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A próxima geração

por Celso Calheiros e Mauro Graeff — publicado 23/09/2010 12h03, última modificação 24/09/2010 09h43
Políticos jovens e que não viveram os conflitos da ditadura caminham para vitórias consagradoras nas urnas. E se credenciam no cenário nacional
A próxima geração

Políticos jovens e que não viveram os conflitos da ditadura caminham para vitórias consagradoras nas urnas. E se credenciam, no cenário nacional. Na imagem, Eduardo Campos, candidato a reeleição no governo de Pernambuco, em campanha. Por Celso Calheiros e Mauro Graeff. Foto: Roberto Pereira.

Políticos jovens e que não viveram os conflitos da ditadura caminham para vitórias consagradoras nas urnas. E se credenciam, no cenário nacional. Na imagem, Eduardo Campos, candidato a reeleição no governo de Pernambuco, em campanha

Após um longo período sem renovação, a fornada de políticos que sairá das urnas em 2010 consolida a influência que a geração pós-1964 terá na vida brasileira. Na casa dos 50 anos ou menos, não viveram diretamente as agruras da ditadura. São, em geral, conciliadores e demonstram enorme capacidade de estabelecer apoios quase unânimes. Nos estados, estão desacostumados a enfrentar oposições tinhosas.

São ao menos quatro, todos com inigualáveis chances de ser eleitos ou reeleitos no primeiro turno ou de emplacar afilhados em governados estaduais. Entre os reeleitos certos, Eduardo Campos, de Pernambuco, e Sérgio Cabral Filho, do Rio de Janeiro. Na lista dos padrinhos, Aécio Neves, que luta para entronizar Antonio Anastasia em Minas Gerais, e Paulo Hartung, que transferiu toda a sua popularidade a Renato Casagrande do PSB. Casagrande deve ser eleito governador do Espírito Santo no primeiro turno com quase 70% dos votos válidos.

O pernambucano Campos, do PSB, é um fenômeno à parte. Mais bem avaliado governador do Brasil (com 62% de ótimo e bom nas pesquisas), o neto de Miguel Arraes tem atualmente 63% das intenções de voto, contra 21% do veterano Jarbas Vasconcelos, seu principal opositor. Administra o estado que concentra o maior conjunto de empreendimentos do governo federal e, por sua habilidade, tornou-se um ativo articulador político da base governista no Nordeste.
Foi Campos quem conseguiu, como presidente do partido, demover Ciro Gomes de concorrer à Presidência. Se -seguisse na disputa, Ciro complicaria a estratégia de Lula de fazer da eleição um plebiscito. A liderança de Campos no PSB se solidifica com o crescimento da legenda, que sairá das urnas como segunda força à esquerda em tamanho e representatividade política, ao lado do PT. Ao menos três candidatos socialistas já agendaram com o alfaiate o terno da posse, mas o partido tem chances de fazer até seis governadores, seis senadores e mais de 30 deputados federais. A partir de 2011, mesmo em uma perspectiva conservadora, o PSB deve ao menos dobrar de tamanho.

Ex-ministro da Justiça e presidente da Fundação Joaquim Nabuco, Fernando Lyra, que aposta em Campos como campeão de votos neste ano, já apontara, no livro Daquilo Que Eu Sei, o conterrâneo e o candidato ao Senado Aécio Neves como líderes de uma nova geração de políticos. Campos, por sinal, mantém um canal de diálogo aberto com Aécio, reeditando a boa relação que tiveram os avôs de ambos, Tancredo e Arraes. Quando era líder do PSB na Câmara dos Deputados, em 2001, Campos apoiou a candidatura do tucano à presidência da casa. Em Belo Horizonte, o prefeito Márcio Lacerda foi eleito com o apoio de Aécio. No Paraná e na Paraíba, PSB e PSDB andam juntos.
O interesse de Campos pela política começou cedo, aos 14 anos. Como único descendente a demonstrar interesse pelo assunto até então, o neto ganhou incentivo direto do lendário avô. “Somos muito diferentes. Eu sou um sertanejo de -outra época. Ele é um político metropolitano, moderno”, costumava dizer Arraes ao se comparar com o neto. Fisicamente, Campos possui traços que lembram Arraes quando jovem, além dos olhos azul-claros, comuns na família pelo Sertão do Araripe, na divisa entre Pernambuco e Ceará.

