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A dor de Dilma

por Emiliano José — publicado 26/03/2008 16h12, última modificação 02/09/2010 16h24
O jornalista Mário Alves, secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), 47 anos incompletos, foi morto às primeiras horas de ontem, no 1º Batalhão da Polícia do Exército, situado à Rua Barão de Mesquita, 425, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde funciona o temível DOI-CODI

O jornalista Mário Alves, secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), 47 anos incompletos, foi morto às primeiras horas de ontem, no 1º Batalhão da Polícia do Exército, situado à Rua Barão de Mesquita, 425, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde funciona o temível DOI-CODI. Isso ocorreu depois de uma sessão de torturas que terminou com o empalamento do prisioneiro por seus algozes. Para isso, utilizaram um cassetete de madeira com estrias de ferro, causando-lhe hemorragia interna, perfuração dos intestinos e a morte.

O dirigente comunista foi preso no bairro da Cascadura, na noite do dia 16, e foi torturado por mais de oito horas ininterruptas, entre as 20 horas e quatro horas da manhã do dia seguinte, quando foi jogado numa cela já agonizante. Entre os torturadores, estavam o tenente Correia Lima, o pára-quedista Magalhães, um indivíduo identificado apenas como Timóteo, além do tenente-coronel Ney Antunes, do capitão Leão, do major Jacarandá, do capitão Gomes Carneiro, do investigador Boneschi, do cabo Gil, do capitão Zamith, do tenente Dulene Aleixo Garcez dos Reis, do major Fontenele.

Esse poderia ser o lead e o sublead de todos os jornais brasileiros do dia 18 de janeiro de 1970 não vivêssemos sob uma ditadura, que naquela conjuntura pós-AI-5, se considerava dona da vida e da morte, e que se especializava na tortura e não tinha receio de matar. A ditadura era o terror no Brasil de então. Começo a contar isso, não sem emoção, depois de ter participado, ano passado, como examinador, de banca de doutorado, na Universidade Federal da Bahia, cujo doutorando, Gustavo Falcón, desenvolveu a tese “Um caminho brasileiro para o socialismo – a trajetória política de Mário Alves (1923-1970)”. Foi aprovado. E a tese está se tornando livro nos próximos meses. Os dados do lead e do sublead foram recolhidos da tese de Gustavo Falcón.

Mário Alves nasceu na Bahia. São vários os dirigentes comunistas, do velho PCB, nascidos em terras baianas ou que se tornaram baianos por adoção. Podem ser lembrados, além de Mário Alves, sem que a lista esteja completa, Carlos Marighella, Jacob Gorender, Fernando Santana, João Batista de Lima e Silva, Giocondo Dias e Milton Caires de Brito. Gorender tornou-se um historiador de prestígio. E escreveu um livro que se tornou referência em relação à história da esquerda durante a ditadura – Combate nas trevas – a esquerda brasileira, das ilusões perdidas à luta armada. Falo dele porque, junto com Mário Alves, foi um dos principais articuladores do racha do PCB que resultou na fundação do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR).

Revisitei toda essa história ao ler a tese de Gustavo Falcón. Eu próprio fora companheiro de prisão de alguns militantes do PCBR na Bahia na década de 1970, entre os quais Theodomiro Romeiro dos Santos e Paulo Pontes da Silva e Dirceu Régis.

Sabia pouco de Mário Alves. Passei a conhecê-lo melhor. E a avaliar de modo muito positivo sua intervenção na vida política brasileira. Falcón faz um denso resgate da história do jornalista, intelectual, implacável debatedor que era Mário Alves. Mas, consegue produzir, sobretudo, um retrato de corpo inteiro do dirigente comunista.

Não é simples, depois do fim do chamado socialismo real, compreender o que era um comunista então e menos ainda o que era um dirigente comunista. Eram pessoas forjadas a ferro e a fogo, dispostas à luta, a colocar suas vidas em defesa das causas do socialismo e do comunismo, sempre dispostas a combater as tiranias. Com todas as imperfeições humanas, eram seres singulares, e alguns deles se destacavam de modo especial, como Mário Alves, talvez, enquanto em vida, o mais brilhante intelectual do velho PCB e depois do PCBR.

É uma curiosa trajetória, a de Mário Alves. Nascido nas barrancas do Rio São Francisco, no município de Sento-Sé, Norte da Bahia, filho de família latifundiária. É no Colégio Central, o mesmo que Marighella estudara, que vai descobrir a militância política, ali pelo fim dos anos 30, para nunca mais largá-la, e militância sempre vinculada ao PCB. Só em 1968 funda o PCBR, aderindo à perspectiva da luta armada.

Em 1970, como já dito, é assassinado de forma covarde, bestial, cruel. Logo que o livro de Falcón ganhar as ruas, os leitores terão a chance de compreender a riqueza da participação política desse baiano, sua contribuição às lutas para tornar o Brasil mais generoso para com seu povo.

Casou-se com Dilma Borges Vieira no dia 12 de dezembro de 1946, que foi sua companheira até a morte. Poucos dias depois de sua prisão, ela com 52 anos, iniciou uma dolorosa via-sacra à procura do marido. Dolorosa e infrutífera porque Mário Alves foi morto e tornou-se um dos desaparecidos sob a ditadura.
Dilma chegou a receber a informação da repressão, de modo desrespeitoso e agressivo, de que Mário Alves viajara para Cuba. Sofreu perseguições, foi submetida a várias horas de interrogatório, e nenhuma notícia do marido. Ela, no entanto, nunca descansou, nunca desistiu de denunciar o crime da ditadura.

Em 27 de setembro de 1970, escreve uma carta a Aparecida Gomide, mulher do embaixador brasileiro no Uruguai que havia sido seqüestrado pelos Tupamaros. “Todos conhecem o seu sofrimento, a sua angústia. A imprensa falada e escrita focaliza diariamente o seu drama – seu marido, um funcionário em serviço fora do país, foi seqüestrado, envolvido em acontecimentos de natureza política. A senhora, no entanto, não chora sozinha”. E segue a carta, corajosa, emocionante:

“Mas do meu sofrimento, da minha angústia, ninguém fala. Choro sozinha. Não tenho os seus recursos para me fazer ouvir, para também dizer que ‘tenho o coração partido’, ‘que quero o meu marido de volta’. O seu marido está vivo, bem tratado, vai voltar. O meu trucidado, morto sob tortura pelo I Exército, foi executado sem processo, sem julgamento. Reclamo o seu corpo. Não sei o que fizeram com ele, onde o jogaram”.
E, ao final, o desabafo, doloroso:

“O seu desespero e sofrimento demonstram que seu marido era bom chefe de família, que faz falta, é muito importante na sua vida. Mário Alves também foi bom chefe de família, faz falta, tinha uma filha que ele adorava. Era inteligente, culto, bom, pessoalmente nunca magoou ninguém. Morreu pelo amor dos oprimidos, dos injustiçados, dos sem voz e sem vez. Desejo um desfecho feliz para a senhora e para os Tupamaros”.

Os órgãos de segurança negaram sempre que tivessem prendido Mário Alves, quanto mais que o tivessem matado da forma que o fizeram. Só em 1º de dezembro de 1987, a União foi condenada pela prisão, morte e danos morais no caso de Mário Alves. Seu corpo nunca foi localizado. Dilma morreu em 1985, com sua dor e, quem sabe, com a convicção do dever cumprido, do amor cultivado naqueles tempos de cólera, sem ter conseguido saber o destino do cadáver do marido que ela tanto quis e honrou.