação 07/09/2010 18h21
A última semana na cena política gaúcha foi dominada pelos movimentos dos atores que, hoje, são provavelmente secundários em 2010.

A última semana na cena política gaúcha foi dominada pelos movimentos dos atores que, hoje, são provavelmente secundários em 2010. Propositalmente, ou não, os protagonistas da sucessão estadual, PMDB e PT, recolheram-se para o fundo do palco. O PMDB aparentemente caminhando para afirmar a candidatura de José Fogaça. O PT envolto na disputa interna do comando partidário.

Como em política não existe espaço vazio, as outras duas alternativas para 2010 buscaram ocupar a cena. De um lado, a governadora Yeda Crusius seguiu recompondo a sua imagem, abalada pelas denúncias de corrupção em seu governo. De outro, o deputado federal Beto Albuquerque (PSB), tentou posicionar-se como candidato de renovação por uma terceira via.

Terceira via
A candidatura à releição de Yeda Crusius depende dos movimentos que vem fazendo. Aos poucos, no lugar de uma Yeda agressiva e abalada, começa a ser construída a imagem de uma Yeda “paz e amor”, que dribla os conflitos e não se expõe. Na Assembleia, a base yedista está sufocando a CPI da Corrupção. Nem mesmo a divulgação de áudios de políticos e empresários acertando propinas provoca qualquer reação. Com o fogo inimigo sob controle, Yeda conseguiu terminar a semana ganhando um troféu no II Congresso Brasileiro dos Municípios, realizado em Porto Alegre. Para não ouvir o discurso do presidente da Assembleia do Estado, Ivar Pavan (PT), também homeageado, Yeda exigiu alteração do protocolo.

Já Beto Alburquerque iniciou a semana com sua foto estampada em out doors espalhados por todo o Estado. Animado por pesquisas que vêm indicando seu nome em quarto lugar, com 7 ou 8% das intenções de voto, dependendo do cenário, Beto Albuquerque está se apresentando como candidato a candidato de um bloco de partidos que reuniria o PSB, PP, PCdoB, PDT, PPS, PTB, PR, PV e também do PSC, PTC e PtdoB. No meio da semana, contudo, dois dos principais partidos animadores da articulação já anunciaram discordância com o movimento do líder socialista. Sem os trabalhistas, a terceira via tende a se esvaziar, a começar pelo espaço reduzido de TV e pela falta de apoio social.

Sonhos, acredite neles
O ambiente político do Rio Grande do Sul é propício para o surgimento de uma nova alternativa. Foi sobre este terreno que Yeda Crusius elegeu-se em 2006. Todavia, hoje, as dificuldades de viabilização de um projeto como quer o líder do PSB talvez sejam maiores até que a candidatura à reeleição da governadora.

Yeda, em princípio, conta com o apoio nacional de seu partido. Serra (ou Aécio) é nome forte, que garante território de atuação. Já a terceira via regional talvez não conte com a mesma cobertura nacional. Até o momento, as tentativas de Ciro Gomes de posicionar-se como candidato não resultaram em nada sólido. Ao contrário, o surgimento de outras alternativas parece contra-indicar sua candidatura. Com isso, as possibilidades de uma terceira via no Rio Grande do Sul também se estreitam. E os sonhos de Beto Albuquerque de construir-se como solução de governo podem não prosperar.

Contraditoriamente, o ocaso de Yeda, que parece animar Fogaça e Tarso, pode ser mortal para Beto Albuquerque. Yeda transitou do novo ao velho na política gaúcha com a desenvoltura de um elefante numa cristaleira. Na memória recente do eleitor o novo está vinculado à decepção. E se isso se confirmar – ou seja – se Yeda aparecer no cenário de 2010 como portadora das piores práticas, a tendência dos gaúchos poderá ser buscar uma solução testada, tipo Tarso ou Fogaça, que foi prefeito de Porto Alegre, no caso do primeiro, e é, no caso do segundo. Albuquerque seria vítima da tendência anti-cíclica do eleitor gaúcho.

Isso, aliás, não seria novidade. Os gaúchos parecem adorar andar na contra-mão. Enquanto não era viável nacionalmente, os gaúchos votavam em Lula. Quando isso se tornou realidade, os gaúchos passaram para a oposição. Votaram em Serra e depois em Alckmin. E é exatamente essa rebeldia do eleitor gaúcho, essa imprevisibilidade que surpreende a todos a cada eleição, que parece animar o socialista Alburquerque.