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A hora do Sul

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 21/09/2010 19h23, última modificação 22/09/2010 11h34
Eleições devem ampliar o papel do Brasil e reduzir o dos Estados Unidos na região, facilitando a construção da integração entre os latinos
A hora do Sul

Eleições devem ampliar o papel do Brasil e reduzir o dos Estados Unidos na região, facilitando a construção da integração entre os latinos. Por Antonio Luiz M. C. Costa. Foto: Rodrigo Arangua/AFP

Várias eleições importantes afetaram ou afetarão a América do Sul neste ano. Pela ordem cronológica: Chile (janeiro), Colômbia (maio), Venezuela (setembro), Brasil (outubro) e Estados Unidos (novembro) que, mesmo sem pertencer à região, obviamente têm nela uma grande influência.

No Chile viu-se a primeira derrota da Concertación desde a redemocratização. Mas Sebastián Piñera, apesar de aliado da velha-guarda pinochetista, tem procurado manter as melhores relações possíveis com a Bolívia de Evo Morales e com o Equador de Rafael Correa (em parte para isolar o Peru, com quem o Chile disputa águas territoriais) e deu um passo que a centro-esquerda não ousou em 20 anos no poder: sob pressão de 57 dias da greve de fome de 32 índios mapuches, enviou ao Congresso um projeto urgente para amenizar a lei antiterrorista e tirar da Justiça Militar o poder de processar civis, removendo dois entulhos autoritários da era Pinochet que ainda vinham sendo usados para criminalizar movimentos sociais.

Na Colômbia, a direita continuou no poder, mas viu-se com a troca de Álvaro Uribe por Juan Manuel Santos uma aparente correção de rumo na direção de mais pragmatismo e cooperação com os vizinhos bolivarianos (Venezuela e Equador) e com o conjunto de nações da Unasul, enquanto as Farc perdem força e deixam de ser uma questão política capaz de criar enfrentamentos internacionais, ou mesmo a prioridade da agenda de Bogotá.

Os resultados das eleições vindouras nos outros países ainda precisam ser confirmados nas urnas, mas as tendências são suficientemente claras para contar com os ovos antes de a galinha os pôr, com pouco risco de errar.

Mesmo na Venezuela, a mais difícil de prever, pode-se assegurar que a oposição vai crescer. A direita boicotou a eleição legislativa de 2005 e com isso permitiu ao partido chavista, o PSUV, conquistar 137 dos 167 assentos, deixando os demais partidos de esquerda apenas moderadamente críticos do governo. Desta vez, os conservadores vão participar e -esperam uma votação significativa. Quanto?
Há pesquisas para todos os gostos. Em agosto, o instituto GIS XXI (dirigido por um ex-ministro de Chávez) deu 50% dos votos para o governo e 44% para a oposição, o IVAD 44,5% a 42,6% e o Keller 32% a 46%. No início deste mês, o Datus, contratado pelo PSUV, achou 50,6% a 22,8%. “O freguês tem sempre razão” é o lema de muitos institutos, mas, se o histórico deve ser levado em conta, deve-se lembrar que o GIS XXI e o IVAD previram corretamente a margem de vitória de cerca de 10% do “sim” no referendo de fevereiro de 2009, enquanto os institutos acreditados pela oposição insistiram até dezembro em apostar na derrota do governo, para prever um empate à última hora.

A popularidade de Hugo Chávez aparentemente caiu. Acumularam-se, desde fins de 2008, o impacto econômico da diminuição (embora relativa) do preço do petróleo, a escassez de energia elétrica, a crise bancária e as dificuldades administrativas do governo. A criminalidade cresceu e cobra um preço político – se bem que tanto crise econômica quanto violência parecem menos críticas que no México, cujo governo conservador está pagando muito mais caro pela dependência dos EUA quanto à economia e ao combate ao narcotráfico.

Segundo os institutos de pesquisa Keller e Consultores 21, a popularidade do presidente caiu de 71%, em 2005, e 57%, no início de 2009, para 37%, em julho deste ano. Para o Datus, está em 59%. É suficiente, de qualquer maneira, para que a oposição proteste junto à Justiça Eleitoral contra a participação do presidente na campanha de seu partido, que considera indevida.

A oposição precisa de 56 das 165 cadeiras para vetar leis orgânicas e 67 para vetar leis habilitantes (que permitem ao Executivo legislar por decreto). Um dos líderes da campanha do PSUV disse que, se ela conquistar de 30 a 35, “será uma espécie de triunfo que eles deverão celebrar”. Para a ONG Ojo Electoral, ela pode conseguir até 65. Segundo o insuspeito Wall Street Journal, o partido de Chávez deve vencer, ainda que possa ficar aquém da maioria de dois terços.
No mínimo, será arranhado o virtual monopólio do Legislativo pelo governo, dando mais voz às forças conservadoras. No máximo, estas terão uma bancada suficientemente grande para bloquear ou limitar reformas radicais, sem poder interferir significativamente na rotina parlamentar.