Politicamente, as semelhanças são menores. A economista Tânia Bacelar, que conheceu ambos de perto, afirma que apenas o compromisso com os mais pobres é comum. O empresário Armando Monteiro Filho, adversário e aliado de Arraes em diferentes momentos políticos e hoje candidato ao Senado pela chapa governista, destaca uma qualidade que, na sua visão, os diferencia: “Eduardo gosta de somar”. Como presidente do PSB, Arraes liderou o partido com adversários internos. Teve de disputar duas vezes o cargo com João Capiberibe (Amapá) e uma com Ronaldo Lessa (Alagoas). Campos é presidente sem embates. Foi eleito duas vezes por aclamação e seu mandato passou a ser de três anos. Arraes ia aos votos a cada dois anos.

Mas nem tudo foram flores. Secretário de governo no terceiro mandato de Arraes,- em 1994, Campos foi transferido para a pasta da Fazenda meses antes de estourar o escândalo dos precatórios. Atingido pelo furacão, o então secretário desceu ao limbo político. Chegou a ser apontado como um dos responsáveis, em 1998, pela derrota eleitoral acachapante do avô para Jarbas Vasconcelos, com mais de 1 milhão de votos de diferença.

A volta por cima viria com sua eleição ao governo estadual, em 2006, em que derrotou, com 65% dos votos válidos, justamente o candidato de Jarbas, Mendonça Filho. O político do PMDB, aliás, é uma espécie de resistente na quase desaparecida oposição pernambucana. Mesmo o tucano Sérgio Guerra, intrépido opositor de Lula, em seu estado natal encarna a versão cordeirinho. Não só evita falar mal do presidente da República como liberou os prefeitos do PSDB a apoiarem Dilma Rousseff e Campos.

Uma das razões para tanta unanimidade é o desenvolvimento de Pernambuco, que cresceu acima da média do País nos últimos anos. Ao lado do Ceará e Maranhão, o estado terá uma refinaria de petróleo – há 30 anos a Petrobras não construía uma nova unidade de refino. A primeira a tirar óleo diesel dos seus dutos será a Abreu e Lima, na região metropolitana do Recife. Além disso, o complexo portuário de Suape terá uma petroquímica (a maior das Américas) e dois estaleiros de proporções continentais. É também em Suape que parte da indústria naval brasileira renasceu após décadas de estagnação.

Os aliados de Campos apontam outro aspecto: a atuação do governador em municípios comandados pela oposição. O PSDB tem 17 prefeitos e, desses, 14 votam com o governador. O fenômeno se repete com o DEM e o PMDB. Distante 415 quilômetros do Recife, Serra Talhada é um exemplo. A atração que Campos exerce foi capaz de anular inimigos figadais. Os três grupos políticos da cidade sertaneja sobem no palanque do governador – caso inédito na terra de Lampião.
Colega do pernambucano no PSB, o capixaba Renato Casagrande também seria eleito no primeiro turno se a eleição fosse hoje. Na última pesquisa do Ibope, divulgada no domingo 12, Casagrande aparecia com 61% dos votos contra 12% do segundo colocado, o tucano Luiz Paulo Vellozo Lucas. Além da atuação destacada como senador, Casagrande se beneficia da alta popularidade do atual governador, Paulo Hartung, do PMDB, cuja aprovação beira os 80%, capitaneada pelo crescimento do estado e pelas perspectivas futuras com o pré-sal, apesar de os índices de violência continuarem altos.

A média de 57 homicídios para cada 100 mil habitantes é hoje ainda maior do que quando Hartung assumiu, e o item violência é o quesito mais preocupante para 35% dos capixabas, de acordo com as pesquisas.

Não à toa, a redução da criminalidade no Rio de Janeiro é um dos trunfos do governador Sérgio Cabral Filho, também do PMDB, outro que deve ser re-eleito no primeiro turno. Segundo o último levantamento do Datafolha, Cabral tem 58% dos votos, contra 18% de Fernando Gabeira, do PV.

Desde que Cabral recebeu o governo de Rosinha Garotinho, a taxa de homicídios caiu de 40 para 33 por 100 mil, e a expectativa é de uma redução ainda maior após a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), principal novidade do governo fluminense no combate ao crime.

Como poucos na história do Rio, Cabral tem praticamente a mesma aprovação em todas as classes sociais, no interior e na capital. Com a instalação das UPPs, o governador ganhou elogios dos moradores dos morros e do asfalto. O projeto de ocupação policial que expulsou o crime organizado melhorou a vida de quem vive nas comunidades e derrubou os índices de violência nos bairros próximos. Na zona sul, onde o peemedebista era visto com desconfiança no começo do mandato, a população dos bairros de Ipanema, Copacabana, Leblon e Botafogo comemora a queda da violência após a pacificação nos morros. Hoje, todo mundo clama por uma UPP no Rio. Até agora, 12 foram instaladas em 29 comunidades. A promessa para a reeleição é criar outras 40 até 2014.

