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A senhora do pré-sal

por Luiz Antonio Cintra — publicado 29/01/2012 08h10, última modificação 29/01/2012 08h10
No comando da estatal, Graça Foster terá de aliar engenharia e o cuidado com os interesses do País
Dilma

Maria Graça Foster é a indicada para a presidência da Petrobras, no lugar de Gabrielli, que irá para o governo baiano. Foto: Renato Frasnelli

Em sua próxima reunião ordinária, marcada para o dia 9 de fevereiro, o Conselho de Administração da Petrobras apreciará a indicação da engenheira química mineira Maria das Graças Silva Foster, há 32 anos trabalhando na empresa, como substituta do economista baiano José Sergio Gabrielli, na presidência da companhia há quase sete anos.

A data entrará para a história da estatal brasileira de economia mista, controlada pela União, à medida que se confirme a chegada da primeira mulher ao comando da empresa, de longe a maior do País em investimentos planejados. Até 2015, Graça Foster, como prefere ser chamada, será responsável por investir nada menos que 224,7 bilhões de dólares, dos quais 127 bilhões irão para explorar as reservas do pré-sal, dando continuidade ao planejamento estratégico da companhia.

Falando a CartaCapital de Davos, na Suíça, Gabrielli confirmou o convite – e a decisão de aceitá-lo – do governador da Bahia, Jacques Wagner, que o chamou para ocupar uma secretaria no governo baiano. Ainda falta decidir qual será a pasta. Gabrielli aproveitou para rebater a narrativa que uma parcela da grande mídia buscou criar logo após o anúncio da troca de comando, segundo a qual somente agora a presidenta Dilma teria “assumido o controle da Petrobras”, já que Gabrielli tomou posse indicado por Lula. “Querem criar uma versão da minha saída colocando antagonismos, entre uma suposta gestão política minha e uma gestão técnica da Graça, mas isso não existe. Mencionam o valor de mercado da companhia no último ano, mas é preciso olhar para a trajetória toda. Fui o presidente mais longevo da Petrobras, e no período a empresa passou de um valor de mercado de 14 bilhões de dólares em 2002 para os atuais 160 bilhões.”

No balanço que faz da própria gestão, Gabrielli destaca ainda o que considera uma mudança radical na orientação da estatal, colocada na lista das empresas a serem privatizadas, rebatizada de Petrobrax, dos tempos de FHC. “Era uma empresa fragmentada, pulverizada, que estava sendo preparada para ser vendida aos pedaços, e fizemos um esforço grande no -sentido contrário, de fortalecer a empresa. Também recuperamos o portfólio de exploração, que estava diminuindo. E investimos para encontrar petróleo, mas também para desenvolver a produção e o refino, onde resolvemos vários gargalos e passamos a investir em novas refinarias.”

A entrada da empresa no setor de biocombustíveis e os investimentos na produção de etanol também são apontados como pontos positivos, assim como o que o atual presidente considera uma “redefinição” das relações com o mercado. “E fizemos a maior capitalização da história, para dar solidez e ter a estrutura de capital necessária para arcar com os investimentos do pré-sal”, avalia. “Mas a verdade é que fui apenas o maestro de uma orquestra formada por músicos de primeira, os funcionários da companhia.”

Funcionária da estatal desde 1978, quando entrou na empresa como trainee, Graça Foster, hoje com 58 anos, tem uma trajetória inusitada. Nascida em Caratinga (MG), mudou-se para o Rio de Janeiro aos dois anos de idade, indo morar com a família em uma favela, hoje parte do Complexo do Alemão. Com dez anos, trabalhava como catadora de papéis para ajudar nas despesas de casa, enquanto seguia estudando.

Graduada em engenharia química na UFRJ, cursou pós-graduação no -Coppe, centro de pesquisas dirigido por Luiz Pinguelli Rosa, que foi professor de Graça e, mais tarde, seu colega de trabalho quando Pinguelli Rosa dirigiu a Eletrobras, no governo Lula.

Em entrevista a CartaCapital, em novembro de 2011, Graça comentou a política de preços da Petrobras, dando sinais de que o foco da companhia é o mercado interno. “Nossa política de preços é de 2002. De lá até hoje o preço do petróleo variou entre 35 e 110 dólares, chegando a 147 dólares por algumas horas. Com toda essa volatilidade, se a política de preços fosse curta, criaríamos dificuldades para o nosso cliente final, que é o nosso ativo mais precioso, mais importante do que refinarias e termoelétricas. A Petrobras é a única major a vender 85% do que produz no mercado interno, logo, preservar a capacidade de consumo da população é importantíssimo”, afirmou. E destacou o papel do -País como produtor mundial. “Estamos entre os paí-ses responsáveis por manter o brand no patamar atual, em torno de 100 dólares.” E apontou um ponto crítico que terá de ser enfrentado pela política nacional de energia, a começar pelo etanol, onde a Petrobras já detém 5,3% da oferta, por meio de parcerias com grandes usinas. “O álcool passa por um problema conjuntural, resultado do alto consumo de açúcar. Mas tudo isso faz parte de uma curva de aprendizado. Aprendemos quais são as sinergias entre os combustíveis renováveis e os fósseis que nos garantem uma maior estabilidade de receita. A ajuda (da Petrobras para elevar a oferta de álcool) é consequência dos bons resultados em petróleo. Sou conselheira da Petrobras Biocombustíveis e fico muito brava quando ouço críticas ao interesse da empresa nessa área. Temos uma série de projetos greenfield para o álcool. A visão agora é outra, somos uma empresa de energia.”

Segundo especialistas, entre os desafios colocados à estatal está a conclusão de obras importantes como a refinaria em parceria com a venezuelana PDVSA, em Pernambuco. Assim como as novas plataformas para a exploração do pré-sal, um desafio de engenharia que, conforme a política oficial, adotada desde o governo Lula, busca também ampliar a participação da indústria brasileira na cadeia de petróleo e gás natural, muito dependente de importações.

*Colaborou André Siqueira

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