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Política

Rio de Janeiro

A fuga pelo porta-malas

por Matheus Pichonelli publicado 10/11/2011 13h18, última modificação 06/06/2015 18h15
Com a captura de Nem, polícia ganha novo round contra o tráfico. Falta atacar as milícias que assassinaram juíza e botaram deputado para correr

Virou até destaque no “Mais Você”, matinal de Ana Maria Braga, a notícia de que Antônio Bonfim Lopes, o Nem, chefe do tráfico na Rocinha e um dos bandidos mais procurados do Rio de Janeiro, havia sido preso na madrugada da quinta-feira 10 após ser encontrado no porta-malas de um Corolla preto.

A prisão, noticiada com alarde pelas emissoras de tevê, ganhou ares de batalha épica, uma espécie de final alternativo ao filme Tropa de Elite 2 – que, como diz um amigo, consegue te deixar chocado mesmo mostrando tudo o que estamos cansados de saber: forças militares entram no morro até então dominado pelo tráfico e estendem a bandeira da legalidade, estampada, na vida real, pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), meninas dos olhos do governador Sérgio Cabral e seu secretário José Mariano Beltrame.

O novo front é a Rocinha, bairro-favela com cerca de 60 mil moradores que, conforme lembrou o jurista Wálter Maierovitch, colunista de CartaCapital, em seu blog no site Terra Magazine, é denominada pela facção Amigos dos Amigos (ADA), que controla o tráfico de drogas ilícitas e exerce forte controle social. Esta será, portanto, a primeira vez que uma UPP será implantada em área dominada pelo ADA – as anteriores, lembra Maierovitch, foram em territórios que estavam sob controle do Comando Vermelho (CV).

Desde que a ação foi anunciada, numa justificada maneira de se evitar tiroteios na área, poucos pareciam acreditar que seria possível capturar o chefão do morro. O mais provável era que saísse pelos fundos, numa das centenas de vias de uma das maiores favelas do País. Foi o que tentou fazer, mas a fuga foi frustrada por um policial militar do Batalhão de Choque, identificado como soldado Heitor.

Durante o cerco à favela, ele abordou o automóvel que levava três pessoas: um advogado, um homem que se identificou como cônsul honorário do Congo e outro que se identificou como funcionário do Consulado. O suposto cônsul impediu a Polícia Militar de revistar o veículo, alegando imunidade diplomática e disse que só abriria o veículo para revista em uma unidade policial. O veículo seguiu, então, escoltado pelos PMs até a sede da Polícia Federal, na Praça Mauá, na zona portuária do Rio.

Durante o trajeto, no entanto, os homens pararam o automóvel, na região da Lagoa, também na zona sul, e, segundo a versão oficial, ofereceram propina de um milhão de reais aos policiais para que fossem liberados. Os PMs, sempre de acordo com a versão oficial, decidiram então revistar o veículo e encontraram o traficante no porta-malas.

Em minutos, o traficante já estava num camburão, numa cena testemunhada por cinegrafistas que, enfim, mostraram o rosto do tão falado traficante – até então, só visto pelo público por meio de uma imagem quando ainda parecia um adolescente. Era um rosto de alguém que aparentava ter menos do que seus 35 anos. Nem não disse palavra alguma, mas a expressão do rosto denotava a tensão de quem seria em instantes apresentado para todo o País. Magro, usava uma camisa azul, e parecia desmentir o protótipo do chefe do morro falante e descabelado que porta anéis, colares e, sangue nos olhos, grita e atira em quem estiver na frente quando a casa cai. Nem preferiu fugir, e não lutar – e, segundo informações da polícia, os colegas de tráfico foram também orientados a não entrar em conflito.

Ao chegar à sede da PF com o traficante já detido, os agentes federais comemoravam, com abraços e buzinaço. Acabavam de vencer mais uma queda de braço com os traficantes, o que acabou redimindo a imagem da polícia fluminense, que na mesma semana, teve cinco agentes detidos quando transportavam traficantes da mesma Rocinha. Poucas horas depois, ele foi transferido para o Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, com a ajuda do Caveirão da PM.

