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Política

Favelas cariocas

A dura realidade do Rio de Janeiro que encanta o mundo

por Edgard Catoira — publicado 29/12/2011 06h39, última modificação 06/06/2015 18h57
Edgard Catoira repassa impressões do médico Arraes durante sua tentativa de socorrer um paciente na favela do Jacarezinho
Rocinha

'Políticas de segurança exclusivamente truculentas não resolvem o problema'. Foto: Fábio Motta/AE

Alexandre Arraes é medico, advogado e pós-graduado em administração pública. Com toda sua bagagem intelectual, tem pensado em entrar para a política.

Eu gosto de sua visão da sociedade, sob seu olhar multiprofissional cheio de sensibilidade humana. Se for para manter sua visão atual, valerá a pena ter alguém como ele para lutar pela cidadania deste povo carente que somos.

Para me explicar melhor, repasso suas impressões sobre sua experiência durante uma visita médica que fez, no ano passado, na favela do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Sua leitura das características e dos elementos formadores de uma comunidade como o Jacarezinho permeiam seu texto, proporcionando uma nítida imagem do que não é mostrado pela imprensa: galpões abandonados de antigas fábricas invadidas; comércio informal; promiscuidade de menores; desocupação de adultos; controle do tráfico encarado como rotina; idolatria dos traficantes; caos habitacional; ausência de condições sanitárias; valas a céu aberto; ausência de atendimento médico.

Repasso sua experiência e suas duras observações pessoais.

 

A crua realidade do Rio

O paciente morava no miolo da favela. A pedido de um amigo, fomos até lá. Entramos pela avenida principal – região que já abrigou sedes de grandes empresas, que depois se mudaram da cidade. Logo na entrada, meu amigo “desenrolou com o cara da situação” – um homem idoso, de óculos, bem diferente da imagem que eu tinha de um soldado do tráfico. O comércio aquecido tinha preços inacreditáveis – possíveis apenas pelo milagre da informalidade. A estreita via de acesso dava passagem a um único carro. Motos cortavam os carros e quase atropelavam os pedestres. Muita gente andava num ir e vir frenético. A superpopulação começava a ficar insuportável.

Além do comércio, não se percebia outra atividade produtiva. Vimos sim, pessoas em bares, conversando nas esquinas e sentadas nas portas das casas, jogando conversa fora. Meninas se excediam em micro shorts, mini saias, piercings e tops se oferecendo aos rapazes do tráfico. Chegamos a um ponto onde os carros não tinham mais acesso. Muito menos, ambulância. Eu não pensava em outra coisa: como poderia tirar dali uma pessoa gravemente enferma?

Foi aí que uma dupla de moto, armada até os dentes, passou e nos observou ameaçadoramente. O traficante da garupa, menor de idade, carregava duas pistolas na cintura e um fuzil atravessado no peito. O armamento devia pesar mais que ele. Durante toda a caminhada tivemos a desafiadora companhia desta dupla.

Durante uma hora andamos por vielas de, no máximo, um metro e meio de largura. Muitas casas tinham um segundo andar, em becos que formavam túneis, impedindo a entrada do sol. Passamos por valas a céu aberto; subimos e descemos escadas estruturalmente improváveis no meio da escuridão. Não havia espaço livre de construção ou de gente.

Até que chegamos a um local chamado de “praça”: uma área com menos de 100m2, que não passava de uma ponte sobre uma grande vala com esgoto a céu aberto. Ali, o sol conseguia chegar e muitos homens se fritavam, deitados no chão, cercados por um arsenal. Mais adiante, crianças jogavam bola sem se incomodar com a presença dos traficantes. Pareciam admirá-los. Havia num canto um corpo envolto em lençol branco sujo de sangue e mal coberto por um plástico preto. A bola de plástico rolou até lá. O garoto menorzinho foi apanhá-la, sem se importar com o cadáver. Tive vontade de voltar. Pensei no paciente. Como vamos remover o paciente do meio da favela? Como vão tirar este corpo daqui?

Seguimos. Mais escadaria. As construções ficavam cada vez mais precárias. A alvenaria ficou para trás. Pouco a pouco foi substituída por madeira, amianto e chapas de ferro e tudo o que ficasse de pé. Apesar do difícil acesso, da ladeira infinita, os moradores pareciam perfeitamente adaptados ao sobe desce. Senti-me mal, sinal de vertigem. Depois de duas horas de caminhada, meu amigo apontou uma casinha de madeira e pedaços de tijolos e pedras. Estávamos próximos.

Uma única porta. Entrada pela cozinha: havia um fogão com botijão de gás, ao lado uma televisão e, no canto, uma geladeira velha. Uma única lâmpada não dava conta de iluminar o ambiente. Não havia janelas. No único cômodo havia uma cama e umas “caminhas” improvisadas pelo chão.

O paciente estava quieto, deitado na cama. A mãe do enfermo me disse que ele tinha melhorado. Há três noites, depois de “chegar da vida, de madrugada”, começara a tossir sem parar, inclusive escarrando sangue. Na noite anterior, a febre alta provocara delírios, a ponto de não deixar ninguém dormir. Naquele dia, a febre tinha cedido e ele, finalmente, conseguiu adormecer.

Pretendia examiná-lo, sentado num banco, ao lado da cama. Tentei acordá-lo, sem sucesso. Ele estava frio. Temi pelo pior. Tentei pegar seu pulso, sem sucesso. Já não respirava. Suas extremidades estavam geladas. Lembrei-me do cadáver da praça que esperava por transporte. Tínhamos ali o mesmo problema. Chamei meu amigo.

A mãe se recusava a acreditar. Tentou acordá-lo. Sacudia o corpo do filho, até que se conformou: “Perdi o Zeca pra tuberculose”. Ela também já tinha feito o diagnóstico.

Meu amigo saiu por uns instantes. Voltou com alguns homens. Pude reconhecê-los. A morte do rapaz interrompeu o banho de sol dos traficantes. Embrulharam o Zeca no próprio lençol, desta vez sem saco preto, e o carregaram sobre as cabeças. Deixaram o corpo estendido na praça, ao lado do outro. Perto do campinho de futebol das crianças.

Sai dali frustrado e deprimido pela morte do paciente que mal examinei e também pela realidade dura que conheci logo que saí do nosso mundo formal e mergulhei nessa aula sobre o Rio que não se vê. Aquela favela fica numa área degradada, a 15 minutos do cinturão turístico do Rio de Janeiro – cidade que vai sediar a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.

Há muito que fazer, além de arenas e trans. Para isso é necessário conhecer o retrato fiel das favelas onde vive grande parte dos cariocas. O Rio real não é aquele que vemos de longe ou o que aparece em “flashes” nas propagandas de tevê. O Rio das favelas está doente, em estado grave. Não são as unidades de polícia pacificadora provisórias na Zona Sul, Centro e Tijuca que vão resolver. O buraco é muito mais embaixo. E não tem luz.

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