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Política

Eleições 2010

A nova cena gaúcha

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 26/07/2010 18h18, última modificação 26/07/2010 18h18
Socialistas, gramscianos e neoliberais se enfrentam na eleição gaúcha

Está chegando a hora da largada. Neste último final de semana de junho, PT e PMDB fizeram suas convenções partidárias e selaram seus compromissos. O PSDB, diferente dos dois favoritos que organizaram espetáculos para suas convenções, promete fazer uma convenção cartorial.

Hoje, uma análise dos números aponta para uma derrota da tucana Yeda Crusius e um segundo turno entre Tarso e Fogaça, com o petista como provável favorito. Mas isso é hoje. Quem pode dizer o que vai acontecer amanhã?

O mais fascinante em qualquer eleição é que o resultado não pode ser previsto. Eleição é como a Copa do Mundo de Futebol. Favoritos muitas vezes caem como moscas no decorrer do campeonato. O que era verdade ontem, pode não ser amanhã. Teremos uma disputa eletrizante no Rio Grande do Sul.

Jogo embolado no meio de campo  - Nas últimas semanas, diante da decisão nacional do PMDB de assumir a defesa de Dilma Roussef e indicar Michel Temer para vice-presidente do país, o candidato do PMDB gaúcho, José Fogaça, declarou-se um “imparcial ativo”. A autodefinição causou curiosidade. Afinal, o que seria a “imparcialidade ativa”? Fogaça estaria acometido de murismo extremo? Como pode alguém em cima do muro estar tendo uma atitude ativa?

Fogaça chegou a declarar: “Imparcialidade ativa não é uma posição em cima do muro. É uma posição altamente proativa, efetiva, em favor de nossa eleição aqui no Rio Grande do Sul.” Tudo para dizer que, por ora, não pretende posicionar-se diante do debate nacional.

A explicação para a declaração do candidato do PMDB pode estar na história. Os socialistas italianos desenvolveram um debate em 1914 a respeito da “neutralidade ativa”. Antonio Gramsci defendeu este posicionamento para os trabalhadores frente à guerra imperialista. É bem possível que esta seja a inspiração do candidato Fogaça. Diante da guerra entre tucanos e lulistas no cenário nacional, pode estar surgindo um movimento neo-gramsciano no pampa gaúcho.

Tarso em combate - Tarso Genro faz tempo entrou em combate. Logo que deixou o ministério da Justiça, iniciou uma caravana com roteiros por municípios do interior do estado do Rio Grande do Sul. Dados vazados de uma recente pesquisa encomendada ao Ibope dariam Tarso em primeiro lugar com 38% dos votos contra 32% de Fogaça. Nesta mesma pesquisa, Yeda pela primeira vez teria atingido dois dígitos, 11%.

O comando do candidato socialista vem se mostrando quase exultante nos últimos quinze dias. Um pouco talvez pela pesquisa, mas principalmente por ter rompido com o isolamento a partir da aliança com o PSB e o PCdoB. A liderança nas pesquisas, o crescimento de Dilma e o declínio de Serra também no Rio Grande do Sul, vem renovando o ânimo do comando da campanha de Tarso Genro

Yeda dois dígitos - Nas últimas eleições no Rio Grande do Sul, candidatos que largaram com percentual baixo de votos ganharam as eleições. Foi assim com a própria governadora, que agora vai à releição. Defensora do projeto neoliberal no Estado, Yeda parece acreditar que pode repetir o feito de 2006, quando largou com menos de 5%. Hoje, Yeda já teria mais que o dobro disso, mas principalmente conta com aliados mais fortes, com a máquina do governo e com o guarda-chuva da candidatura de Serra que está bem a frente de Dilma no estado.

Uma demonstração disso ocorreu esta semana. O governo do Estado encartou publicação de 24 páginas em todos os jornais gaúchos mostrando suas realizações. Independente de questionar a paternidade de obras feitas com dinheiro federal, o uso do erário público para fazer campanha antecipada é evidente no caso da governadora. E o “uso da máquina” pesa em qualquer eleição.

Aldeia gaulesa - Mais uma vez a dinâmica eleitoral gaúcha vai descolar da dinâmica nacional. Nacionalmente, temos um quadro polarizado entre Dilma e Serra. Não chega sequer a ser uma eleição. É um plebiscito a respeito da continuidade do governo Lula. E o eleitor já decidiu: quer a continuidade do governo Lula. Vai dar Dilma já no primeiro turno, muito provavelmente.

No Rio Grande do Sul, a disputa vai para o segundo turno. Os candidatos articulam um leque intrincado de forças, cada um de olho do território inimigo e nos desdobramentos da guerra. Esquerda, direita e centro vão se enfrentar numa luta sem quartel como se o Estado gaúcho fosse a última aldeia gaulesa do planeta.

Talvez seja.

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