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Brasília

A maré chega a Agnelo

por Leandro Fortes — publicado 14/11/2011 07h54, última modificação 14/11/2011 18h15
O governador do Distrito Federal consegue evitar os processos de impeachment, mas continua na mira da oposição e precisa explicar melhor as relações com um chantagista
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Como Marconi Perillo, investigação da PF pode também complicar a vida do governador petista Agnelo Queiróz. Foto:Carlos Moura/CB/D.A. Pres

Ao completar 53 anos, na quarta-feira 9, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), teve uma comemoração boa para se esquecer. Em vez de uma festa alegre, organizada em uma churrascaria de Brasília por correligionários políticos, o governador desembarcou no evento debaixo de uma chuva torrencial. Antes mesmo de receber os primeiros cumprimentos, foi cercado por um batalhão de jornalistas atrás da mesma informação: iria ou não renunciar ao cargo? Aparentemente tranquilo, acomodou-se em meio ao caos de repórteres e curiosos, parte dos mais de mil convidados presentes ao ato, e reiniciou um discurso de defesa que tem sido parte integral de sua rotina nas últimas semanas. “Estou lutando contra o submundo da política.”

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O governador é acusado pela oposição- local de ter recebido propina quando era diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, em 2008. A denúncia é baseada no depoimento de um chantagista confesso, o ex--militante do PCdoB Daniel Tavares, mas guarda em si um elemento poderoso de prova. Em 25 de janeiro daquele ano, Tavares depositou 5 mil reais na conta corrente do atual governador do DF, via transferência -bancária. No mesmo dia, Queiroz assinou um -documento que permitiu à empresa União Química, de propriedade de um amigo dele, Fernando Marques, participar de licitações no governo federal. A decisão do então diretor da Anvisa foi publicada, três dias depois, -pelo Diário Oficial da União.

 

“É uma coincidência infeliz de datas”, disse o governador do DF, na quinta-feira 10, ao receber CartaCapital na residência oficial de Águas Claras, onde está instalado há dez meses. “Não há nada contra o governo, nem um único caso de corrupção, então decidiram investir contra mim, diretamente.” Pode ser, mas essa é uma história que, até agora, continua mal explicada. Queiroz garante tratar-se do pagamento de um empréstimo feito a Tavares, a quem ele admite conhecer há mais de dez anos, da militância do PCdoB, antigo partido do governador.

O problema maior do governador é provar o que diz ante as evidências do encontro de datas entre o depósito feito por Tavares e a autorização concedida à empresa do amigo. E, segundo o próprio, vai ser bem difícil, haja vista o empréstimo ter sido feito em dinheiro vivo, sem recibo ou qualquer outro documento comprobatório. Essa circunstância gerou um ambiente perfeito para um movimento agressivo da oposição no Distrito Federal. E Tavares foi peça-chave nessa estratégia, embora se tenha revelado, em menos de 24 horas, um vigarista profissional.

Na terça-feira 8, as deputadas distritais Eliana Pedrosa (DEM) e Celina Leão (PSD) apresentaram à mídia um vídeo, no qual Tavares acusa Queiroz de receber a tal propina como parcela de um montante maior, de 50 mil a 70 mil reais, embora não tenha apresentado prova alguma. No mesmo dia, mudou a versão em outro vídeo, exibido pelo deputado distrital Chico Vigilante (PT), no qual se diz amigo do governador e corrobora a versão do empréstimo. As razões para a abrupta mudança do ex-militante do PCdoB são um mistério. Mas ele mesmo, em entrevista à TV Record, iria acusar as deputadas, ambas viúvas do rorizismo, de lhe terem oferecido 400 mil -reais, mais um salário mensal de 10 mil reais, pelo testemunho.

Tavares afirma não ter recebido dinheiro de nenhum dos lados envolvidos, mas a presença de uma velha personagem das páginas policiais da mídia brasiliense no caso dá a dimensão do jogo sujo em pauta na política local. Trata-se do empresário Eduardo Pedrosa, irmão da deputada Eliana, apontado pelo próprio ex-militante- -comunista como operador da estratégia que levou o denunciante à casa da parlamentar, no domingo 6, para gravar o vídeo com a denúncia contra Queiroz. O que foi feito como se ele participasse de uma sessão da Câmara Legislativa, com direito a ata e tudo. Pedrosa foi preso, em 2004, durante a Operação Vampiro, da Polícia Federal, acusado de fraudar licitações no Ministério da Saúde.

A crise gerou cinco pedidos de impeachment contra o governador, um deles feito pelo ex-secretário de Transportes do DF Alberto Fraga, o que é quase um deboche com o eleitor de Brasília. Envolvido em várias acusações de corrupção, Fraga é considerado um dos símbolos da desastrosa administração do ex-governador José Roberto Arruda (DEM), cassado depois de flagrado, em vídeo, a receber propina. Outro pedido foi feito pelo advogado Rogério Dias Pereira, apontado como “laranja” de Raimundo Ribeiro, presidente local do PSDB, ex-secretário de Justiça de Arruda – ele mesmo outro solicitante. Também o PSOL pediu o impeachment.

Com ampla maioria na Câmara Legislativa, o governador não teve problemas para, ao menos no campo político e por ora, neutralizar a ação da oposição. Na quinta-feira 10, o presidente da Casa, o deputado petista Cabo Patrício, arquivou os cinco pedidos de impeachment, estes baseados tanto na denúncia de pagamento de propina como em irregularidades ocorridas no Ministério do Esporte, no período em que Queiroz era ministro, entre 2003 e 2006.  Ele continua, no entanto, investigado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) por conta de suspeitas de participação no desvio de dinheiro por meio de ONGs, casos que parecem bem mais espinhosos que a tal propina em discussão no momento.

Para levar o arquivamento adiante, Cabo Patrício baseou-se em dois pareceres da Procuradoria da Câmara Legislativa. Em um deles, o DEM, o PSOL e o PSDB foram neutralizados sob o argumento de falta de legitimidade para pedir o processo, uma vez que somente cidadãos podem fazê-lo. Também foi arquivado, por problemas formais, o pedido do advogado Rogério Pereira. Os demais pedidos, de Alberto Fraga e Raimundo Pereira (PSOL), foram arquivados por “falta de robustez”, justamente por terem se baseado no depoimento de Tavares.

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