Aos bons resultados na área de segurança se soma a urbanização das favelas. A novidade mais recente são os elevadores panorâmicos instalados nos morros do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, fazendo a ligação com a estação do metrô General Osório, em Ipanema. Além das intervenções nas favelas, a falta de adversários fortes, a conquista da Olimpíada de 2016 e a retomada da economia carioca explicam o segredo do sucesso do governador. Tudo embalado pela gigantesca popularidade do presidente Lula, de quem Cabral se diz “filho adotivo”.
A lua de mel com o Planalto fez o Rio receber o PAC das Comunidades, nome dado ao projeto de reurbanização dos morros. Ao todo será investido 1,6 bilhão de reais dos governos estadual e federal na construção de casas, complexos esportivos, unidades de saúde e saneamento básico. “Desde o governo Marcello Alencar (1995-1998), quando também havia uma relação grande do governador com o presidente da República, as pessoas não tinham o sentimento de crescimento. Foi feito pouco, mas como estava ruim, parece muito”, analisa Eurico de Lima Figueiredo, cientista político e coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF).

“Essa ideia de polícia como pacificação é o início de uma reversão. A polícia sempre foi parte do problema de segurança pública. Agora a mentalidade está mudando”, diz o antropólogo Rubem Cesar Fernandes, diretor-executivo da Viva Rio, entidade que pesquisa e debate os problemas da segurança no Rio desde 1993.

Popular, Cabral circula bem dos bailes de funk, no subúrbio, aos bares frequentados por artistas globais, no Leblon. Vai a jogos de futebol, ensaios de escolas de samba e espetáculos de teatro. Em todos os lugares, prega a mesma tese: o Rio precisa sair da estagnação e voltar a ocupar um lugar de destaque. “Ele tem apoio de vários contingentes sociais, dos mais educados aos menos educados. Cabral é a síntese do Rio”, complementa Figueiredo.

Para Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, coordenador do Observatório das Metrópoles, grupo de pesquisadores que estuda 15 grandes cidades brasileiras, o sucesso de Cabral é reflexo de um sentimento coletivo de mudança. “O estado passou por uma crise econômica e social muito grande. Havia um divórcio da sociedade civil com a sociedade política. Cabral trouxe uma expressão de mudança com urgência. Há percepção de que alguma coisa está acontecendo.”

Outro motivo apontado pelos especialistas para a diferença nas pesquisas é a falta de candidatos fortes. No Rio, seis disputam o governo, mas o único a fazer frente a Cabral é Gabeira, que em 2008 perdeu para Eduardo Paes (PMDB) a prefeitura da capital. Dois caciques da política local optaram por não enfrentar Cabral. O ex-governador Anthony Garotinho (PR) disputa uma vaga na Câmara dos Deputados e o ex-prefeito Cesar Maia (DEM) concorre ao Senado. “O Gabeira propõe a mudança, mas as pessoas neste momento não querem mudar”, avalia Ribeiro.

Aliados de Gabeira têm outra opinião para a diferença nas pesquisas. Atribuem a vantagem ao poderio de campanha do governador e ao dinheiro gasto em publicidade- do estado nos três anos e meio de governo. Acusam Cabral de ter mais marketing do que ação. “Eles gastaram 435 milhões de reais em publicidade desde o início do mandato. Estão mostrando um Rio que não existe. As UPPs existem em dez ou 12 favelas, mas o Rio tem 600. Há uma diferença imensa entre o que o Cabral fala e o mundo real”, diz o deputado estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha, do PSDB.

O senador Regis Fichtner, coordenador do programa de governo e braço-direito de Cabral, rebate: “Ninguém consegue enganar as pessoas só com marketing. É evidente que não resolvemos todos os problemas. Longe disso. Mas a população está percebendo uma reversão”.

Em Minas Gerais, após mergulhar na campanha estadual, Aécio tem mostrado grande força de transferência de votos. Seu pupilo Antonio Anastasia já aparece em várias pesquisas à frente do ex-ministro Hélio Costa, candidato da aliança PMDB-PT. Professor, Anastasia tem um perfil similar ao de Dilma: atuou em cargos até de primeiro escalão – chegou a ser ministro interino do Trabalho de Fernando Henrique –, mas não tinha concorrido em eleição a não ser como vice.

Aos poucos, esse estranho sobrenome, que a princípio ninguém sabia como falar (pronuncia-se Anastasía, não Anastásia), cava espaço na memória do eleitor. Ainda mais se de fato ganhar e fizer um bom governo. Ao lado de Hartung, Casagrande, Campos, Neves e Cabral, Anastasia tem, sem dúvida, lugar garantido na bolsa de apostas para a sucessão em 2014. Ou nas seguintes.

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