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A politização do sagrado

por Coluna do Leitor — publicado 26/10/2010 08h26, última modificação 26/10/2010 16h30
Vários líderes religiosos, em suas propagandas, colocaram-se como representantes diretos de Deus. A ascese espiritual foi substituída pela prosperidade terrena e os fiéis, transformados em trampolins eleitorais. Por Guilherme Bravo

Em época de eleição, apela-se para tudo e para todos. Os candidatos, na disputa pelo  consenso dos eleitores, não hesitam em transitar por setores da sociedade que ganham apenas os seus quinze minutos de fama e publicidade, durante o pleito. É nesse período que podemos perceber, de modo mais claro, como as fronteiras entre o político e as demais esferas da sociedade são tênues. Embora as instituições pertinentes a cada uma destas esferas insistam em proclamar-se independentes e neutras em relação ao jogo político, os fatos apresentados durante a corrida presidencial deste ano, por exemplo, apontam o contrário. Seja nos bastidores, ou, diante dos holofotes midiáticos, o campo do político configura-se como um espaço de atuação e influência daquelas instituições. A religião, no caso, tem mostrado seu valor e importância, mesmo que seja de uma maneira um tanto distorcida.

Se é lamentável a maneira como os candidatos utilizam-se da fé e dos símbolos religiosos para ganhar votos, pior é ver que tal infâmia é praticada e apoiada por  aqueles que deveriam mostrar-se contrários à instrumentalização das Sagradas Escrituras para fins mundanos e interesseiros. Afinal, o que é a política senão um jogo de interesses conduzido pela natureza humana, que é mesquinha e volúvel? O que se viu, por exemplo, na campanha eleitoral para os cargos federais e estaduais foi vergonhoso. Vários líderes religiosos, em suas propagandas, colocaram-se como representantes diretos de Deus. A ascese espiritual foi substituída pela prosperidade terrena e os fiéis, transformados em trampolins eleitorais.

Os órgãos da imprensa, por sua vez, aproveitam-se desta “beatificação" instantânea dos candidatos, para manipularem as informações. Ao reportar a ida dos presidenciáveis a Aparecida do Norte, por exemplo, no dia 12 de outubro, um dos principais veículos de comunicação, ao lado das fotos de Dilma e José Serra em "posição" de oração, publicou: "Dilma Roussef  e José Serra participam da missa em celebração a padroeira do Brasil. Mas apenas o candidato tucano comungou".

A questão sobre o aborto  suscitou celeumas e levantou discussões. De acordo com reportagem da revista Carta Capital, folhetos da década de 60, da Tradição Família e Propriedade (TFP), foram incorporados na campanha de José Serra. E, a pedido de algumas lideranças católicas, distribuíram-se panfletos nas missas, conclamando os fiéis a não votarem na candidata petista. Fez-se o mesmo em alguns templos evangélicos. Aproveitando-se da "santificação" do marido, Monica Serra, acusada de praticar um aborto, soltou a seguinte frase: "Dilma é a favor de matar criancinhas".

É importante ressaltar, em meio a tantas distorções, que a prática do aborto deva ser condenada e combatida por toda a sociedade. Porém, de uma maneira séria e coerente. Fiscalização, conscientização, políticas públicas de inclusão e de assistência constituiriam as principais medidas.

Há que se lembrar, também, que todos os projetos ou reformas de lei passam por votação no Congresso. A propaganda tucana, ao utilizar-se da polêmica do aborto para fins eleitoreiros, transfere a competência dos senadores e deputados para as mãos do presidente, como se, sozinha, Dilma, caso eleita, pudesse ditar os destinos do país. Eles, os tucanos, têm a ciência de que, no Brasil, não é somente o  Tiririca que desconhece o que faz um deputado federal e, consequentemente, um senador. O interessante é que o palhaço percebeu a mesma coisa. Ao olhar-se em um espelho, enxergou o reflexo de grande parte da população brasileira, e aproveitou-se desta triste realidade para eleger-se  deputado federal.

Dilma Roussef e José Serra não são santos. O candidato tucano, por exemplo, em 1998, enquanto ministro da saúde do governo FHC, regularizou a prática do aborto, previsto em lei, pelo SUS. Mentiu ao falar que desconhecia quem era Paulo Vieira de Souza (Paulo Preto), acusado de roubo pelo próprio partido do tucano. E agora, distribui santinhos com a seguinte frase: "Jesus é a verdade e a justiça”. Se, como diz o deputado Everardo, “pior do que está não fica”, a presença de líderes religiosos, como o Pr. Silas Malafaia, no programa político do PSDB, demonstra, ao contrário, que o que já é ruim, pode ficar ainda pior.

* Guilhermo Bravo é graduado em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Assis-SP e mestrando em Ciências Sociais pela UNESP de Marília-SP

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