Nos Estados Unidos, já é certo o avanço da direita. Aos olhos da porção flutuante da opinião pública, o governo democrata de Barack Obama, após resgatar banqueiros e montadoras, deixou a economia e os desempregados entregues à própria sorte para priorizar reforma da saúde, diplomacia no Oriente Médio, guerra no Afeganistão e o vazamento de petróleo no Golfo. Qualquer medida do governo virá tarde demais para mudá-la significativamente. Até porque não é uma percepção muito equivocada: o erro é supor que os republicanos teriam feito melhor.

A média das previsões indica que os democratas perderão 6 ou 7 assentos no Senado e também 6 ou 7 governos estaduais. Larry Sabato, um prestigiado cientista político com currículo de predições certeiras, estima perda líquida de 8 ou 9 senadores, 8 ou 9 governadores e cerca de 47 deputados – o que significaria um Senado dividido meio a meio e uma maioria republicana na Câmara.
Se com uma maioria ampla (59 de 100 senadores e 255 de 435 deputados), o governo Obama já ficou à beira da paralisia, a perspectiva é de um completo travamento mesmo que os republicanos não cheguem a ser maioria nas duas casas, possibilidade que não pode ser descartada.

Obama, apesar das declarações de boas intenções, pouco se atreveu a fazer para melhorar as relações com a América Latina. Não fez progressos substanciais em relação a Cuba (embora Havana tenha libertado a maioria de seus presos políticos), mostrou pouco compromisso com a democracia em Honduras, não reatou as relações abaladas com a Bolívia e criou um desnecessário mal-estar com a maior parte da América do Sul com um tratado sobre novas bases militares na Colômbia que acabou anulado pela Justiça de Bogotá e terá de ser renegociado. E o México tornou-se a pior vitrine possível das supostas vantagens da cooperação com os EUA.

Se o governo democrata quase nada fez em relação à região até agora, muito menos fará nos próximos dois anos. Dificuldades econômicas e políticas crescentes impedirão os EUA de oferecer ajuda substancial, maiores concessões comerciais ou mesmo um tratamento mais amigável para com os imigrantes dos seus vizinhos do Sul. A falta de consenso entre a Casa Branca e o Capitólio dificultará ações mais decididas em política externa, inclusive as golpistas. A limitação dos recursos militares e financeiros, focalizados no atoleiro do Afeganistão e no impasse com o Irã, desencorajará novas aventuras militares.

No Brasil, pelo contrário, as pesquisas convergem para uma vitória esmagadora do governo no primeiro turno da disputa pelo Executivo Federal e uma ampliação significativa de sua base no Congresso, juntamente com uma desarticulação sem precedentes do principal bloco de oposição.

A soma desses resultados provavelmente reforçará a liderança brasileira na América do Sul. O Brasil manterá uma postura de centro-esquerda pragmaticamente independente e latino-americanista – talvez até com mais ousadia, dado o apoio ampliado no Legislativo e renovado na base popular. Os principais governos conservadores, Chile e Colômbia, mostram pouca disposição de conflito e muita para negócios. Com a melhora do quadro econômico, a onda conservadora que permitiu à oposição argentina avançar nas eleições de 2009 parece refluir em favor de Néstor Kirchner e lhe dar chances de voltar a revezar-se com a esposa na eleição de outubro de 2011.

O bloco bolivariano enfrenta dificuldades econômicas e políticas que obrigam seus integrantes a agir com mais cautela e procurar resolver problemas internos antes de voltar a tentar agir com mais agressividade no campo diplomático. Chávez não poderá mais menosprezar o risco de dissidências. Rafael Correa e Evo Morales enfrentam dificuldades com suas próprias bases indígenas, que põem em risco a unidade e os planos de seus governos ao exigirem atendimento imediato de reivindicações locais e étnicas.
É uma ótima oportunidade de reforçar a unidade e independência da América do Sul em torno de uma agenda compatível com a brasileira.

Resta o risco de um golpe no Paraguai – que o deixaria muito mais isolado que Honduras – e o Peru. Em recente entrevista à CNN em espanhol, o presidente Alán García reclamou mais ajuda econômica dos EUA e ofereceu-se para receber tropas do Pentágono para “combater o narcotráfico” sem fazer questão de “patriotismo e soberania”. As eleições presidenciais no Peru serão em abril e os candidatos ora favoritos vêm da direita: Keiko Fujimori (filha do ex-ditador), Luis Castañeda (prefeito de Lima e aliado da conservadora Lourdes Flores em 2006) e Alejandro Toledo (ex-presidente neoliberal). Mas qualquer deles, é claro, será pressionado pelo realismo político a imitar os vizinhos da Colômbia e do Chile.

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