“Sem dúvida, a prisão é emblemática, mas o mais importante de tudo é mostrar que, quando essas pessoas têm a ameaça de perda do império territorial que consideravam ser um porto seguro, uma ilha inexpugnável, ficam vulneráveis e são presas dentro de um porta-malas de um carro”, disse Beltrame, por telefone à Agência Brasil, de Berlim, na Alemanha, onde participou de encontros sobre a Copa do Mundo.

O megatraficante está presto, mas, como afirma Maierovitch, ainda há desafios a serem alcançados. “Os chefões deixam o local mas mantém microtraficantes com o objetivo de corromper os agentes envolvidos na pacificação. Recentemente, verificou-se que soldados do Exército, no Complexo do Alemão, foram subornados”, escreveu o jurista, que lembrou ainda de outro problema de segurança no Rio: o surgimento das milícias, grupos de policiais e ex-policiais que, como na máfia, extorquem os moradores em troca de serviço e segurança.

Na semana passada, – sete delas só no último mês. Antes de embarcar, em entrevista a CartaCapital, ele pintou uma situação trágica da situação no Rio: das 58 propostas concretas aprovadas no relatório da CPI, quase nada saiu do papel. E mais: o número de milícias em 2008 (ano em que foi montada a comissão), era de 170, e hoje é de mais de 300. “Já torturaram jornalistas, já mataram uma juíza e agora ameaçam a vida de um parlamentar. Tivemos 500 prisões depois da CPI, isso é muito importante, mas só as prisões não resolvem, tem que tirar deles o braço econômico e territorial. Nada é feito e há um cinismo no Rio de Janeiro, em que se finge que o problema das milícias está resolvido”, disse.

Uma das principais críticas do deputado à política de segurança no estado é que as UPPs, que acuaram os traficantes onde foram instaladas, não chegam às áreas dominadas pelas milícias.

“Estamos aflitos”

Pela manhã, os policiais do Batalhão de Choque faziam guarda na comunidade da Rocinha, que fica em São Conrado, para revistar as pessoas que entram na comunidade ou deixam o local.

Na parte baixa, próximo à Autoestrada Lagoa-Barra, o comércio foi aberto e a movimentação era normal. A única escola estadual no interior da comunidade também foi aberta. Mas, segundo a Secretaria de Educação do estado, não houve aulas no turno da manhã porque os alunos não compareceram à instituição. A unidade fecharia às 14h – mas por causa do ponto facultativo para o ato contra a modificação na partilha dos royalties, convocado pelo governo fluminense, no centro.

Para o presidente do Movimento Popular de Favelas, William de Oliveira, morador da Rocinha, a rotina é normal, mas os moradores estão apreensivos em relação à ocupação da comunidade pela polícia.

“O governo não informou os moradores sobre essa ocupação. Mas temos visto pela imprensa notícias sobre isso e ficamos apreensivos, aflitos sobre como isso vai acontecer. Esperamos que não haja confronto porque temos escolas e muitos espaços públicos na comunidade”, disse.

O representante do movimento social, que reúne mais de 700 favelas do estado, acrescentou que a implantação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) divide a opinião dos moradores.

“Somos uma comunidade com mais de 200 mil habitantes. Por isso, temos uma enorme diversidade de opiniões. Tudo o que sabemos, pelo que acompanhamos em outras comunidades já pacificadas, é que o governo cometeu erros e teve acertos. Pelo menos, vemos que esse é um programa que tem meta e orçamento do estado e vamos acompanhar para garantir que aqui tudo seja feito na forma da lei.”

Sobre a prisão de Nem, Oliveira disse apenas esperar que ele “consiga se ressocializar”.

“O morador não participa do tráfico, só acompanha o que acontece. A gente percebia que isso [a prisão de Nem] iria acontecer um dia e torce para que ele cumpra a pena e se ressocialize”, disse.

 

*Com informações da Agência Brasil

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