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Política

Rio de Janeiro

A praça é do povo, não de Cabral, o Huno

por Edgard Catoira — publicado 14/04/2012 10h59, última modificação 14/04/2012 11h01
A possível demoliçãpo da Praça Nossa Senhora da Paz para a construção da Linha 4 do metrô diz muito sobre a truculência do governador com a urgência das Olimpíadas de 2016
praça

A A Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, possui 113 árvores, sendo que algumas delas são centenárias Foto: Os Rúpias

Foi-se o tempo em que governantes davam ouvidos e crédito à opinião pública, além do interesse nas pesquisas pré-eleitorais, essenciais para chegarem ao poder. Quando são candidatos, dizem o que o povo quer ouvir. Empossados, dão-lhe as costas e fazem o que querem.

Caso emblemático, sobre o qual já protestei em outro artigo, é o da forma como se pretende expandir o Metrô do Rio rumo à Barra da Tijuca, num compromisso assumido com o Comitê Olímpico Internacional, mas não com os maiores interessados, os cariocas.

Pois bem, os moradores do Rio, Ipanema em particular, não querem a destruição da tradicional e maravilhosa Praça Nossa Senhora da Paz. Antes de qualquer tipo de estação do metrô, o carioca quer paz e manter o ambiente local tal como é, sob o argumento simples, mas poderoso, de que não se mexe em time que está ganhando. Afinal, um levantamento mostra que a praça possui 113 árvores, algumas frondosas e mais que centenárias, que deverão ser retiradas para a construção da estação de metrô. Estação que – repito – ninguém quer ali, fora o governador Sergio Cabral, que age como um moderno Átila, o rei dos hunos, e não deixa grama, muito menos árvores, por onde passa.

A propósito das discussões a respeito da localização dessa rejeitada estação, a vereadora Sônia Rabello, do PV, escreveu, com lucidez transparente de quem ama a cidade: “Em seu trajeto atual, o Metrô do Rio está circunscrito à Cidade do Rio de Janeiro. No entanto, em audiência pública, (13/02), realizada na quadra da Rocinha, para apresentação do Relatório de Impacto Ambiental da chamada Linha 4, não havia nenhum representante da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Um espanto!”

Eu não acho “espanto”. O prefeito Eduardo Paes quer se reeleger este ano e, para não perder o apoio de Cabral, com seu PMDB, faz só o que o chefe manda. Calado, não tomba a bucólica praça, como deveria e nem aproveitou  o fato de a Câmara Municipal aprovar um projeto de lei, do vereador Carlo Caiado, do DEM, para esse  tombamento. A justificativa do vereador foi a necessidade de preservação de seus valores histórico, cultural e social. Paes, vetou o projeto alegando ser inconstitucional, o que é verdade – só o prefeito pode decidir sobre a proteção desse patrimônio urbano. E sua decisão, nós já conhecemos, é a do chefe Cabral. Com isso, não fossem as explosões diárias ouvidas em Copacabana e Ipanema, teríamos a impressão de que nada estaria acontecendo. Mas as obras continuam avançando.

De qualquer jeito, fica claro também que o governador Cabral pensa diferente de todos, tal como o folclórico e muito pouco fictício Odorico Paraguassu, que queria inaugurar um cemitério a qualquer custo – e a escavação do metrô vai muito além de sete palmos. Por que, antes de fazer o que só ele quer, sabe-se lá com que interesse, o governador não consulta a população? Ou, então, por que não se enterra de vez e deixa todos em paz, com a Nossa Senhora da Paz tal como ela é.

A bem da verdade, temos que ter em mente que Odorico é personalidade fictícia, criada pelo genial Dias Gomes. Já Sergio Cabral, para nossa infelicidade, é real!

Talvez a grande diferença entre Odorico e Cabral – sem contar o charme delicioso do prefeito de “O bem amado” – seja o fato de que em Sucupira não havia a violência que o Rio conhece bem. A tomada de “áreas de litígio” pelas Unidades de Polícia Pacificadora está empurrando os bandidos para Niterói, Baixada Fluminense e Região dos Lagos, onde a criminalidade aumenta assustadoramente.

Não podemos esquecer, é claro, que as áreas pacificadas, como também venho alertando aqui no site de CartaCapital, estão voltando a ser ocupadas pelo tráfico. Ou seja, na comparação, o fato de Odorico não inaugurar o cemitério denotava um índice de criminalidade invejável para os padrões do Estado do Rio.

Resta-nos implorar:

– Governador, nós, do Rio de Janeiro, queremos tanta coisa! Tente não começar justamente por aquilo que ninguém quer. Antes de tudo, queremos paz. Com praça, Nossa Senhora e tudo!

 

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