tamanho da fonte minímo médio máximo

Política

Plínio Arruda Sampaio

Eleições 2010

28.09.2010 18:32

A eleição do fim da história

A impotência dos vestais do Supremo para fazer valer o espírito da Ficha Limpa explicitou que a corrupção política é parte orgânica de um sistema. Foto: Fábio Nassif

O velho Samuel Wainer aconselhava: cada artigo refere-se a uma só idéia. Duas idéias: dois artigos. Mas no momento há três temas que não podem passar batidos. Por isso, o leitor considere que está lendo três artigos.

O escândalo Erenice provocou uma alteração na correlação de forças políticas. O que parecia um passeio ganha ares de disputa acirrada nestes dias finais de uma disputa eleitoral murcha, montada para impedir o debate dos problemas do povo brasileiro. Explica-se o aumento da tensão entre os candidatos no último debate eleitoral. O clima de vale tudo, com cada lado procurando “demonizar” o outro, camufla a profunda convergência no projeto político dos três candidatos que representam o status quo.

Nesse contexto, o desafio de desnudar o caráter profundamente injusto da sociedade brasileira fica ainda mais difícil, sobretudo, porque exatamente na reta final, quando a população menos favorecida é convocada para a política, os debates de grande audiência encurtam o tempo de fala dos candidatos e transcorrem em clima conturbado e passional. O debate público não pode se transformar numa gincana sujeita às determinações dos grandes meios de comunicação. A política do espetáculo corrompe o debate público e desinforma a população.

É lastimável o desfecho da cassação de registro do candidato Joaquim Roriz, que pleiteia o governo do Distrito Federal. O primeiro dever do juiz é decidir a questão que lhe for apresentada. Procrastinar a sentença tem todas as marcas de manobra destinada a burlar o espírito da lei. Revela ainda um Tribunal fraco, formado, salvo honrosas exceções, por juízes sem coragem de enfrentar os poderosos. A ambigüidade do Judiciário para separar as condenações por crimes anti-sociais de condenações provocadas pela luta social ameaça “criminalizar” a esfera política. A impotência dos vestais do Supremo para fazer valer o espírito da Ficha Limpa explicitou que a corrupção política é parte orgânica de um sistema econômico e de um regime social que corrompe todas as instituições e todas as regras do jogo para impedir que o povo emerja como sujeito histórico capaz de mudar o seu destino.

Apesar das dificuldades postas pela conjuntura política, a candidatura à Presidência do PSOL cumpriu o papel de fazer o contraponto. Pautamos as necessidades emergenciais do Brasil sem as quais não é possível combater a histórica desigualdade social: reforma agrária radical com limitação da propriedade rural; reforma urbana baseada no enfrentamento à especulação financeira para que todos tenham direito à moradia digna; garantir o investimento de 10% do PIB na educação e mais 10% na saúde públicas para assegurar a universalização sem abastardamento destes dois direitos; a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais sem redução salarial e a elevação do salário mínimo em quatro anos para R$ 2 mil, como preconiza o DIEESE. Não aceitamos o fim da história. O fogo da brasa que não se apaga é o mesmo fogo da chama que incendeia.

Enviar para um amigo Enviar para um amigo Imprimir: Compartilhar:
Mais...

Sua opinião

  1. marcio disse:
    No meu ponto de vista, o Plínio foi o único candidato que foi mais ousado em suas propostas de governo. Foi muito triste o Plinio se juntar com o Serra para falar mal da Dilma. A Dilma foi a pessoa mais injustiçada nessas eleições, com mentiras encândalosas inventadas pela mídia ( essa é a verdadeira direita).
  2. Fábio disse:
    O Plínio é socialista-democrático lúcido demais. Isso quer dizer: dado que uma hora esse barco afunda, que medidas severas e AINDA DEMOCRÁTICAS tomar para ele não afundar em favor do trabalho SUADO do povo? Infelizmente, nenhuma via democrática funcionará no Brasil. DIGO: NENHUMA! Nenhuma esquerda vai quebrar monopólios econômicos democrático-dialeticamente (somente agrários no Brasil) e muito menos NENHUMA ESQUERDA vai atacar a verdadeira ORIGEM externa do CAPITALISMO, e principalmente o poderio militar/industrial norte-americano. Parece piada, mas alguém tem fé em fortaceler o consumo no Brasil como medida real para combater os reais problemas e suas origens? Lendo o programa do PSOL não tem algo mais óbvio. A hora que se experimentar alguma necessidade severa do capitalismo "imperial", o que Brasil pode fazer contra? NADA! Esse paisote cai COMO SEMPRE caiu (claro, com toda sua elite vendida e seu "proletariado" irrelevante). A única esperança do povo brasileiro é que o capitalismo FINALMENTE UNIVERSALIZE-SE. Se ainda continuarmos na "era imperial", caíremos fatalmente e facilmente (no caso de guerra por pétroleo ou qualquer coisa do gênero). O que fazemos NESSE PAÍS MISERÁVEL é protelar a derrota. É como no futebol: está 10 a 0 para as potências mundiais contra o Brasil, ISSO aos 45 min. do segundo tempo. O BRASIL VIRA O JOGO? CONVENHAMOS... O mais engraçado: continuam cruzando a bola. Que eficiente, não? Então o Plínio diz: vocês só cruzam a bola, nunca farão GOL. Estaria errado? Não, certo demais. O certo nunca vence no Brasil. Senhor Plínio: É CONTRADIÇÃO DEMAIS PARA UM POVO SÓ! Quem tem esperança ainda de nacionalismo no Brasil (por vias democráticas) só pode ser OU cego OU louco. Por isso, tanto faz. Claro, se o Brasil fosse outro país, e entendessem um pouco do discurso do Plínio... por isso: não é questão mais de discurso. Quando foi nesse país? Niilismo passivo consciente da esperança mais absurda na humanidade sem a entidade capital, esse é o caminho para qualquer brasileiro.
22fev

As próximas Raposas Serra do Sol

Congresso reivindica poder de decidir sobre futuro das terras indígenas. Hoje, o País tem 335 pedidos de demarcação encaminhados. Por Marcelo Pellegrini

22fev

“O Tribunal transformou o processo jurídico em político”, diz jornalista processado

Alvo de 33 ações judiciais, editor de jornal alternativo no Pará conta os percalços do processo movido contra ele e fala das ameaças que recebeu em sua carreira

22fev

Vai que é sua, Aécio!

Quando anunciar oficialmente que disputará a prefeitura paulistana em 2012, José Serra sinalizará a desistência de voltar à corrida presidencial em 2014

19fev

A eleição e a Copa do Mundo

O Mundial pode tornar monotemático a disputa presidencial de 2014. Um vexame nos gramados terá menos elevância
que falhas na organização.